Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 229

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Eles desapareceram.

Sim, Vaela e Kaden recuperaram a mesma formação rúnica de teletransporte, usando o sangue de Vaela como combustível, e sumiram de O Ninho.

Poderia parecer uma ação brutal e impiedosa. E era.

Kaden teria agido por conta própria se estivesse sozinho, sem Vaela para controlar seus impulsos mais irracionais. Mas Vaela estava ali, e ela virou a voz da razão.

Ele não gostava disso. Na verdade, odiava o fato de que, por causa de sua fraqueza, tinha que deixar crianças para trás e passar por esse inferno, passar por esse condicionamento para torná-las empedernidas, sem coração, marionetes que seguem ordens de seres que acham que dominam o mundo.

Eles não dominavam.

Mas parecia bastante difícil para eles perceberem isso.


Assim que eles sumsiram, minutos depois, um ser entrou na sala.

Era um homem extremamente antigo, com as costas curvadas, mãos e rosto enrugados ao ponto de quase não identificar suas feições — exceto pelos olhos azuis e pelo cabelo azul que, mesmo na idade avançada, brilhava com um brilho sobrenatural.

Ele caminhava apoiado em um cajado azul, batendo ruidosamente contra o chão branco, com runas brancas gravadas em cada centímetro dele. Ao entrar na sala, parou por um instante, olhando ao redor.

Levantar a cabeça e farejar o ar, aparentemente capaz de detectar coisas que outros não podiam.

E era verdade.

— Aquela mocinha esteve aqui — falou. Sua voz rangia como uma porta de madeira antiga na ventania.

Era desagradável de ouvir.

Ele sorriu sem dentes e então caminhou adiante, cheirando o ar novamente.

— Outro esteve aqui com ela. Hmm... mais jovem? Mais fraco? Sim, bem mais fraco. Mas... morte? — continuou a murmurar enquanto passeava pelo ambiente, até parar no local onde Kaden e Vaela estiveram se abraçando no chão.

Logo abaixo da cortina azul.

Ele se agachou, com ossos estalando, mas não ligou para isso.

Farejou aquele ponto como um cachorro e seu sorriso se abriu ainda mais.

— Que... interessante. A Cabeça gostaria de saber disso, mas…

— Não vou contar a ele. — ele gargalhou como um louco, o som àspera ecoando pelo cômodo. Sentou-se na cadeira principal do escritório, recostando-se confortavelmente, sua velha mente vagando ao passado.

Quando Vaela, Brain e todos ainda eram jovens, sem cicatrizes e... cheios de inocência. Como toda criança é.

Após tudo, nenhuma criança nasce má. Elas são criadas para ser más. E dificilmente se encontraria uma casa melhor para isso nesta dominação do que a Cerveau.

O velho balançou a cabeça.

— Destino... é o destino de todos nós, Cerveaux. Não estamos destinados a ser amados. Não estamos destinados a amar. Nosso papel é controlar, dominar, reinar sobre os camponeses, sobre os indignos. Essa é a lei da natureza. É assim que este mundo funciona.

— Nem todos os homens nascem iguais.

— E você, little Vaela, não nasceu para o amor. Você... mais próxima do destino do que a maioria, deve entender isso melhor do que nós. Então, por quê? — ele perguntou, embora fosse claramente uma pergunta retórica.

Ele balançou a cabeça, sentindo pena. Porque via aquilo…

A história se repetiria.

Vaela... você não foi a única em busca de amor numa família onde o conceito de família é um tabu.

Você não foi a primeira. Não será a última. Mas todos os seus destinos seriam iguais.

Uma agonia que correria até que aceitassem a amarga verdade.

A verdade de que…

Nenhum Cerveau nasceu para o amor.

Nenhum.

Por quê, afinal, o destino daria a eles um poder tão vil se fossem como qualquer outro homem por aí?

Ele gargalhou novamente, desta vez de forma tão forte que começou a tossir.

Tudo isso enquanto uma ratinha amarela de olhos vermelhos observava em silêncio, antes de desaparecer.

Como se nunca tivesse existido.

Mas será que ela realmente existiu?

Kaden voltou para dentro de sua casa. Foi direto ao seu aposento, encontrando Sabine na porta, com expressão calma e serena como sempre.

Ele deu um sorriso tímido, murmurou um olá e entrou na sala, fechando a porta em seguida. Tirou toda a roupa e foi ao banheiro. Lá dentro, havia uma banheira circular de vidro. Transparente e imponente, com formações rúnicas gravadas no fundo.

