
Capítulo 227
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Fokay — Asterion, Castelo Real.
A sala era escaldante. Não de calor, como se poderia esperar, mas de nobreza, poder e, mais importante, de arrogância. Estava adornada de ouro, brilhando como água celestial sob um sol dourado.
O tapete não era um dos comuns; parecia seda de estrelas tecida de forma perfeita. Era macio ao toque, carregando um aroma doce e amadeirado.
Que visão fascinante.
Algo sob o qual seres algum pisavam era mais confortável do que as maiores camas que um homem comum poderia sonhar em dormir.
Que vida.
No centro dessa sala luminosa, ao lado de uma janela de vidro, dois seres estavam sentados de frente um para o outro.
Dois irmãos, para ser mais preciso.
Sora Asterion e Sirius Asterion.
Seus cabelos dourados combinados brilhavam mais do que a própria luz do sol, tremulando como fogo sob o vento. Usavam seus trajes reais dourados habituais, exalando luxo e superioridade.
No meio deles, uma mesa com alguns pastéis fumegantes e chá dourado. O aroma era celestial, capaz de acalmar a mente de um ser de nível intermediário e fazer um homem comum se sentir como se estivesse no céu, rodeado de uma multidão de mulheres nuas.
Era simplesmente delicioso. Verdadeiramente celestial.
Mas para os dois irmãos, esse chá poderia bem ser considerado água. Eles não sentiam nada ao beberem.
É o que o hábito faz com você.
"Você quer conversar, querida irmã?" Sirius perguntou, com uma expressão de seu sorriso sempre sutil. Ele estendeu a mão, tomou sua xícara de chá e levou-a à boca, sem tirar os olhos de Sora.
"Já te falei tudo o que sei, irmão. Por que insiste nisso?" ela respondeu, as sobrancelhas franzidas. Claramente irritada.
"Ao invés de me fazer perguntas, devia me agradecer," ela acrescentou, fixando o olhar na orelha esquerda de Sirius. Lá estava um brinco azul, em formato de lua crescente.
Era Lumina, agora na forma de seu artefato.
Sirius tocou suavemente o brinca, o sorriso dele se alargando um pouco.
"Já te agradeci, irmã. E mais do que isso, o fato de eu estar aqui falando com você e pedindo uma resposta já é uma misericórdia da minha parte," ele afirmou.
Sora franziu o rosto. Estava confusa.
Sirius balançou a cabeça, "Irmã, você é tão fofa. Se eu não tivesse convencido pai e mãe a deixar que fosse eu quem conversasse com você, agora você teria um deles, ou até os dois, na sua frente."
"Acha que eles brincariam com você nessa situação?" ele perguntou, relaxando a expressão e o rosto.
Ele não esperou uma resposta.
"Você sabe que não."
A expressão de Sora se aprofundou. Ela conhecia seus pais. Eram autoritários. Do tipo que não aceitam um ‘não’ como resposta, especialmente o pai. Aquele homem queimaria toda a casa por algo que o irritasse.
'Certamente tem problemas de temperamento', ela sussurrou com um escárnio interno antes de parar abruptamente.
Ela acabou de lembrar-se de Kaden dizendo a mesma coisa para ela. Seu rosto se contorceu, relutante.
"Ah! Preciso acrescentar também…", Sirius voltou a falar, interrompendo os pensamentos dispersos de Sora.
Ela o observou e viu um sorriso estranho no rosto do irmão.
"Temos seu guarda pessoal conosco. Qual era mesmo o nome dele? Rue? Roel? Ro—!"
"Rome", disse Sora, sua voz elevando a temperatura a um nível intolerável.
Sirius fez cara de que tinha entendido, batendo palmas.
"Sim! Rome. Aliás, estamos com ele na prisão subterrânea," ele disse, com tom de diversão, fingindo que não percebeu a raiva de Sora.
"Ele não tem nada a ver com o que aconteceu", ela falou, tentando segurar a fúria que ameaçava explodir na sua voz.
Sirius deu de ombros, "Por sua causa, ele está agora, irmã. Você fez ele mentir sobre sua localização. E quer saber o que mais surpreende?"
Ele finalmente perguntou, com um tom um pouco mais sério.
Inclinou a cabeça, olhando de perto para o rosto da irmã. Sua expressão não mudou, nem mesmo diante do calor que ela exalava.
"Mesmo agora… ele ainda diz que você está na sua câmara no castelo dourado. Mesmo quando eu disse a ele que te encontramos no meio do nada. A resposta dele permaneceu a mesma."
"Minha Senhora está na sua câmara descansando."
Imitou as palavras de Rome.
Sora começou a tremer. Línguas de fogo dourado começaram a surgir ao seu redor enquanto ela encarava o irmão com uma expressão abrasadora.
"Você o machucou?" ela rosnou.
Sirius sorriu mais amplamente. "Ele mentiu para mim, Sirius Asterion."
"Isso é um crime que custaria a vida dele, e a matança de toda a família dele, como porcos sem valor." Suas palavras eram frias, implacáveis até, mas seu sorriso era caloroso.
O contraste era brutal.
Sora cerrava os punhos com força até as juntas ficarem brancas sob a mesa, tentando ao máximo não agir pelas ideias ardentes pulsando dentro de sua cabeça.
