Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 226

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Cinzas… Cinzas.

Cinzas.

Por toda parte, só havia cinzas ao redor. Claramente era para ser uma floresta, afinal, é possível ver cinzas em forma de árvores por toda parte e a grama queimada.

Mas tudo estava sendo consumido pelo fogo, como se a fúria de um deus do fogo tivesse atingido aquela terra, transformando o chão em um tapete de cinzas. Mas não era um deus.

Era um homem.

Um jovem, se quisermos ser mais específicos.

Ao redor dele, estavam os corpos de bestas, agora mortos, carbonizados até o preto, com seus restos ainda soltando vapor pelo ar.

Ele estava sentado sobre um cadáver queimado até a morte, de pernas cruzadas, com cabelos invadidos por uma chama laranja que parecia — com a luz ofuscante do sol acima — a bailar como labaredas numa noite escura.

Seus olhos eram negros, algo piscava neles como se escondesse algo angustiante por dentro. Ele vestia roupas vermelhas de luxo, com fios pretos entrelaçados formando um símbolo.

Um símbolo que qualquer pessoa no império reconheceria.

Era o símbolo do Espírito do Fogo. E esse jovem não era ninguém além de Kenan Espírito do Fogo.

Aquele que amava Meris.

Seus olhos pareciam perdidos em memórias, enquanto ele recordava aqueles momentos. Com a mão no queixo, ele se lembrava da garota que virou sua vida de cabeça para baixo e que agora tinha desaparecido.

Passaram-se meses desde aquele dia. Aquele dia em que, na tolice, desafiou um herdeiro de Guerreiro do Fogo pelo coração de uma garota.

Uma garota que, na verdade, nem se importava com ele.

Ele tinha consciência disso. Sabia que Meris não o amava. Isso ele sabia de cabeça.

Mas ainda queria provar para ela, ou talvez para si mesmo… que era digno do amor dela.

Ou talvez o fato… de que ele era simplesmente digno de ser amado.

Era estranho para um herdeiro dizer coisas assim. Questionar se era amado ou não, considerando como sua mãe o adorava, e como seu pai — mesmo severo e rígido — na real, lhe demonstrava alguma afeição.

Bom… só se ele fosse bem-sucedido nos treinos. Mas vamos deixar essas details de lado.

Naquela época, ele era apenas uma criança idiota, carregando o peso da família nos ombros frágeis e fracos.

Ele queria uma saída. Uma oportunidade de alívio.

Algo que o ajudasse a esquecer todos aqueles deveres, todas as expectativas que as pessoas tinham dele. Ele queria algo — ou melhor, alguém — que o amasse, Kenan.

Meris era essa alguém para ele.

Infelizmente, não era para ele.

Ele tentou de tudo, até humilhar a si mesmo e sua casa por causa do amor dela. Porra, tudo que ele queria era a atenção dela.

Mas tudo isso foi em vão.

Meris nem sequer olhou na direção dele.

Isso o despedaçou em pedacinhos.

Como não ia ser?

Era tudo o que ele queria. E, no fundo, acreditava que só precisava de Meris para sair daquela situação. Sentir-se vivo de novo, desejar, esperar mais, viver mais.

Acreditava que ela seria sua salvadora.

Que ela seria sua luz neste mundo miserável.

Mas o destino tinha outros planos. Ele não conseguiu conquistá-la.

Foi devastador para Kenan. Mas, nesse processo, ele entendeu algo fundamental sobre a vida. Depois de levar uma sova até perder os sentidos, é claro.

O que você deseja nem sempre é, por padrão, o que você precisa.

Embora, perceber essa verdade não tornou mais fácil esquecer Meris.

Mas, com a ajuda do conselho suave da mãe, o olhar severo do pai, Kenan conseguiu se recompor antes de cair mais fundo no poço chamado Meris Elamin.

