
Capítulo 217
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
“Ah… merda!” Kaden xingou enquanto jazia no chão gelado da caverna, deitado de costas, com o peito subindo e descendo de exaustão.
Sua túnica preta estava rasgada em vários lugares, deixando a pele lisa exposta ao vento glaciar implacável do reino.
Sora estava na sua vaga habitual, de costas contra a parede, esforçando-se para regular a respiração e manter as mãos tremendo quietas.
Seu corpo jazia encharcado de suor, o cabelo dourado colado à cabeça como se fosse cola, a pele marcada por ferimentos, as roupas rasgadas em diversos pontos.
Havia uma parte de sua preciosa túnica agora destruída, com um buraco aberto bem ali no meio.
Elas haviam acabado de sobreviver a mais uma tempestade gélida, e, agora, tanto Kaden quanto Sora tinham uma certeza...
A próxima os mataria, ou pelo menos os deixaria pendurados à beira da morte.
Isso era demais.
Semanas se passaram, e nesse período os dois enfrentaram incontáveis provas juntos.
A fase lunar sombria ficava mais terrível a cada ciclo.
Depois dos espectros, vieram as Corujas do Luar — com uma visão monstruosa, capazes de enxergar e reagir tão rápido que Kaden mal conseguia decretar um golpe de morte decente, especialmente porque elas podiam voar.
Nesse episódio, Sora virou um furacão de ataques explosivos, pegando as criaturas de surpresa.
Mas a visão delas não era a única coisa monstruosa nelas, também estavam suas garras… e ai, os deuses sabem como Kaden quase berrou como uma menininha quando uma dessas Corujas quase arrancou seu coração do peito com as unhas.
Depois daquele incidente, ele descobriu um novo medo, um medo bem real de corujas.
Se fosse só as Corujas do Luar, Kaden e Sora poderiam se considerar sortudos, mas o pior ainda viria.
Havia os Cheetahs da Lua — uma verdadeira tortura para Sora, pois ela não conseguia acertar um único golpe, tamanha a rapidez e a escorregadia deles, e aqui, pra vencer, precisavam usar o intelecto, não a força bruta.
Kaden espalhou sangue pegajoso pelo chão, desacelerando drasticamente a velocidade deles, e então, com seu punho flamejante, Sora criou um buraco no peito dos inimigos, sem piedade, combinando sua ferocidade com a letalidade de Reditha.
E ainda assim, não tinha acabado.
De repente, se viraram contra vampiros, com força ao nível de Mestre, ainda mais reforçada pela lua.
Quase morreram.
A ameaça de morte era tão constante que Sora abandonou seu orgulho inútil, colaborando com Kaden para vencer, e conseguiram… embora depois de Kaden perder um membro e Sora ter o estômago dilacerado, vendo suas entranhas escorrer pelo chão sombrio, dançando no vento.
Foi tão doloroso, tão infernalmente doloroso, que Sora chorou até as lágrimas, gritando enquanto tentava impedir que seu sangue escapasse, drenando qualquer calor de seu corpo.
Enquanto isso, Kaden, acostumado à dor, conseguiu manter a cabeça quase fria, mesmo com o braço direito partido do cotovelo, seguindo na luta só com o esquerdo, Reditha faminta por sangue para vingar seu mestre.
Ele usou a Arma da Alma, causando dano na alma, destruindo as almas dos inimigos em pedaços, e só então conseguiu eliminá-los.
Depois disso, foi até Sora, entregando poções de cura de alta qualidade para salvar a ela, enquanto cerrava os dentes e suportava o tormento no braço direito machucado.
Sobreviveu só graças às poções avançadas que carregavam — tesouros herdados de suas origens.
Mas aquilo era só a fase sombria.
As tempestades de gelo eram algo totalmente diferente.
Cada tempestade piorava, e no começo eles não tinham certeza, mas com o passar dos dias as tempestades glaciais se transformaram em uma Fera Invernal feroz, com altura monstruosa, corpo feito de neve e gelo.
Cada passo dessa criatura sacudia o reino inteiro, enquanto ela era envolta por uma tempestade turbilhonante, assustadora o bastante para congelar alguém em segundos se permanecesse por mais de alguns minutos, fazendo-os sentir como se estivessem lidando com um deus ou… um enviado dele.
