
Capítulo 224
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Todas as pessoas no domínio Cerveau ergueram a cabeça para olhar para o céu. Era para ser um céu normal, com uma lua brilhando sobre eles, dando pouca luz, mas o que viram fez seus corações pularem uma batida.
Chuva. Sangue.
Chuva de sangue.
No começo, eles não acreditaram. Para eles, o que estavam testemunhando era apenas fruto de sua imaginação distorcida. Uma imaginação que só poderia nascer em um mundo grotesco como Darklore.
Mas no momento em que a primeira gota de sangue caiu sobre seus corpos, ao perceberem o líquido viscoso e vil escorregando por sua pele, com seu forte cheiro de ferro, sua textura, e até mesmo seu gosto nos lábios…
A compreensão lhes invadiu.
O caos explodiu pela segunda vez.
As pessoas começaram a gritar como banshees reunidas com o único propósito de tornar o mundo surdo. Corriam sem direção, sem razão, com o único pensamento pulsando em suas mentes assustadas: uma única coisa.
Fuga.
Não a causa dessa visão aterrorizante… esse papel era dos acima deles, dos nobres.
Para eles, simples plebeus, tudo o que queriam era escapar desse pesadelo.
E eles conseguiram escapar.
Em meio ao caos, uma única mulher caminhava com calma assustadora. Seus cabelos eram cinzas, como cinza, seus olhos cinza-amarelados brilhavam com intensidade.
Ela não corria como os demais, não gritava nem chorava como se a lua acima estivesse desabando na terra, engolindo todos por uma explosão de destruição.
Ela parecia calma, como se nada do que acontecia fosse problema para ela.
'Missão concluída.' Alea pensou calmamente, seus lábios se curvando em um sorriso sinistro. Logo, ela desapareceu na imensidão dos homens desesperados que uivavam.
…
Dentro da mansão do Cerveau, tudo estava destruído.
O chão estava coberto de ossos fragmentados e cadáveres pertencentes ao próprio Cerveau. Sua carne, ossos e órgãos formavam um tapete no chão, parecendo alguma obra grotesca criada por um cientista louco na tentativa de fabricar uma nova aberração.
Os edifícios estavam arruinados, agora parecendo aglomerados de rochas quebradas jogadas juntas por uma criança brincando com seus brinquedos.
A névoa venenosa de Alea tinha desaparecido, mas a atmosfera permanecia desolada, agora carregada de névoa vermelha, pesada com o cheiro de ferro e morte.
Os sons de gemidos e lamentações das pessoas em agonia ecoavam pelo ar. Era como uma canção. Mas uma canção para os condenados.
Neron e Calix estavam ali. Eles não observavam seus súditos chorando. Em vez disso, olhavam para o céu. Para a chuva de sangue que teimava em não parar de cair.
No entanto, nenhuma gota de sangue tocava seus trajes brancos-azulados intocados, bloqueados por um campo transparente.
Suas expressões eram sombrias, lutando para compreender o que tinha acabado de acontecer. Mas a resposta diante deles era clara.
Lucan, o Executor, estava morto.
"Agora… isso é sério." Calix disse, sua voz mais fria do que o habitual.
Neron não respondeu, sua mente acelerando a velocidade do pensamento. E ele tinha razão.
Quem quer que tivesse atacado eles hoje… tinha alguma ligação com Vaela, de uma forma ou de outra.
"Vaela está morta?" Neron finalmente perguntou, enquanto um soldado do Cerveau surgia por trás deles.
O homem tinha o cabelo azul típico do Cerveau, mas seus olhos eram amarelos, demonstrando sua baixa pureza sanguínea.
Ele abaixou a cabeça em sinal de respeito. "Meus senhores… não encontrei nenhum cadáver lá. Apenas sangue espalhado pelo chão." respondeu, sua voz vacilando sob os olhares apáticos dos dois monstros à sua frente.
Eles não responderam.
Depois de esperar um instante, o soldado percebeu e imediatamente se virou, indo embora com um suspiro de alívio por ainda manter o controle de sua mente após encontrar Calix.
Mas será que tinha mesmo?
"Agora vocês entendem por que mandei o Brain matar ela ou, pelo menos, controlá-la?" Neron disse, sua voz estranhamente calma mesmo enquanto era envolto por uma névoa feita do sangue de seu aliado.
Calix deu de ombros, indiferente. "Nós não tomamos as decisões. Quem decide é o Brain. E parece que você esquece que estamos no mesmo nível de Vaela, e ela é uma Adivinha. Controlá-la seria uma tarefa assustadora."
Neron virou a cabeça para ele, olhos tão frios que pareciam congelar o próprio mundo sob seu olhar.
Calix não recuou. Mantinha o olhar indiferente.
"Um cérebro, hein? Que tipo de cérebro comete um erro tão caro, Calix?" zombou.