Sua mente estava focada nos treinos. Seu pai não ficava feliz ao vê-lo desafiar um Guerreiro do Fogo, então seus treinamentos se tornaram extenuantes, um verdadeiro inferno na Terra.

O obrigava a treinar com temperatura corporal de 38 graus Celsius. Ele parecia estar nadando em seu próprio suor, seu coração batia muito mais rápido, como se percebesse um perigo de vida.

E não parou por aí. Desde aquele momento, seu pai não parou de dizer palavras estranhas. Palavras que ele não entendia.

"Cinzas… cinzas, Kenan. Torne-se cinzas. Você precisa."

Ele repetia essas palavras toda maldita vez. Durante o treinamento, duelos, na hora do jantar ou até durante passeios à noite.

Era tanto… tão esmagador que Kenan começou a usar "cinzas" quase em todas as frases dele.

Ele suspirou.

"Cinzas… seu pai… agora vejo o que me tornei." Murmurou, balançando a cabeça.

Ele estava diferente agora. Postura mais ereta. Olhar mais focado. Sua mente menos obnubilada por pensamentos inúteis, por sonhos vazios de uma vida sem peso.

Entendeu melhor seu papel. E, gostando ou não, era o herdeiro do Espírito do Fogo.

Precisava honrar o nome. A herança. Carregar esse peso. Era pesado, opressor. Ele não queria sentir medo.

Mas sentia.

Apesar disso, tinha que suportar. Essa era sua missão.

Kenan suspirou saudoso, deixando escapar seus medos e preocupações com o futuro enquanto olhava para a floresta em chamas ao redor.

"Com isso, cumpri minha missão." Murmurou, então se levantou do cadáver da criatura.

Deu uma espanada nas mãos de forma despreocupada, pegou o núcleo primordial dos bestas espalhados pelo chão e se afastou.

'Cinzas… cinzas…'

Pensou.

Asterion — O Mercador do Magnata.

O Mercador do Magnata não tinha mudanças. O interior continuava igual ao da última vez que Kaden veio aqui, e as pessoas que trabalhavam lá também eram as mesmas.

Ou seja, Lisa Ndiaye ainda estava lá, com seu sorriso profissional que iluminava o coração desses homens e mulheres esforçados.

Mesmo assim, no instante em que Kenan entrou na sala, os olhos castanhos de Lisa se prenderam aos olhos negros dele e, imediatamente, seu sorriso derreteu como gelo ao fogo.

As pessoas na sala de espera olhavam para trás e encontraram Kenan em toda sua glória, andando direto em direção a Lisa.

Começaram os cochichos.

"Ei, o Cinzas chegou!" um cara cutucou o amigo, apontando para Kenan com a cabeça.

"Ah, droga, velho. Agora a Lisa vai ficar mal-humorada. Ela tava tão gentil hoje! Chegou até a perguntar da minha lesão na perna!" reclamou um.

"Vejo vocês, vamos parar de chamar esse cara de Cinzas."

Todos começaram a reclamar da presença do Cinzas — o apelido de Kenan por causa do costume de sempre acrescentar “cinzas” nas frases.

Kenan mal dava importância aos cochichos. Pra ele, tudo aquilo era como cinzas levadas pelo vento forte.

Ele se aproximou do balcão agora livre onde Lisa estava, mas ela franziu a testa para ele, sem censura.

"Não te avisei que não vou mais cuidar dos resultados das suas missões?" cuspiu, claramente irritada com Kenan.

O rapaz sorriu sem jeito, "Cinzas… eu, eu já peço desculpas," disse, coçando a cabeça nervosamente.

Ninguém se surpreendeu com aquilo.

Estavam acostumados a ver Kenan não só como herdeiro do Espírito do Fogo, mas também como o "Fanático das Cinzas" por Lisa.

Mas estavam enganados. Kenan não era um fanático por Lisa, ele só queria o perdão dela.

'Cinzas, seu vovô Albert… tudo isso por causa do seu conselho de cinzas.' Ele amaldiçoou silenciosamente, ainda olhando para Lisa que nem ao menos se deu ao trabalho de responder.

