Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 237

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

O tempo passou. Ou talvez não?

Kaden não fazia ideia. O espaço ao redor não tinha mudado desde que começou essa missão.

Não havia sol para falar nisso. Nenhuma lua. Nenhuma estrela. Então, ele não conseguia saber se passavam dias, meses ou até anos.

Logo, restava apenas a ele, montanhas de corpos dilacerados e uma Vontade que o observava silenciosamente.

Era assustador. E, de certa forma, era estressante ter o olhar de uma entidade assim fixo em você, acompanhando com expectativa, como se antecipasse o que você criaria.

Kaden não conseguia deixar de se preocupar. De repente, sentiu a necessidade de não decepcionar. A necessidade de provar que tinha o que era preciso para criar sua própria Vontade.

Era uma sensação estranha, para ser honesto.

Ele não sabia como lidar com esse tipo de emoção, uma que nunca tinha sentido antes, mas deixou isso de lado por hora.

Agora, precisava pensar. Não, não era questão de pensar sobre o que iria fazer.

Havia apenas uma coisa.

Conexão.

Ele tinha que se conectar com sua espada… tinha que se conectar com Reditha.

Só pelo bem do próprio ego, Kaden se moveu e sentou-se sobre o cadáver do dragão morto.

Era enorme. Enormes. As escamas eram tão brancas quanto os dentes de um recém-nascido, perfeitas e reluzentes com brilho mesmo na morte.

No topo da cabeça dele, dois chifres afiados e salientes, da mesma cor do corpo, apontavam para o céu em ameaça.

As asas gigantescas se espalhavam pelo chão rochoso, mas a brancura de seu corpo era manchada pelo sangue de inúmeros corpos que rastejavam ao redor.

Parecia algo sagrado, santo, profanado pela podridão do mundo.

Era uma visão lamentável.

Mas Kaden não se importava nem um pouco.

Montou no dragão e se sentou entre seus dois chifres, de pernas cruzadas. Fechou os olhos, respirou calmamente, firme, e mergulhou mais profundamente, mais profundamente na conexão com Reditha.

Reditha respondeu com entusiasmo. Alegria e felicidade irradiavam dela, evidentes na maneira como finalmente ela conseguia a atenção total do mestre. Ela se agarrava firmemente àquela conexão, mostrando apenas amor e devoção.

Kaden ficou feliz. Mas também triste, ao ver como Reditha era feliz por algo que deveria ser natural entre eles.

Reditha era sua Origem.

Ele não sabia muito sobre as Origens, como surgiam, como suas hierarquias eram formadas. Mas sabia pelo menos uma coisa: cada Origem era única.

Podiam compartilhar tipos como Arma, Conceitual, Elemental…

Mas a própria Origem, o nome, as habilidades, a essência… nunca eram iguais.

Isso significava que a Origem era uma parte de si mesmo. Uma parte mais profunda do seu ser, que talvez ele desconhecesse ou tivesse ignorado.

Reditha era uma parte dele. Ela era uma espada de sangue. Ela nasceu para matar. Para travar guerras, queimar impérios, destroçar famílias.

Sim, ela era uma espada que matava.

E isso fazia de Kaden um assassino.

'Então minha Vontade precisa estar ligada a isso? Matar?' ele pensou, mas a dúvida pesava em seu peito.

Por sorte, ele não estava sozinho. Já sabia disso. Sabia que Reditha ainda estava viva, que ela podia entendê-lo e até agir por conta própria.

Mas uma parte de Kaden sempre via Reditha apenas como uma espada. Não podia culpá-la, ela era uma espada.

Porém, esse tipo de pensamento não o aproximaria do que buscava.

Ele precisava enxergar Reditha não como uma arma para enfrentar inimigos, mas como um ser dotado de emoções.

E todo ser com emoções tem medos, tem esperanças e, portanto… tem sonhos.

E com o solo de um sonho, uma Vontade brota.

Então,

'Qual é a sua Vontade, Reditha?' perguntou, sua lâmina repousando silenciosa em seu colo.

Reditha pareceu hesitar. O tom carmesim que brilhava dela ficou opaco, momentaneamente statico.

Ela ficou surpresa. Mas, mais do que isso, ela ficou feliz.

Seu mestre finalmente a reconheceu.

Seu mestre finalmente começava a vê-la além de uma espada. Além de uma ferramenta.

Ela era Reditha. Talvez não fosse humana, talvez não fosse um ser de carne e osso… mas emoções e sonhos nunca foram exclusivas dos que têm batimentos no peito.

De repente, seu tom carmesim se retraiu, até desaparecer por completo.

Seu mestre tinha perguntado sobre sua Vontade.

Mas, para ela, essa era uma pergunta boba. Sua Vontade sempre foi óbvia desde o começo.

Está na própria descrição dela.

A Vontade de Reditha…

'…de devorar.'

Ela queria somente devorar.

