Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 246

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Monstros são assustadores.

Não, vamos ser sinceros. Existem monstros por aí no mundo que poderiam fazer você desejar ter nascido sem olhos, só para não precisar ver sua aparência grotesca ou seus olhos horripilantes.

Sim, existem.

Kaden mesmo já tinha encarado sua cota de monstros — um deles até virou subordinado dele — mas, caramba…

Ele nunca tinha sentido uma tensão como a que estava sentindo agora.

Percebeu que eles não eram mais assustadores do que estar na frente dos seus pais, prontos para abrir os lábios e pronunciar palavras que poderiam fazer você ser expulso de casa com um simples movimento de mão.

Naquele momento, você ficaria paranoico. Cada olhar pareceria um julgamento dos céus. Cada gesto de abrir os lábios, uma prévia de condenação.

Porém, ele não estava sozinho. Veio preparado, veio pronto para encarar qualquer coisa — ou melhor, alguém — sua irmã, é claro.

Confiante o suficiente, ou assim ele achava.

Ela estava ao seu lado na cama de seda, mas Kaden se posicionou um pouco atrás, só por precaução caso o pai decidisse atacar. Assim, ele teria que primeiro colocar Daela no chão.

Apesar de duvidar que Daela aguentaria um segundo contra qualquer um dos pais se eles resolvessem brigar.

Sem esperança, ele estava.

Todos estavam dentro do quarto de Kaden. Garros e Serena estavam lado a lado, encostados na parede perto da janela.

Kaden amaldiçoou ao ver aquilo. Sua segunda rota de fuga tinha sido bloqueada daquele jeito.

Eles vestiam suas roupas de treino habituais, justas ao corpo, mostrando músculos bem além do normal, expressões calmas e relaxadas, mas ainda assim dava para notar traços de desconfiança crescendo ao perceberem como seus dois filhos estavam agindo.

Kaden não conseguia olhar nos olhos deles por mais de dois segundos seguidos, desconfiado.

Daela olhava para eles como se estivesse pronta para cortá-los em pedaços, algo engraçado, mas também suspeito.

Serena levantou uma sobrancelha.

“Fez alguma coisa de errado, meu bebê?” ela perguntou, os olhos negros como o vazio fixos nos vermelhos de Daela.

Ela claramente não estava falando com ela. Nesta casa, só tinha uma pessoa que Serena chamava de “meu bebê”.

“Bem, mamãe… na verdade depende de como você define ‘algo errado’,” respondeu Kaden com um sorriso forçado.

Garros fez uma pausa, virou a cabeça para olhar para a mulher. Ela fez o mesmo.

Seguraram os olhos por um ou dois segundos, então assentiram ao mesmo tempo, em perfeita sintonia.

“Ele fez alguma coisa errada.”

“Com certeza, fez.”

“É por isso que Daela está aqui? Para impedir que mostremos a ele por que somos seus pais?”

“Parece que sim. Engraçado, né, marido? Ela acha que consegue nos impedir.”

“Tenho até medo do meu riso maior que ela despencar.”

“Melhor controlar sua força, marido. Uma semana em coma já basta.”

“Ah. Estava pensando em um mês, mas tudo bem, vou ser o grande homem.”

O casal continuou falando sem muita preocupação, casualmente discutindo como deixariam a própria filha inconsciente por uma semana.

Sabem qual era o pior?

Eles estavam falando sério!

Kaden já começava a ficar desesperado. Rapidamente se inclinou em direção ao ouvido da irmã e sussurrou com urgência:

“Não me deixe aqui sozinho, irmã. Uma semana de coma não é nada. Você já viu coisa pior, né?”

Daela virou a cabeça para olhá-lo. Viu ele com o sorriso de quem tenta te enganar na hora de te passar a perna.

Mas Daela era uma irmã amorosa, então…

“Eu fico,” ela disse, dando um sorriso sério e levantando o polegar, como quem enfrenta seus maiores inimigos e triunfa.

Depois, olhou para os pais como quem encara seus maiores adversários.

Kaden quase se emocionou ao ver a ação fofa dela. Estava a um fio de levantar e beijar os pés dela.

Ok, isso estava um pouco exagerado. Mas, no fundo, a gratidão era verdadeira.

E agora, era hora de revelar tudo.

“Conta pra gente, o que você fez?” perguntou Garros, com uma voz como o som de um espaço se desintegrando. Cruzou os braços e olhou para os dois filhos com uma expressão calma.

Serena oimitou na mesma hora, com os braços cruzados, os olhos fixos somente na sua filhinha.

Kaden respirou fundo, sentindo que era agora ou nunca.

Ele pensou em várias maneiras de contar para os pais que decidiu não seguir a tradição de uma mulher só e, sim, ter mais de uma.