Ela sabia que o irmão a provocava. Era um hábito dele, mesmo que nunca fosse por algo tão sério. Mas mesmo assim… ela conhecia o irmão.
Ela entendia que, quando ele agia assim, significava uma única coisa…
"O que você quer?" ela cuspiu.
Sirius levantou as duas mãos e começou a bater palmas. "Perfeita, irmã. Perfeita. Você aprendeu sua lição, não foi?"
"Sirius. Fala logo o que quer." Sora não estava com humor para suas artimanhas.
Parando, Sirius se acomodou melhor na cadeira, até lançando um suspiro de alívio com o calor. Então abriu os lábios,
"Kaden Warborn", disse.
Sora estremeceu, instintivamente, de surpresa. Tentou controlar o corpo, parando-o, mas foi tarde demais.
Sirius já a observava com um sorriso aberto.
"Eu tinha razão. Você conhece Kaden Warborn. Por isso foi pra floresta de Asterion? Para esperá-lo?" ele comentou, não como uma pergunta para Sora, mas mais para si mesmo.
Continuou a refletir desconcentrado, sem se importar com os olhos chocados de Sora.
"A floresta de Asterion foi queimada. Quando fui lá procurar, só encontrei cinzas. Não eram cinzas comuns… eram cinzas douradas. Essas só podem vir da nossa linhagem nobre."
Ele a olhou. Sora se sentiu desconfortável sob seu olhar penetrante.
Ele sorriu de lado e continuou.
"Claro, isso significa que foi feita pela minha querida irmã. Mas a questão é: por quê? Porque, ao observar a trilha queimada dentro e fora da floresta, parecia que você estava perseguindo alguma coisa, ou melhor…"
Ele sorriu largo.
"…alguém."
O corpo de Sora tremeu novamente. Dessa vez, ela não se incomodou em esconder.
"E, por acaso, você acabou dentro de nossa masmorra ancestral. Uma masmorra feita para seres no auge do rank Mestre com aspecto lunar. E você me diz, você, herdeira do sol, uma ser intermediária, conseguiu passar nesse teste?"
Ele balançou a cabeça.
"Você é uma gênio, irmã, como todas as Asterion. Mas não é tão monstruosa assim. Você não fez isso sozinha."
"E minha conclusão ficou ainda mais clara com sua saída chamativa, parecendo que você estava escondendo alguém." Ele balançou a cabeça de novo, desconfiado se a irmã pensava que eles eram tolos.
Porque ele tinha certeza de que não era o único a ter adivinhado tudo isso. A mãe deles também. Mesmo sem saber por que ela não agiu, ou mesmo por que não contou ao pai.
Isso não era problema dele, no entanto.
"Acho que não preciso dizer mais do que isso."
"Então me diga, irmã, onde está Kaden Warborn?" ele perguntou.
Sora ficou muda. Sua mente girava em círculos vertiginosos, tentando pensar em uma saída para aquela situação.
Seu irmão segurava Rome, por isso podia se dar ao luxo de ameaçá-la. E ela não podia recorrer aos pais, caso contrário seria pior.
Ela estava encurralada.
E Sirius sabia disso. Ele sorria levemente, como se já soubesse que conseguiria o que queria.
Ela mordeu o lábio com força.
"…Rome está seguro ou não?" ela conseguiu dizer, a voz vacilante, refletindo o estado da sua mente.
Sirius deu de ombros.
"Adivinha? Mesmo se fosse comigo… eu não apostaria na vida de uma pessoa tão leal. Eu ficaria com muita inveja se não fosse minha Luna."
Sora não respondeu. Seus olhos estavam fixos nas chamas tremeluzentes ao seu redor, feitas por ela na raiva.
Ao olhá-las, observá-las… como se moviam… como eram… tão volúveis.
'Volúveis…?' pensou Sora. Sua mente parou por um instante. Imediatamente, seus olhos se endureceram como metal sob pressão.
'Não sou volúvel', ela afirmou fortemente em sua mente.
Ela era Sora Asterion, herdeira do sol do império.
Como um sol pode ser volúvel? Como o povo comum viveria se o sol decidisse nascer um pouco mais cedo que o usual? Ou até se recusasse a nascer?
No longo prazo, morreriam.
Então ela não podia se dar ao luxo de ser volúvel. Isso não era seu jeito.
Ela tinha que ser como o sol.
Constante, incandescente, inalcançável, orgulhosa…
Ela tinha que incorporar tudo isso. Tanto que qualquer um que ousasse se aproximar entenderia por que o sol fica longe da terra.
Ela olhou para Sirius com seus olhos dourados queimando como um sol ao meio-dia.
"Não conheço nenhum Kaden Warborn," ela rosnou,
"E Rome melhor estar em plena forma."
"Ou então?" Sirius respondeu.
Instantaneamente, a temperatura subiu a um nível sufocante, chamas douradas surgiram de Sora, envolvendo-a completamente como um manto de fogo.
"Ou então você aprenderá como o inferno pode ser o sol quando alguém ousa se aproximar demais, irmão."
Sirius ficou em silêncio.
"Ah…" ele sussurrou. Então, seus olhos em forma de lua brilharam, mergulhando metade da sala na escuridão.
Ele abriu os lábios,
"O sol acha que pode queimar a lua agora?"
"Queimar?" Sora bufou.
"Eu a absorverei, irmão."