Ele suspirou internamente.

Havia aceitado o conselho do avô e decidido conquistar várias garotas para esquecer uma só.

No começo, estava confiante. Era bonito, talentoso, rico, com uma origem poderosa e profunda.

Honestamente, não havia motivo para falhar. E era verdade. Se não fosse por estar azarando direto em Lisa, que nutria um desprezo escondido por ele devido à sua inutilidade em manter Meris longe de Kaden.

Ela ainda não tinha superado aquele incidente. Virou uma escrava baixa, no final das contas. Tudo por causa de um jovem mestre incompetente.

Ela sabia que foi erro colocar toda a culpa em Kenan. Mas, além dele, quem mais poderia culpar?

Meris? Deus me livre, ela realmente valorizava a própria vida.

Kaden? Ele era inocente. Na verdade, Lisa até tinha pena dele por ser quem recebeu o amor de uma mulher como Meris. Ela era maluca.

Não, ela era ainda mais do que isso. O mundo desconhecia quão implacável, sem emoção e totalmente desprovida de moralidade Meris podia ser.

Ela era uma monstra.

Uma aberração que mantinha sua face sombria por motivos desconhecidos.

Pelo menos, para ela.

Tudo isso para dizer… Kenan era o canal da raiva, da frustração dela. E ela se certifique de mostrar isso a ele.

Especialmente agora, que Kenan parecia tão tranquilo. Ele havia perdido qualquer aparência de nobreza ao agir com pessoas comuns.

Eles perceberam. Então, ficaram audaciosos com ele.

Kenan não se importou.

'Tudo isso é inútil… cinzas… só cinzas. Mas que porra de cinzas…?'

Ele balançou a cabeça.

"Aqui, terminei a missão," disse Kenan, mostrando o núcleo primordial que obteve junto com a descrição da missão, como prova.

Lisa pegou com uma expressão de irritação e fez seu trabalho.

Kenan a observou calmamente, então abriu a boca para falar, mas…

"Não sei," Lisa cortou rapidamente, interrompendo-o.

"Você nem sabe o que eu estava prestes a dizer," retrucou Kenan.

"Sei. Você ia perguntar onde está a Lady Meris," ela disse, levantando o olhar do documento para encará-lo. "E eu não sei, Cinzas."

Os lábios de Kenan se contorceram levemente ao ouvir seu apelido.

Ele não gostava muito disso. Mas sabia que era inútil reclamar, esses caras nunca iam parar uma vez que começassem. E ele não queria mais usar sua influência pra intimidar.

"Não, eu não estava perguntando por ela," finalmente respondeu Kenan.

Lisa inclinou a cabeça, entre surpresa e confusão. Kenan sorriu e continuou.

"Queria te convidar para um encontro." Sua voz saiu mais alta do que o normal. Como se o próprio mundo quisesse que fosse ouvido.

O silêncio caiu instantaneamente.

Os homens suspiraram, amaldiçoando Kenan entre dentes.

"Esse cara… nunca aprende, né?"

As reações das mulheres foram diferentes. Elas olharam para Lisa com olhares venenosos de ciúmes. Se seus olhares pudessem fazer mais do que olhar, Lisa já estaria no chão, se contorcendo de raiva.

Por sorte, elas não podiam.

Mas nada disso passou pela cabeça de Lisa, cujo rosto se torceu numa raiva feroz. Ela abriu os lábios…

"Eu compraria o que você quisesse." Kenan acrescentou, de tom repentinamente confiante.

…Lisa fechou a boca de um estalo, parecendo assustar-se com uma mosca entrando na boca.

Lisa era uma caçadora de riquezas.

E ele tinha ouro, em abundância.

Kenan sorriu de canto.

'Agora vejo, somos o par perfeito de cinzas.'

Que idiota.

—Fim do Capítulo 226—

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