
Capítulo 266
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
"Sem alma, hein..." murmurou Kaden, inclinando a cabeça. "Interessante, mas complicado também."
Ele suspirou.
Estava, claramente, dentro da escuridão densa da Morte, flutuando sem peso em um espaço onde o próprio conceito de direção não tinha sentido. Este lugar se tornou seu reino pessoal, onde o tempo não exercia influência alguma e — de uma forma estranha — todas as suas preocupações pareciam desaparecer, como se fossem engolidas por algo maior.
Naquele plano sem tempo, Kaden sentia-se como um deus. Um que podia criar mundos inteiros ou até fazer a própria existência parar de se mover, fazer a vida pausar, tudo simplesmente porque... ele precisava de um tempo sozinho.
Era uma sensação imensa, demais para ser descrita apenas com palavras. Porque quanto mais ele crescia, mais forte ficava, mais encontrava seres como as Maravilhas e aprendia os mistérios dos deuses... quanto mais Kaden compreendia que aquele lugar que ele entrava e saía casualmente não era coisa simples.
Era algo muito maior. Algo que ainda não podia entender completamente, mas que, ao mesmo tempo, sentia uma necessidade instintiva de compreender. Mas, por agora, ele não conseguia se dedicar demasiado, pois algo na parte de trás da cabeça dele se contorcia como um verme ensanguentado.
O Cerveau.
Aqueles bastardos arrogantes eram ainda mais intestinos do que ele imaginava. Não, bem mais. Quem diria que eles seriam capazes de dividir sua consciência, até suas almas, e implantá-las em corpos recém-criados só para sobreviver nesta guerra?
Não... sobreviver?
Os pensamentos de Kaden pararam imediatamente. Por que ele tinha assumido instintivamente que eles tentavam sobreviver?
Talvez não fosse o caso.
"Pense, Kaden. Pense... como era o cérebro?"
Ele se sentia confiante. Não estava nem um pouco preocupado com a guerra acima, nem com os oceanos de sangue que invadiam as ruas de nobres e comuns. E, se bem se lembrava, Brain tinha dito algo sobre coletar as almas e consciências daqueles que morriam nesta guerra para alimentar seus familiares e ressuscitá-los.
Quanto a como faria isso, Kaden não tinha ideia. Mas, pelas palavras e pelo comportamento de Brain, era fácil deduzir que ele queria que tudo isso acontecesse.
Ele queria essa guerra. Queria que as pessoas morressem. Queria um oceano de sangue para si mesmo, tudo para cumprir o plano ridículo que havia iniciado.
A mente de Kaden fervia, rodando em círculos vertiginosos, tentando juntar os fragmentos. Dentro daquela sala estranha, ele se lembrou de ter visto toda espécie de pele... toda espécie de órgão... toda espécie de corpo.
Seja humano... seja bestia.
Kaden reprimiu um calafrio ao perceber, finalmente, uma verdade macabra, lembrando das palavras que Brain tinha dito.
Humano superior.
"O Cerveau provocou essa guerra para alcançar seu objetivo... criar o humano superior", murmurou Kaden, com a voz baixa, mas carregada de um entendimento frio. Ele fez uma pausa, seu pensamento ainda atordoado pela enormidade da revelação.
Brain planejava dar ao Cerveau as características de Elamin, Warborn e bestas. Ou seja... a mana e as afinidades elementais dos Elamin, o domínio do corpo e da arma dos Warborn, e a adaptabilidade instintiva das bestas.
Ele queria fazer do Cerveau algo além do humano... algo perfeito.
Quando essa ideia surgiu, foi como uma lâmpada acendendo dentro da cabeça de Kaden, expulsando a escuridão densa, enquanto a compreensão surgia e envolvia seu cérebro.
Isso quer dizer que toda essa tragédia... foi em vão? Famílias perdendo tudo... amantes se atacando... irmãos se apunhalando... mãe, filha, pai, filho, tio, tia... mortos... tudo aquilo...
...porque uma família quis satisfazer seu ego?
O vazio já silencioso se tornou pesado com uma tensão silenciosa. Não por causa da descoberta em si, mas pela sensação que surgiu dentro de Kaden ao aceitar a verdade.
Ele queria repreendê-los. Queria chamá-los de malvados, arrogantes, pessoas sem empatia, muito menos compaixão, por aqueles na mesma condição ou inferiores. Mas não podia.
Porque percebeu que faria o mesmo se fosse a única maneira de ficar mais forte. Percebeu que estava disposto a eliminar todos, menos sua família e entes queridos, se isso significasse ganhar poder.
Era algo que já aceitava desde que despertou sua Vontade, mas ainda assim sentia um calafrio frio ao pensar na frieza de seu próprio pensamento.
