
Capítulo 219
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Kaden não ficou ali, conversando bobagens sobre músicas com Sora enquanto esquecia da morte iminente que os assolava.
Não, isso teria sido uma tolice da parte dele.
Ele passara a compreender o peso da vida, e por isso não se entregaria facilmente sem esgotar todas as possibilidades de se libertar dessa provação.
E foi assim que pensou. Pensou em como limpar essa masmorra.
A paisagem árida se estendia sem fim, com nada além de gelo e neve — sem pistas, sem sala de chefe escondida, nada — e isso sozinho já mostrava que estavam abordando a problema da maneira errada, pensando na direção errada.
Essa percepção fez Kaden dar um passo para trás e fazer uma única pergunta a si mesmo.
Qual era a causa de todo o sofrimento deles?
A resposta veio, afiada e incontestável.
A lua.
Era a fase variável da lua que os havia lançado de volta ao inferno repetidas vezes, arrastando-os de volta quase mortos a cada rodada. E assim Kaden pensou…
Se a lua era o problema… então o que aconteceria se eles matassem a lua?
Era um pensamento ousado. Não, mais do que isso — era um pensamento inconcebível, algo que nenhuma pessoa sensata sequer ouse considerar.
A cabeça de Sora nem mesmo tinha se aventurado por esse território.
Mas a de Kaden sim, e por uma razão específica…
Ele tinha visto um sol sangrar uma vez, naquela visão. E se um sol pudesse sangrar, então ele poderia morrer. E se um sol pudesse morrer…
'Então uma lua também pode ser morta', pensou Kaden enquanto olhava friamente para a esfera luminosa acima, seu intento inflamando-se violentamente, espalhando um cheiro sufocante de sangue e morte na atmosfera congelada.
Durou apenas um momento antes de ele controlá-lo, virando o rosto em direção a Sora, que o encarava como se ele tivesse acabado de dizer heresia diante de seus olhos.
Ele sorriu de canto.
"Qual é, voz de ouro?"
"Você está louco," ela respondeu, franzindo a testa com firmeza.
"O que você acabou de dizer que vamos fazer?" ela insistiu, metade duvidando que tivesse sido ouvidos corretamente.
Porque não havia como aquele cara ter acabado de dizer aquilo…
"Matar a lua." Kaden respondeu com segurança.
…ele realmente disse isso?
Sora não conseguiu acreditar no que ouviu. Não… não era apenas descrença — algo dentro dela se retraiu com aquelas palavras, um desconforto visceral, como se o que ele tinha falado fosse um sacrilégio, uma ofensa à sua própria linhagem.
Ela balançou a cabeça rapidamente. "Não podemos matar a lua. Uma lua não pode ser morta." ela resmungou.
"Pode sim. E nós vamos fazer isso."
"Ou seja, se você quer sair deste reino vivo. Não se esqueça que temos uma hora antes de a morte bater à nossa porta. E desta vez…"
Ele a olhou com uma seriedade implacável, seus olhos vermelhos como sangue cintilando de forma sinistra.
"Desta vez, tenho medo que você não verá apenas suas entranhas rolando pelo chão como água. Você verá a própria vida sendo apagada do seu corpo… exatamente como uma vela que é consumida pela ventania."
Sora cerrava os punhos com força, encarando-o com desafio enquanto rosnava: "Conseguimos sobreviver até agora. Podemos conseguir de novo. Só precisamos trabalhar juntos como sempre fazemos."
Kaden ficou honestamente surpreso ao ouvi-la falar assim em voz alta.
Quem diria que aquela princesa orgulhosa, que recusou qualquer ajuda desde o princípio, seria agora a que pronunciava essas palavras?
Era quase engraçado… mas Kaden não riu, pois o tempo estava se esgotando.
"Agradeço sua confiança em mim, mas não há como sairmos vivos da próxima."
"Você é apenas um covarde. Está desistindo porque as coisas estão difíceis. Você é mesmo um Guerreiro da Guerra? Está decepcionando," ela cuspiu, o olhar ardendo de decepção visível.
Kaden cruzou o olhar com ela por um longo momento antes de se virar para encarar a lua acima novamente. Seus lábios se abriram.
"Você é o covarde," disse ele, com uma voz carregada pelo peso da própria morte.