Kaden ficou chocado ao ouvir uma voz ressoar em sua cabeça. Ele não precisou pensar para saber que era a voz de Reditha.

Era suave. Mas, sob ela, havia uma fome que ele nunca tinha sentido antes. Uma fome tão avassaladora que ameaçava consumi-lo.

E, em vez de recuar, Kaden a abraçou.

Era a fome de sua espada. A fome de sua companheira. A fome de sua Origem.

Então, também era a dele.

'O que você deseja devorar?'

'Sangue e alma… o sangue de tudo. As almas de tudo.'

Kaden fez uma pausa.

'Quer que eu mate tudo.'

'Fomos feitos para matar.' Reditha ecoou veemente. 'Qualquer um que bloqueie o nosso caminho. Qualquer um que ultrapasse seus limites. Qualquer um que ouse fazer o que não deve. Seja deus ou mortal. Seja rei ou mendigo. Seja adulto… ou bebê.'

'Então, sem misericórdia?' Kaden perguntou, de olhos fechados.

'Misericórdia é dever dos deuses, Mestre. Nós não somos deuses. Somos assassinos. Somos assassinos pelo nosso objetivo.'

Kaden hesitou novamente. Depois, lentamente, abriu os olhos e parted os lábios.

'Qual é o nosso objetivo?'

O Escravo olhou para ele, ainda sorrindo suavemente.

Um leve brilho carmesim começou a envolver o corpo de Kaden.

Não eram seus Intentos.

Era sua Vontade — ou melhor, a Vontade deles.

A névoa carmesim girou, torceu-se e começou a assumir forma. Uma silhueta feminina surgiu — curvas e contornos formados por um brilho vermelho-sangue puro. Seus cabelos, seu corpo, seus olhos, tudo vermelho-carmesim, mas seu olhar queimava um vermelho mais profundo, mais terrível.

Ela se enlaçou ao redor de Kaden por trás, braços suaves, mas firmes, como um amante devoto. Aproximou-se dele, sussurrou em seu ouvido…

Porém, sua voz ecoou por todo o espaço, como um hino de uma demônio do mais profundo inferno.

"Nosso objetivo… nosso objetivo é simples, querido Mestre. Ser mais forte do que tudo que os mundos já conheceram. Quebrar todas as correntes que ousarem nos amarrar. Provaremos que tudo pode sangrar. Que tudo tem alma. E que exercemos domínio sobre elas."

O leve sorriso do Escravo se alargou.

"Então… um caminho de sangue e morte?" questionou, sua face se transformando em um sorriso demoníaco.

Reditha o espelhou.

"Você é um Guerreiro de Nascença. Você é Kaden. Você não nasceu; saiu de rastejar de cabeça para a frente para um mundo cheio de cadáveres. A primeira coisa que testemunhou ao nascer não foi um corredor seguro com curandeiros…"

"…mas sangue, morte e guerra."

O espaço tremeu.

"Você não nasceu para paz. Você não nasceu para tranquilidade. Você não nasceu para facilidade."

O ar ao redor deles começou a sangrar. rios carmesim escorriam do vazio, a própria realidade manchando-se enquanto a voz de Reditha parecia rasgar o tecido da existência.

"Você nasceu para matar. Para colher o sangue e as almas de seus inimigos."

"Essa é sua Vontade. Essa é a nossa Vontade."

O Escravo se levantou, desembainhando sua lâmina. Sentiu… a luta final se aproximava.

Uma luz vermelha intensa envolveu Kaden. Todo sangue da batalha se elevou, foi atraído para o ar e acelerou em sua direção.

Kaden abriu a boca, bebendo a enchente de carmesim, com os olhos fechados de êxtase. A projeção de Reditha sorriu, abriu a boca também, devorando junto com seu Mestre.

[A Quebradora está sendo fundida com sua Vontade nascente.]

Em segundos, cada gota de sangue havia sido consumida.

E a Vontade de Kaden nasceu.

Uma Vontade que se alimentava de sangue e almas.

Uma Vontade que ficava mais forte quanto mais seu Mestre se alimentava.

A Vontade do Colheitador.

Kaden surgiu do crânio do dragão, ereto, de cabeça erguida, coroado de sangue.

Parecia um homem amaldiçoado, trajado na profanação.

Reditha ainda se agarrava a ele, braços carmesim apertados ao redor de seus ombros, seus olhos ensanguentados fixos no Escravo.

E eles sorriam um para o outro.

"Vamos acabar com isso, Sla—!" Kaden parou no meio da fala, dando uma risada instead.

Não disse mais nada. Desceu do dragão, colocou os pés na frente do Escravo, levantou Reditha na postura de batalha.

Não precisavam de palavras.

O Escravo sorriu.

Ele também levantou sua lâmina.

"Você aprendeu sua primeira lição bem. Agora vamos ver se aprendeu as demais."

Kaden sorriu.

"Sim, Mestre."

O Escravo riu.

E a última luta teve início.

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