"Porque eu acho que você não entende claramente o dano que levamos hoje." disse apontando para as pessoas chorando no chão, os edifícios destruídos, a carne e o sangue espalhados pelo solo.
Depois, continuou.
"Você está vendo tudo isso? Isso não passa de nada. Todos eles podem morrer e o sol ainda não nascerá no oeste. Essas construções podem estar destruídas, mas são apenas pedra que podem ser recompostas controlando algumas mentes."
Ele se aproximou de Calix. "O que mais importa para mim é nossa reputação. E ela foi totalmente destruída hoje ao permitir que esse incidente acontecesse."
"E eu não preciso nem dizer o quão difícil é reconstruí-la."
"Posso controlar as mentes de todos—!"
"Calix, não diga bobagens na minha frente." Neron interrompeu de forma rápida e firme.
"Você está me dizendo que consegue pegar todos que testemunharam essa cena hoje e controlar suas mentes? É isso que está dizendo?" ele perguntou, com uma voz calma. Demasiado calma.
Demasiado assustadora.
Calix ficou em silêncio por um momento, depois deu de ombros. "Acho que não. Muito trabalho." respondeu indiferente.
Neron o encarou por um longo momento, sua expressão ameaçando ir além de apenas querer olhar.
Ele exalou um suspiro pesado e se agachou, levantando algo que estava debaixo do pé.
Algo que o cavaleiro tinha jogado para eles antes de se transformar em uma bola negra de luz e desaparecer, engolido pelo mundo.
Uma máscara. Uma máscara sangrenta, com lágrimas de sangue escorrendo pelas cavidades oculares.
Ele a virou, e na parte de trás estavam palavras inscritas em sangue carmesim, pingando de forma sinistra, como lágrimas.
"O Véu Carmesim precisava de seus olhos."
Neron leu as palavras.
Ele franziu a testa.
"Qual o poder dos seres que nos atacaram?" Neron perguntou.
"Se presumi que eram dois… o homem com aparência de cavaleiro e o Necromante escondido… ambos usaram poderes do tipo morte," respondeu Calix, com os olhos fixos na máscara.
Ambos pensaram na mesma coisa.
Da pessoa de quem tinham pedido informações a Vaela, só para ela dar uma desculpa qualquer dizendo que a morte enchia seus olhos de névoa.
"O Embaixador da Morte." disseram ambos ao mesmo tempo.
As mãos de Neron apertaram a máscara até ela trincar.
Ele se virou e foi embora, cada passo chamuscando sangue e carne espalhados pelo chão.
"Precisamos de alguém para se sacrificar pelo incidente de hoje. Escolha uma família sob nosso controle — uma rebelde — e aniquile todos. Depois, espalhe a notícia de que eles ousaram nos atacar e, assim, definir seu destino."
"A morte de Lucan deve permanecer em segredo por enquanto. Não podemos deixar que saibam que uma das principais bases da nossa família foi destruída. E…"
Sua voz ficou sem vida.
"Use detecção de linhagem sanguínea e descubra onde está Vaela. Não podemos permitir que ela viva."
Sua voz desapareceu enquanto ele sumia de cena.
Calix ficou imóvel por um momento, antes de avançar com passos decididos, já pensando na família que iria eliminar.
"Hoje será uma noite longa." sussurrou.
Logo atrás dele, dezenas de jovens — homens e mulheres, entre quinze e dezoito anos — apareceram.
Claramente, não eram membros do Cerveau, pelos tons de seus cabelos.
Seus olhos eram vazios, seus rostos rígidos e sem expressão, como esculpidos de gelo.
Eram assassinos treinados por Calix. Sem olhá-los, ele falou.
"Casa Verdi."
Instantaneamente, eles desapareceram no silêncio.
O alvo agora estava definido.
…
Enquanto isso…
Kaden corria pelas ruas de Waverith, tomando cuidado para não fazer barulho.
Vaela estava em suas costas, ainda sangrando.
Ele tinha dado a ela poções de cura de classificação máxima que tinha — ranke Único — mas nada funcionava.
Algo dentro da ferida dela bloqueava o efeito.
Ele rangia os dentes, tateando ao redor procurando um lugar para deitá-la e examiná-la com cuidado.
"C-Kaden…?" Vaela conseguiu sussurrar, com a voz rouca e trêmula, quebrada como o som de rodas de carroças sobre chão de pedra.
Seu poder ainda estava selado pelo colar vermelho.
"Silêncio… não fale. Conserve sua energia." ele sussurrou, quando de repente uma coisa brilhou em sua visão.
Ele virou a cabeça rapidamente e viu um rato.
Um rato amarelo com olhos como brasas vermelhas ardentes.
Ele olhou para ele com uma inteligência inquietante antes de desaparecer.
Kaden instintivamente seguiu, e no instante em que seu pé pisou no mesmo lugar, o sangue de Vaela caiu ao chão e brilhou.
Num piscar de olhos, Kaden, com Vaela carregando às costas, desapareceu.
—Fim do Capítulo 224—