Colocou-se lá dentro, canalizou sua mana através da formação rúnica, e a água começou a borbulhar, enchendo a banheira instantaneamente.

Podia deixá-la quente, usando uma runa da formação, mas preferiu deixá-la fria.

Extremamente fria.

Vapor começou a sair de sua boca ao expirar, acalmando sua mente.

Ficou ali, imóvel, de olhos fechados, respirando firme, por meia hora. Então abriu os olhos.

Sua mente agora estava livre de qualquer impulsividade que pudesse turvá-la.

Sentou-se para refletir sobre tudo o que tinha acontecido naquele dia.

Após retornar a Waverith, Vaela o transportou imediatamente até a sua masmorra em Fokay.

Foi quando Kaden conheceu o reino além do grau de grande-mestre.

O Reino dos Epítetos.

Vaela não contou muito, mas Kaden já tinha deduzido o núcleo desse reino pelo nome.

Epíteto... títulos.

Os títulos que ele achava inúteis seriam a chave para adentrar naquele reino. E, como Vaela mostrou, os seres daquele reino não precisavam nascer exatamente no mesmo lugar que deixaram em Fokay.

Poderiam ir a qualquer lugar, desde que pudessem pisar lá ou estivessem na companhia de alguém que já tivesse pulsado naquele lugar.

E poderiam levar uma ou duas pessoas com eles.

Era uma loucura. Kaden ficou mais que surpreso na oportunidade. Pediu mais informações sobre esse reino, mas Vaela parecia relutante por algum motivo desconhecido. Ela só lhe deu um conselho:

Cuidado com o tipo de título que você obter.

Ele ficou bastante confuso com aquilo, mas concordou, pensando em refletir melhor depois.

No final, abandonou essa linha de questionamentos e pediu que ela trouxesse Alea até a masmorra.

E ela trouxe.

Agora Vaela, Nasari e Alea estavam todas dentro daquela masmorra.

Elas não se conheciam. Usavam máscaras e tinham cabelo tingido de vermelho-vivo. Ainda assim, alguns poderiam suspeitar as identidades umas das outras.

Exceto Nasari.

Ninguém sabia de onde ele tinha vindo, e ele não era de falar muito, especialmente se o papo não fosse sobre espadas ou o quão incrível seu mestre era.

Alea, ao contrário, era muito barulhenta.

Kaden quase fez ela ficar feia de novo só para calar a boca dela.

Mas não fez, felizmente para Alea.

— Muitas coisas aconteceram… — murmurou Kaden, acomodando-se melhor na banheira.

Agora, mais do que nunca, precisava ser um Mestre. A guerra se aproximava. E, por mais excepcional que fosse, ele ainda era um ser de nível intermediário, assim como qualquer outro.

Uma mera peça de artilharia inútil.

Precisava se fortalecer.

Precisava que sua organização fosse mais forte.

Precisava preparar sua família, formar alianças, desenvolver estratégias e colocá-las em prática.

Tudo mais se tornou inútil, exceto uma coisa.

Ser mais forte para matar de forma mais cruel, mais implacável, mais impiedosa.

Matar. Matar. Matar.

A intenção estava clara.

A direção, definida.

—Mar de sangue… — sussurrou Kaden, com os olhos brilhando de um vermelho sinistro. Levantou-se da banheira, gotas d’água escorrendo pelo corpo nu.

Deu um passo para fora, pegou sua toalha e saiu do banheiro. Seus olhos focados.

Era hora de ser um Mestre.

E eles iriam perceber.

Queriam abrir a boca e implorar por misericórdia, por perdão, por qualquer coisa que pudessem oferecer para escapar daquela situação. Mas não fariam isso.

Tudo o que fariam seria emitir sons de gorgolejo enquanto se engasgavam com seu próprio sangue nojento.

Acham que os outros estão abaixo deles. Que foram feitos para reinar, controlar.

Mas será que eles não sabem?

Se cortarmos, eles sangram vermelho. Como qualquer mendigo numa cama encharcada de vômito na favela, comendo sujeira e vermes para não morrer de fome.

Se cortarmos suas cabeças, eles morrem. Como qualquer frango morto na fazenda.

E se eles não acreditam nessas verdades simples... ele irá mostrar a eles.

Seria implacável.

Executaria todos e mostraria que, no final…

…eram apenas homens.

Não deuses do capiroto.

Comentários