"Você se recusa até mesmo a imaginar a ideia de matar a lua porque ela toca algo bem fundo dentro de você, não é? Afinal, se a lua pode ser morta, então o sol também pode ser, as estrelas podem ser eliminadas… Então não é…!"
"Não ouse!" Sora vociferou, interrompendo-o enquanto se aproximava, parando a apenas um passo dele, o olhar ardendo intensamente.
"Não ouse continuar com essas palavras." ela repetiu, com fogo vibrando ao redor, como gotas de luz derretida explodindo ao redor.
"Não podemos matar a lua. Há outro jeito. Ainda não encontramos."
Kaden olhou para ela com olhos impassíveis, o rosto imóvel.
"Você está presa na sua própria mente. Como espera conseguir criar uma música assim? Mesmo que consiga, ela será pálida, vazia, desprovida da personalidade que toda verdadeira canção deve ter," ele disse com frieza, fixando o olhar nela.
Sora vacilou, as palavras dele tocando numa ferida que ela preferia manter oculta.
"Não é verdade!" ela retrucou.
"Então prove." Kaden disse, antes de dar um passo à frente e desaparecer na caverna.
Seus passos cravaram contra o chão coberto de neve, vapor saindo de sua boca e nariz a cada respiração calma, os olhos fechados enquanto ele se entregava à meditação.
Sora apareceu por trás dele, hesitante, mas não podia aceitar que Kaden a estivesse menosprezando assim.
Ela rangeu os dentes. Sabia que estava sendo provocada, mas isso não mudava o fato de que ela não deixaria essas palavras sem resposta.
'Minha mente está presa? Minha mente não está presa. Você é o tolo e arrogante,' ela pensou furiosa.
"Quer matar a lua? Que assim seja. Vamos fazer isso. Você vai ver como suas ações são inúteis quando confrontar o celestial," ela falou, com a voz baixa, carregada de raiva não disfarçada.
Os lábios de Kaden formaram um leve sorriso ao abrir os olhos.
"Perfeito." ele disse.
Sora deu um passo ao lado dele. "E qual é o seu plano?" ela perguntou com desprezo.
"Você não deveria saber disso? Você carrega o poder do sol na sua linhagem."
Ele sorriu.
"Então deve saber que não podemos ter o sol e a lua no mesmo céu, ao mesmo tempo."
Os olhos de Sora se arregalaram.
O sorriso de Kaden se alargou.
"Vamos criar um sol, voz de ouro. Um sol que devore essa lua e nos liberte do frio eterno."
A ideia era insana.
Mas…
'Por que… por que estou me sentindo tão animada?' perguntou Sora, tremendo do corpo todo enquanto uma onda de excitação a invadia.
Algo na imagem de um sol engolindo a lua tocou fundo nela, ressoando com sua linhagem de herdeira do sol. Mas aquilo era mais do que isso — no fundo da sua mente, algo começava a se formar…
Algumas palavras.
Algum ritmo.
Algumas letras.
A sua própria música estava tomando forma. A inspiração começou a fluir dentro dela como fogo correndo por lenha seca. Ela virou a cabeça rapidamente para Kaden, que a observava com aquele sorriso conhecedor.
"Vamos fazer agora." ela disse, com urgência na voz. Estava assustada que, se atrasassem demais, ela perderia essa faísca frágil de inspiração.
"Seu fogo solar, meu sangue. Sua intenção de chama, minha intenção de morte e sangue."
"Vamos unir tudo."
No instante em que pronunciou essas palavras, agiram.
Sora levantou a mão direita, palma voltada para o céu. Kaden fez o mesmo, colocando a mão por baixo da dela.
Sora se concentrou, os olhos estreitando-se enquanto uma chama dourada emergia de sua palma, formando primeiro uma bola de fogo do tamanho de uma bolinha de tênis, que crescia lentamente até atingir o tamanho de uma bola de basquete. O calor aumentava junto com o tamanho, derretendo a neve sob os pés deles, cuspindo vapor em rajadas enquanto o ar ao redor ficava pesado de fogo, envolvendo-os em uma capa de névoa.
O espaço começou a ondular como ondas no mar, enquanto a temperatura atingia picos impossíveis.
