
Capítulo 218
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Sora ficou boquiaberta.
Ela estava ali, com os olhos arregalados, enquanto as palavras de Kaden ressoavam na sua mente incessantemente, como um refrão que se recusa a terminar. Seu coração pulsava forte, dominado por uma mistura de excitação, esperança e até medo, tudo se chocando dentro dela como fios de fogo e sangue entrelaçados por uma mão de feiticeiro, espalhando suas emoções descontroladas.
Depois de tudo, ela jamais imaginou, na vida, que ouviria alguém não repreendê-la por amar cantar.
"N-Não... você... está sério?" ela gaguejou, incapaz de conter a turbulência de emoções que tremulavam pela sua voz.
Kaden assentiu de forma simples. "Claro que estou. A pessoa mais influente costuma ser aquela que sabe usar essa coisa direito," explicou, apontando para a boca com a mão livre enquanto a outra permanecia virada para o salmão no fogo.
"Palavras podem te amarrar, palavras podem te libertar, palavras podem te incendiar, palavras podem te destruir, palavras podem te fazer ficar furiosa, palavras podem te fazer sorrir."
Ele fixou profundamente seus olhos tremulos.
"É assim mesmo. Então, consegue imaginar se você algum dia dominasse essa habilidade? A capacidade de usar as palavras de forma tão bonita que fosse capaz de incendiar almas como um céu de fogos explodindo ou apagá-las com a facilidade de apagar uma vela miserável…?"
Ele sorriu.
"Acho que seria incrível, se você me perguntar."
Neste momento, Sora tremia de excitação. Em sua mente, ela já fantasiava sobre poder fazer tudo aquilo, embora… ainda houvesse uma parte teimosa que permanecia cética.
Não era que ela não quisesse acreditar em Kaden, mas ela cresceu em um ambiente onde cantar era considerado passatempo de inúteis, uma ferramenta de bajuladores cuja única qualidade resgatável eram boca peçonhenta — bocas que elogiavam, acalmavam seu orgulho e a faziam se sentir melhor com palavras vazias.
Então, ela não pôde evitar perguntar, com a voz carregada de dúvida: "Como você sabe de tudo isso?"
Kaden deixou de lado o salmão bem feito e colocou outro na frigideira para si.
Sem levantar os olhos, respondeu com franqueza, seu olhar ainda sobre o peixe fritando. "Porque sou mais inteligente do que você." Seu tom era neutro, sem zombaria, como se estivesse apenas afirmando um fato indiscutível.
"Você não é." Sora retrucou imediatamente, sentindo uma ferida na orgulho sendo aberta na hora.
"Então, como é que espera que eu saiba de tudo isso e você não?"
"Se o que você disse for verdade, então é conhecimento, não inteligência. São coisas diferentes," ela rebateu sem hesitar, fazendo Kaden ficar em silêncio.
Ele inclinou a cabeça, suas palavras obrigando-o a reconhecer uma verdade. Então, olhou para ela com surpresa sincera, os olhos estreitados numa suspeita brincalhona.
"Você… é você a voz de ouro que eu conheço? Não há como aquela garota sem estudo, que uma vez ameaçou um homem inocente como eu, dizer algo tão sábio."
Disse isso enquanto a olhava como se ela fosse uma impostora vestindo a pele de Sora.
Os lábios de Sora se contorceram violentamente; a leve sensação de calor que começava a surgir por Kaden, após suas palavras anteriores, desapareceu como névoa sob o sol da manhã.
"Eu sou uma As—!"
"Por favor, chega de ficar dizendo isso. Você é uma Asterion, eu entendi. Não precisa repetir toda hora." Ele a interrompeu de repente, e desta vez Sora esteve pronta para saltar através do fogo e morder seu rosto. Mas, antes que pudesse agir por impulso, a voz de Kaden voltou ao tom sério.
"Eu não estava brincando," afirmou com firmeza, fazendo Sora congelar e ouvir.
"Você só precisa tentar. Entregue tudo de si ao seu talento, e aos poucos você verá os resultados."
Ele mexia o salmão lentamente, suas palavras carregadas de peso.
"Você realmente acha que ferreiros e alquimistas se tornam famosos do dia para a noite? As pessoas sangraram, choraram, sacrificaram tudo para aprimorar suas habilidades até poderem criar coisas incríveis. Coisas tão irresistíveis que o próprio mundo teve que lhes conceder seu devido lugar."
Ele fez uma pausa, finalmente levantando o olhar para Sora.
"É assim que o mundo funciona. Pelo valor."
"Valor?" Sora repetiu, compreendendo e não compreendendo ao mesmo tempo.
"Sim, valor." Kaden assentiu, verificando se o salmão estava bem cozido antes de continuar.
"O mundo só se importa com você se você for valioso. Assim como você escolheria um ferreiro específico para encomendar uma peça em vez de procurar qualquer um ao acaso."
"Por quê? Porque esse ferreiro construiu seu valor até o ponto de você se sentir obrigada a procurar por ele para conseguir uma boa peça."
Ele apontou para ela.
"É exatamente isso que você precisa fazer. Cantar é visto como coisa de gente sem valor, de nível baixo, e vamos ser honestos, isso é verdade." Ele deu de ombros com um sorriso de canto, fazendo a sobrancelha de Sora se arquear de forma severa.
"Mas se você pegar a arte e elevá-la ao seu valor, então as pessoas não terão escolha a não ser respeitá-la," concluiu.
Sora mergulhou em pensamentos tumultuados. Ela via verdades nas palavras dele, mas ainda havia algo que a corroía… algo que a fazia hesitar, algo que bloqueava seu caminho, algo que ela secretamente queria que ele ajudasse desde o começo.
