
Capítulo 265
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Kaden endireitou as costas e olhou calmamente para Brain e todas as tubulações ao seu redor. Notou que algumas dessas tubulações continham réplicas perfeitas do próprio Brain, mas também réplicas dos Outros Seis Lóbulos do Poder… inclusive do que ele mesmo havia morto com as próprias mãos — O Executor.
Só faltava Vaela.
Ao observar tudo isso, Kaden quase não precisou de uma apresentação para imaginar o que aquilo tudo significava. Mesmo assim, para ter certeza, precisava de uma confirmação.
Ele olhou diretamente para Brain. O homem encarava de volta, com os olhos brilhando de uma forma estranha, inumana. Kaden teve a estranha sensação de que Brain não o via como um ser humano, mas como algo a ser estudado… seu olhar brilhando como o de um pescador descobrindo uma nova espécie no mar.
"Isso é simplesmente perfeito", disse Brain, sua voz perdendo o tom usual de frieza, substituído por uma falsa calorosidade. "Estava me perguntando onde poderia conseguir o cadáver de um Warborn, mas quem diria que um iria até mim voluntariamente?"
Ele deu uma risadinha. "Os deuses realmente favorecem os humanos, não os chimpanzés."
"Acho que você deve ser o chimpanzé então", interrompeu Kaden, agora mais calmo, já que sabia que aquele homem queria matá-lo. "Para falar aquilo de si mesmo, é um pouco duro."
Sorriso de Brain não vacilou. "Você deve achar graça de si mesmo."
"Eu não. Mas você certamente é divertido. Talvez até ridículo." Kaden deu uma risadinha.
"Se você não sabe o que está acontecendo lá fora, deixe-me pintar um quadro para você." Kaden deu um passo ousado para frente, com as costas bem retas. "Não me pergunte como eu sei disso — eu mesmo não teria a resposta — mas minha mãe matou todos os membros da sua Casa. E, não se surpreenda, minha irmã e eu destruímos os Steelbeasts como as criaturas que eram, mentes vazias."
Ele esboçou um sorriso sutil.
"E preciso acrescentar meu pai? Ele matou Goremaw sem muito esforço. Parecia quase uma brincadeira pra ele."
Kaden caminhou até uma das Tubulações. Dentro, via um globo ocular humano, ou pelo menos ia presumir isso pela aparência. A cor era impressionante — um turbilhão profundo de azul e violeta. Quando ele o encarou, o globo ocular virou, vibrou, e o encarou de volta.
Quase deu um salto para trás de surpresa, mas seu corpo não semoveu. Fitou o olho penetrantemente, levando sua percepção ao limite para entender mais sobre aquele lugar.
Mas ele não precisou.
"Sei que todos estão mortos", disse Brain. Ele se virou em direção às tubulações onde Ziriel, Neron, Calix e Lucan estavam suspensos. Seus corpos flutuavam em um líquido azul pálido, olhos fechados, mas Kaden viu se remexerem de tempos em tempos e suas caixas torácicas subindo e descendo lentamente.
Ele franziu a testa.
Um sentimento ruim, que preferiria não alimentar, crescia dentro do seu coração como um mar inquieto.
Brain notou seu olhar e sorriu. "Agora parece que você entende." Seu tom era satisfeito enquanto caminhava ao redor da sala estranha, observando cada tubo com um cuidado e carinho comparáveis ao de um pai admirando seus filhos. Passou por Kaden sem a menor preocupação.
Kaden permaneceu imóvel, o aroma esterilizado e clínico de Brain passando rente ao seu nariz e permanecendo ali.
Acima, a guerra se avançava. Pessoas morriam. Oceanos de sangue se formavam e fluíam por todo lado, e ele parecia ser um espectador invisível, como se nada fosse sua culpa.
Seus olhos ficavam cada vez mais frios.
"E o que você acha de nós, pequeno Warborn?" de repente perguntou Brain, parando na frente da Tubulação que continha uma besta sem pele. Ela tinha uma aparência vaga de chimpanzé.
Ele olhou para a besta com uma condescendência suave.
"Uma mistura de hipócritas arrogantes que se acham deuses entre os mortais", respondeu Kaden.
"Não totalmente falso", replicou Brain, passando os dedos suavemente pela superfície lisa da tubo. "Somos abençoados com inteligência. Com a capacidade de ver o futuro, controlar emoções, manipular a mente alheia e muito mais. Mas ainda assim, somos incompletos de alguma forma."
Ele se virou, seus olhos azuis fixos nos vermelhos de Kaden com intensidade.
"Não temos a força física nem o rigor em combate dos Warborns. Não possuímos as bênçãos de mana e elementos como os Elamin. Não temos o instinto ou a adaptabilidade das bestas."
"E sabe o quanto isso foi angustiante para nós, que devemos ser o auge da humanidade, viverem com essas falhas?" Ele balançou a cabeça lentamente.