A esfera de fogo dourada mudava de tonalidade, uma leve tonalidade branca invadindo sua superfície, revelando o quão escaldante ela tinha se tornado.
O rosto de Sora suava, a mão tremendo enquanto ela lutava para estabilizar a massa de poder que invocava. A bola de fogo agora tinha o tamanho de uma roda de carro.
Ela foi mais além, entrelaçando sua intenção de fogo na esfera, cobrindo-a como um véu, fazendo o orbe flamejante ficar ainda mais quente, letal.
Vapor a envolvia toda, espesso e sufocante, até que fosse impossível enxergar qualquer coisa. O fogo consumia tudo, e elas permaneciam dentro de uma névoa cinzenta, um mundo de névoa onde os segredos da criação pareciam escondidos além do nevoeiro.
"É—É a sua vez," ela respirou, a voz tremendo pelo esforço.
Kaden assentiu. Sangue saiu de seu corpo, envolvendo o fogo. A Soulbrand fundiu-se a ele, seu sangue corrosivo e mana da morte o seguindo. Então vieram seus dois intentos — espada carmesim e morte — penetrando na mistura.
E adicionaram seu sangue juntos, a fusão subindo em direção ao céu.
Este era um reino de prova, então o céu era artificial, não os céus inalcançáveis de Darklore ou Fokay.
E assim, sua esfera flamejante tocou o céu, enquanto ondulações se espalhavam acima, evaporando as nuvens, o falso firmamento tremendo.
Foi então que Kaden finalmente liberou o que vinha segurando há tempo.
"Olhe." ele disse a Sora, que fitava o céu, o coração acelerado.
Kaden invocou sua síntese de traços com uma única instrução.
'Sol Sanguinolento.'
O efeito foi imediato. No céu, ao lado da lua cheia azul brilhante, a fusão começou.
A bola de fogo girou e se torceu, as forças fundindo-se perfeitamente até que um sol nasceu — um sol dourado marcado por vermelho escarlate, seu corpo celestial escorrendo sangue nas bordas como feridas que não cicatrizavam.
Ele irradiava uma beleza sacrilégica, anormal, algo que não deveria existir, mas existiu, e assim desafiou as próprias leis do céu.
Sua luz escarlate espalhou-se pelo horizonte, queimando o gelo sem fim em um deserto de vapor, transformando o mundo em um mar de névoa crescente.
Então, o sol avançou. Pela ordem de seus criadores, estendeu suas tendas de fogo ensanguentado, envolvendo a lua, começando a devorá-la.
Não para matar.
Para consumir.
Um grito rasgou o reino — um lamento profundo, estalado de dor, enquanto a lua se partia, o espaço se fracturava em milhares de lascas ensanguentadas, a terra se abrindo. O céu antes pristine branco derramou-se em vermelho escarlate.
A lua chorou.
Mas o sol não parou. Devorou, impiedoso, como uma besta faminta cravando seus dentes na presa.
Sora ficou ali, paralisada, a mente expandindo-se até que algo finalmente se conectou dentro dela.
A inspiração se inseriu profundamente em seu ser.
Seus lábios se curvaram num sorriso… radiante, feroz, um sorriso brilhante, rivalizando com o sol sangrento acima.
Então, instintivamente, ela abriu os lábios e cantou.
Ela cantou sem pensar em Kaden, sem pensar no mundo de vapor que os envolvia.
Ela apenas… cantou.
Uma música nascida do orgulho e da arrogância do sol, mas moldada pela inevitabilidade do sangue e da morte.
Uma canção que revelava o fogo ardente dentro dela, um fogo que se recusava a ser apagado pelo desprezo da sociedade, uma música forjada com o sangue que ela estava disposta a derramar para alcançar seu sonho.
E assim ela cantou, com o grito de morte da lua como companhia, e o herdeiro da morte como testemunha.
Sim, essa foi sua primeira canção.
Era…
Kaden sorriu de sabedoria, fechando os olhos enquanto escutava.
"Uma canção de Fogo e Sangue."
DING!
{Parabéns, Sora Asterion, você recebeu um novo título.}
{Título conquistado: A Voz de Ouro.}
{Deixe sua voz carregar o seu fogo e iluminar o mundo com sua glória.}
—Fim do Capítulo 219—