Considerou muitas formas. Algumas bem embaraçosas, mas todas viáveis. Até que, no final…

…Decidiu ser honesto.

Não havia necessidade de esconder que era apenas um hipócrita querendo mais de uma esposa porque não conseguia controlar um coração que mudava como areia no deserto.

Sem precisar, honestamente.

Às vezes é melhor encarar a verdade de frente, e por isso…

“Mãe, pai…” começou ele, com uma voz incomumente pesada.

De imediato, os olhos de Serena suavizaram ao ouvir aquela frase do seu bebê.

Garros, no entanto, não ligou para isso.

“…pode ficar decepcionados comigo pelo que estou prestes a dizer. Passei inúmeras noites olhando para o teto como um prisioneiro sem liberdade, tentando encontrar as palavras certas. Mas foi inútil, nenhuma palavra, ação ou lágrima poderia diminuir o impacto do que estou prestes a revelar.”

Sua voz estava dramática. Sua expressão se contorceu de dor intensa, apertando o peito como se fosse explodir.

Prontamente, seus pais esperavam algo que os destruísse por dentro. Algo que os partisse ao meio.

Porém…

“Eu amo mais de uma mulher.”

Simples. Enxuto.

Mas o silêncio que seguiu e as expressões de seus pais foram quase cômicas. E também angustiantes.

O rosto de Garros estava como de alguém perdido, incapaz de juntar as peças. Quase — quase — achou que seus ouvidos estavam falhando.

Mas dizer isso era como afirmar que água não molha.

Não faz sentido algum.

Então, ele ouviu direito… ou seja…

“O quê?” escapou, ainda surpreso com aquela revelação inesperada.

Serena, ao contrário, entendeu desde o primeiro segundo em que seu filho falou. Seu rosto endureceu como aço temperado.

Seus olhos ficaram frios ao olhar para Kaden.

O coração do jovem deu um pulo. Ele imediatamente se agarrando à irmã. Daela começou a se levantar e se colocou na frente dele, pronta para ficar inconsciente por uma semana.

“Você está mesmo sério?” Serena finalmente falou.

Ela não usou força nenhuma. Nada, absolutamente nada.

Mas, quando falou, parecia que eles estavam prestes a ser engolidos por um abismo sem fim, sem piedade.

Suores escorreram pelos pescoços dos irmãos.

Kaden suspirou, cansado.

“Sim, mamãe. Eu não quero isso. Sei que vai contra nossa tradição, e entendo — como mulher — que você não goste, mas…”

Ele deu de ombros, derrotado.

“…Gostaria de ter o poder de controlar minhas emoções, mas não tenho. Meu coração é um lugar volúvel que deu pedaços de si para mais de uma mulher.”

“Ignorar seus sussurros seria viver numa agonia silenciosa,” confessou.

Outra vez, silêncio.

Esse foi mais longo, mas de alguma forma menos pesado.

Garros olhou para o filho com uma expressão difícil. Não era do tipo de pai que controla as decisões dos filhos. Deixava-os fazer o que quisessem, contanto que estivessem convictos de que era o caminho deles, o que desejavam.

Mas isso… isso ia contra seu próprio âmago.

Serena também. Ela lutava com isso não só por tradição, mas porque entendia a dor de ver quem você ama nas mãos de outro.

Seu coração doía.

Ela queria dizer que não, mas Kaden era seu bebê… era seu filho. Seu mais novo.

A cria que deu ao mundo enquanto rastejava numa terra encharcada de feras e humanos caídos.

Ele era seu favorito.

Ela não conseguia olhar na cara dele, mexendo-se no lugar, escondido atrás da irmã, e dizer não.

Ele era simplesmente fofo demais.

Sua moral e seu amor de mãe estavam em conflito.

Mas, no fim, ela era mãe.

E como já disse uma vez… o amor de mãe é pesado… mas também oneroso.

Afinal, você não acha interessante?

Somente o amor de mãe consegue suportar o peso de um segundo coração batendo dentro dela.

Era algo tão único, tão poderoso que nem dá para descrever com palavras simples.

Então, com um sorriso derrotista,

“Ah… quem são aquelas garotas que roubaram o amor do meu bebê de mim?”

Ela cedeu.

Rainha do Vazio?

Não. Naquele momento, ela não era uma rainha, nem um monstro capaz de engolir o mundo no vazio com um olhar.

Ela era simplesmente uma mãe brilhante e amorosa.

E talvez essa fosse a coisa mais assustadora de todas — porque monstros podem te assustar, mas só o amor de mãe consegue te destruir e salvar ao mesmo tempo.

—Fim do Capítulo 246—

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