Ela abriu a boca, depois fechou novamente, a face incendiada de vergonha repentina.
O que ele diria se ela admitisse que, durante meses, quis escrever uma música, mas não conseguiu colocar nem uma linha sequer?
Era como se uma muralha invisível estivesse na sua frente, algo que ela não conseguia ultrapassar, por mais que tentasse.
'Ah! Sora, é agora ou nunca. Você tem uma chance de evoluir, de dar o seu primeiro passo… não deixe o orgulho te cegar…!' ela gritou internamente, contorcendo-se na cadeira como um pássaro sem asas preso ao chão, os nervos consumindo-a.
Kaden percebeu, mas não disse nada.
Ele já tinha dito tudo o que queria, dado sua opinião.
Se Sora quisesse mais, teria que pedir por isso por conta própria.
Então, ele agiu como se não tivesse visto sua luta, voltando a cozinhar. Com o salmão pronto, começou a preparar uma salada para acompanhar.
Naquele momento, quase quis cair de joelhos, lágrimas de gratidão escorrendo pelo rosto enquanto agradecia à mãe por ter obrigado a aprender tantas coisas " inúteis " lá em casa.
'Ainda assim… preciso melhorar meu jeito de cozinhar. Isso está muito sem graça para o meu gosto,' pensou, embora grato por terem comida para comer ao menos. Outros talvez não tivessem essa sorte.
Enquanto finalizava a arrumação dos pratos com sua habilidade de sangue, a voz de Sora finalmente ecoou.
Foi hesitante, desajeitada, impregnada de constrangimento.
"Eu… tenho uma pergunta para você," ela murmurou, com o rosto corado a ponto de parecer que ia explodir de vergonha.
Naquele momento, ela estava adorablemente embaraçada, mexendo as mãos e procurando desesperadamente por algo para fixar o olhar, mas tudo o que via era um gelo frio que parecia recuar de seu calor ardente.
Sim, definitivamente, ela era fofa.
Mas Kaden sentiu calafrios percorrerem sua pele ao ver aquela Sora sempre feroz agir assim.
Ele franziu a testa, com desgosto. "Pare com isso, mulher. Essa não é a sua cara. Quem você está tentando enganar?"
"Só diga a pergunta. Não tente me encher com emoções," acrescentou, assentindo consigo mesmo, quase satisfeito, orgulhoso de jogar essas palavras para uma princesa — uma celestial, ainda por cima.
De imediato, toda vergonha que Sora sentira derreteu como neve sob o sol escaldante, e ela lançou um olhar penetrante e ameaçador para Kaden.
Ela não conseguia entender como ele podia ser tão insuportável. Mordeu o lábio para evitar soltar curses, e finalmente fez sua pergunta.
"Eu não sei como escrever uma música," ela soltou de repente.
"Tentei várias vezes, mas não consigo encontrar nem uma centelha de inspiração."
Ela fez uma pausa.
"Acho que talvez não seja o meu caminho. Porque, se eu não consigo nem escrever uma linha satisfatória, do que mais posso acreditar?" ela disse amargamente, expondo seu medo e sua insegurança mais profunda.
E se ela não fosse capaz de fazer a coisa mais importante que queria porque simplesmente lhe faltava talento?
Isso a destruiria.
Kaden entregou a Sora um prato de comida. Ela pegou sem entusiasmo, com a cabeça ainda turva, enquanto ele finalmente respondeu.
"Eu não… realmente acredito muito em talento," disse Kaden após dar a primeira mastigada no salmão.
Sora olhou para ele com estranheza. "O quê?"
Ele riu. "Pode parecer estranho vindo de mim. Hipócrita até, eu sei." Um sorriso brincou nos lábios dele.
"Talento existe. Algumas pessoas entendem as coisas mais facilmente do que outras. Algumas nascem com uma naturalidade em fazer o que para muitos parece inconcebível… sim, eu concordo com isso."
"Mas eu acredito mais na obsessão e na persistência, Voz de ouro. Talento sem obsessão nunca floresce."
Ele se inclinou um pouco para frente, com a voz firme.
"E se você não sabe como escrever uma música? Então, reúna todas as músicas deste mundo abominável. Ouça, estude, destrua e aprenda como elas são feitas."
"E não pare por aí. Aprenda outras coisas também. Combine tudo isso."
Sorria levemente.
"Quanto mais você aprender, mais conhecimento e habilidade absorver, maior será sua chance de criar algo verdadeiramente único. Não existe truque fácil."
Seu tom suavizou sem perceber.
"Mas, para essa sua primeira música… deixa comigo."
Ele terminou de comer num só golpe, levantou-se e caminhou em direção à boca da caverna.
Olhou para cima, e lá, acima dele, se estendia um céu branco imaculado, com uma lua azul brilhante, como uma jóia embutida no centro.
Ainda tinham cerca de uma hora antes que ela desaparecesse.
Sora o seguiu, foi até seu lado e olhou para o céu com uma expressão de perplexidade e apreensão.
"O que você quer dizer?" ela perguntou.
"Às vezes," Kaden disse devagar, "não é necessário passar por todo o processo. Às vezes, basta testemunhar, sentir algo forte o suficiente para mexer sua alma e então as palavras vêm."
Ele lançou um olhar para ela, depois voltou para a lua.
"Vou te dar essa inspiração," concluiu.
"Como?" Sora pressionou, com a voz baixa, incerta.
O olhar de Kaden se fixou na lua com uma intensidade que parecia atravessá-la. Então, ele lentamente abriu os lábios.
"A lua…" ele começou, em um sussurro baixo.
"…vamos acabar com a lua, Voz de ouro."