"Inteligência sem força para agir ou proteger é inútil."
"E foi por isso que todos eles estão aqui?" interrompeu Kaden, apontando para as tubulações onde o Cerveau flutuava dentro do líquido viscosa, com um tom vazio de emoção. "Foi esse o motivo de vocês terem iniciado essa guerra?"
Brain sorriu de canto, continuando seu monólogo sem dar atenção à interrupção. "Eu, como Patriarca, sofria. Era angustiante nos ver obrigados a jogar o jogo político contra um bando de chimpanzés como vocês, tudo porque sabiam empunhar uma espada com mais força."
Sua voz abaixou até quase um sussurro.
"Mas um dia, em Fokay, encontrei algo. Uma herança interessante." Ele fez uma pausa rápida. "A herança de um ser que deu origem ao maior monstro já lançado sobre Fokay."
"Era um homem que controlava a biologia de humanos, bestas e todas as raças conhecidas dos dois mundos. Uma pessoa capaz de se fragmentar em inúmeras partes e se reconstruir usando as partes de outras raças… de forma perfeita."
"Sabe quem estou falando, pequeno Warborn?"
Kaden permaneceu em silêncio, mas Brain não esperava resposta.
"Ele era conhecido como O Alquimista Proibido", finalizou Brain, encerrando seu monólogo e fixando seus olhos frios e calculistas em Kaden. O sorriso anterior, a falsa calorosidade, desapareceram por completo.
Começou a caminhar lentamente em direção a Kaden sem fazer barulho, suas passadas deliberadas, cada uma abafada pelas peles rasgadas espalhadas pelo chão.
Kaden não se moveu. Simplesmente assistiu Brain se aproximar, com a mente completamente tranquila. Já havia conectado a maior parte das peças sobre aquele lugar, mas precisava de mais confirmação. Seus olhos vagaram uma última vez pelo laboratório estranho até Brain parar a uma polegada dele.
Kaden esboçou um sorriso sutil, seu tom confiante, quase divertido.
"Então… você usou essa herança para criar réplicas dos seus familiares mortos? Para lembrança, talvez? Que lamentável."
Suas palavras tocaram uma ferida direta. O rosto de Brain se contorceu numa carranca profunda, enquanto olhava para Kaden com evidente desprezo.
"Réplicas?" ele ofegou. "Você deve ser um tolo. Todas elas possuem metade de sua consciência e metade de suas almas nesses vasos."
Ele deu um passo à frente, chegando perto demais para Kaden gostar, inclinando-se até quase encostar os rostos. Sua voz era fria, cortante, como uma nevasca.
"Tudo o que preciso fazer é colher os mortos lá em cima, reunir suas almas dispersas e suas consciências remanescente, e poderei ressuscitá-los perfeitamente, com os corpos novos e aprimorados que criei para cada um."
Kaden quis sorrir, mas se conteve. Criticar a obra de um cientista dedicado é se colocar na mira da destruição, apenas para provar o quão errado você está.
Brain era a personificação dessa verdade.
"Mas agora", disse Brain, sua voz sem qualquer calor, "mudei de ideia. Já possuo a linhagem do Elamin, embora não seja completamente pura. Mas agora… tenho a linhagem mais pura do Warborn bem diante de mim."
Sorriu. Um sorriso caloroso, mas totalmente falso. E, instintivamente, sem razão aparente, Kaden pensou imediatamente naquele hipócrita — O Sem Alma.
Seus olhos se arregalaram ao perceber a razão pela qual sentia aquela sensação familiar e nauseante quando Brain sorria.
Era porque esse homem sorria do mesmo jeito que O Sem Alma sorria. Um sorriso de pura hipocrisia. Uma falsa alegria.
'O Sem Alma? Devora-Almas? Alquimista Proibido?' Os pensamentos de Kaden corriam a toda velocidade. Sentia que estava quase descobrindo o segredo, mas sua linha de raciocínio foi brutalmente interrompida pelo sentimento das mãos de Brain em cada lado de sua cabeça.
Lentamente, ele ergueu seus olhos rubros e viu o olhar assassino frio sob o sorriso do bastardo, sentindo o cérebro prestes a ser destruído.
"Seu cérebro não serve pra mim. Eu vou—!"
"Devora-Almas", interrompeu Kaden com firmeza. Queria ter certeza da sua suposição. E, de fato…
Brain parou, olhou para ele com a sobrancelha arqueada, seu sorriso falso se alargando. "Como você conhece o epíteto do Sem Alma?"
Kaden sorriu. "Como mais? Eu devorei aquele bastardo. E você será o próximo."
Imediatamente, sua mão se chocou como um chicote na garganta de Brain, mas antes que tocasse nele…
EXPLODIU—!
O cérebro de Kaden foi destruído numa jorrada de matéria e líquido, espalhando pelos tubos próximos e pelo chão.
[Você está morto.]
Toc, toc.
—Fim do Capítulo 265—