E isso o fez questionar…
Qual a diferença entre ele e o Cerveau?
Existem muitas.
Kaden talvez matasse, mas não acreditava que o mundo estivesse abaixo dele. Pode matar, mas não provocaria que amantes e parentes se atacassem apenas por uma experiência abstrata, exceto quando fossem seus inimigos... e aí, seria culpa deles, pois Kaden não provocava sem ser provocado. Pode matar, mas não trairia ou manipularia sua própria família, nem tentaria eliminá-los por progresso.
Poderia parecer uma desculpa, uma mentira que ele contava para aliviar sua mente inquieta ou proteger sua moral frágil de ser destruída. E, honestamente, era. Mas naquele momento, ele precisava de algo que o diferenciasse do Cerveau... porque tinha a intenção de eliminar todos eles.
'Que hipócrita...' sussurrou Kaden, e inevitavelmente um sentimento de desânimo se instalou nele, recusando-se a abandonar. Naquele instante, o que ele mais desejava era ouvir a voz carinhosa e reconfortante de Reditha.
A quietude do vazio fazia-o sentir pequeno, com medo e sem importância no grande esquema das coisas.
Mas Kaden nunca deixou esses sentimentos pesado demais em seu coração. Jamais. Permitir que eles fermentssem seria uma tortura, arriscando uma morte pior do que qualquer que já enfrentou até agora. Uma morte pelo pavor de sua própria mente podre, uma morte nascida da dúvida em seu coração.
Sua Vontade era forte. Sua Vontade era única. Então, quando o desespero ameaçou penetrar, sua Vontade brilhou como um escudo, repelindo pensamentos inúteis e limpando sua mente.
'Sou Kaden Warborn, O Ceifador. Sou assassino, e vou matar até não ter mais motivo para fazê-lo. Não importa se o mundo me vê como mau.'
Porque sabia que sua família e entes queridos nunca o julgariam assim.
E isso bastava.
Porém, havia algo que Kaden não tinha previsto, cegado pela estreiteza de sua visão: um assassino implacável não enviaria seus subordinados para resgatar crianças inocentes da escravidão ou da morte.
No fim, quem — ou o que — seria Kaden?
Um herói? Um assassino? Um vilão?
Ele não sabia. Mas uma coisa tinha certeza: era Kaden Warborn, filho de Garros e Serena Warborn, irmão de Daela e Dain Warborn.
E, hoje, ele destruiria cada Cerveau tentando ressurgir das trevas.
"Suspiro..." suspirou, afastando esses pensamentos para focar na situação atual com Brain.
Death, aquele amigo silencioso e leal, entrou na conversa.
[Em que ponto do tempo você deseja ser ressuscitado?]
Kaden nem hesitou. "No momento em que entrei naquele lugar estranho."
Ele precisava ficar sozinho para o que estava prestes a fazer lá.
"E eu quero informações," acrescentou.
Isso era o mais importante agora... informações. Ainda havia tantas coisas que ele não compreendia, e esperava que todo o conhecimento que receberia desta vez o ajudasse a acabar com tudo isso de uma vez por todas.
[Você recebeu uma nova informação: O Alquimista Proibido.]
Kaden parou por um instante, então uma risada contida escapou de seus lábios.
"Ah... A sorte sempre volta quando menos se espera." riu, percebendo que, se houvesse uma estatística de Sorte no painel de status, esta estaria oscilando continuamente, piscando sem parar... como uma mulher.
Seus pensamentos inadequados foram rapidamente abafados por uma enxurrada repentina de informações que invadiram sua mente como uma onda gigante. Essa era grande demais. Kaden cambaleou levemente, seu rosto se contorcendo de dor enquanto tentava digerir tudo aquilo.
E, aos poucos, sua expressão mudou de dor para espanto absoluto. No final...?
"O que...?" quase ficou sem palavras. Porque o que havia acabado de descobrir mudava tudo.
Não só alguns membros do Cerveau ainda estavam vivos e escondidos bem dentro da floresta ao lado de Waverith, exatamente no lugar onde tinha conhecido Vaela pela primeira vez. Mas toda a cidade de Waverith, desde suas fundações até a extremidade mais distante, era uma colossal formação de runas gravada em cada centímetro do solo e da pedra, seu único propósito sendo coletar as almas e consciências dos mortos.
Uma formação criada pelo Alquimista Proibido... o maior runeiro e alquimista que já pisou na terra, em ambos os mundos, desde a época da Feiticeira.
Mas também... o criador daquele que viria a ser conhecido como...
O Devora Almas.
"Que droga...!"
—Fim do Capítulo 266—