Sobreviviam só porque a criatura ainda não estava completa, mas isso mudaria na próxima fase lunar glaciar.
E isso só podia significar uma coisa.
A morte.
Todas essas provas convenceram eles de que o calabouço tinha sido planejado para ser conquistado em uma única tentativa, porque quanto mais o tempo passava, maior ficava a dificuldade, até um nível absurdo, e eles atingiram seus limites.
Mas eles não faziam ideia de como superar esse desafio. Procuraram por toda parte durante as fases de lua cheia, cruzando a imensidão congelada, mas não encontraram nada que pudesse ajudá-los.
Kaden perguntou inúmeras vezes a Sora, mas ela só dizia que o verdadeiro Iniciado da Lua saberia instintivamente como escapar desse calabouço.
Porque a lua diria a ele.
Mas para eles… não existia lugar nesse reino, eram intrusos, e por isso o reino queria devorá-los.
“Ah, droga!” Kaden xingou novamente, sentindo o peso da situação apertar fortemente em seus ombros.
“Você pode parar de xingar como um jamaicano?” O tom desdenhoso de Sora cortou o ar frio.
Kaden a ignorou.
Se havia uma pequena bênção — se é que se pode chamar assim — era que ele tinha ficado mais próximo de Sora. Bem, tão próximo quanto ex-inimigos poderiam estar.
Próximo o bastante para se olharem nos olhos sem querer arrancar um ao outro, ou imaginar o outro se afogando em seu próprio sangue enquanto tomam chá lado a lado.
'Bom, nunca tive problema com ela de qualquer jeito', resmungou Kaden na cabeça, embora se sentisse feliz por finalmente poder trabalharem juntos sem conflito.
'E… nós temos uma sintonia tão boa', pensou.
Isso ambos perceberam depois de tantas lutas lado a lado, mas nenhum comentou, como se se sentissem envergonhados ou enojados com a própria ideia.
Mas a verdade permanecia.
A sinergia deles era até melhor que a de Kaden e Asael — uma surpresa, enfim.
Os dois não precisavam falar, nem mesmo olhar um para o outro para saber o que fazer — era algo natural, como se fossem uma só pessoa.
Kaden fez uma careta ao pensamento, uma pontada de desconforto lhe apertando o peito, e balançou a cabeça, deixando o pensamento de lado, enquanto se endireitava na frente de Sora, com a chama dourada tremeluzindo entre eles, oferecendo uma tênue esperança nesse inferno congelado.
A ameaça de morte era iminente, a apenas duas horas, mas eles pareciam ter concordado em simplesmente… viver o momento.
Costumavam ficar em silêncio, mas ultimamente começaram a trocar pequenas conversas, um alívio para a mente, uma distração do medo e da sombra do fracasso.
Kaden olhou para a Sora silenciosa, percebendo como seus dedos tremiam ao seu lado, como seus lábios se abririam pouco para falar — e depois fechavam de novo —, e ele levantou uma sobrancelha antes de abrir os próprios lábios.
“Então,” disse Kaden, puxando salmão de seu anel espacial, “você mudou de classe ou algo assim?”
Sora elevou a temperatura do fogo a ponto de cozinhar enquanto Kaden temperava o salmão com sal, ervas defumadas e alho, moldando uma frigideira com seu controle de sangue e colocando-a acima das chamas.
Era claro que não era a primeira vez que eles faziam isso.
“Minha classe? O que você quer dizer?” Sora perguntou, confusa.
“Não te ouvi cantar desde que chegamos aqui,” esclareceu Kaden.
Ao ouvir isso, Sora se eriçou, imediatamente na defensiva, franzindo o cenho para ele.
“E daí? Quer que eu cante pra você me ameaçar com isso, é isso?” ela rosnou, como uma gata prestes a arranhar o rosto do mestre com as garras.
“Ei, ei! Você está queimando o salmão! Esses são os meus últimos, e se queimar, você não come hoje,” avisou Kaden rapidamente, com urgência na voz, percebendo a fagulha da fogo maior por causa do aumento das emoções de Sora.
Ela se acalmou na hora, lançando um olhar preocupado para o salmão, soltando um suspiro de alívio evidente ao ver que estava seguro, antes de voltear sua carranca para Kaden.
Kaden reteve um sorriso ao ver sua forma de agir.
Sora gostava de comer bem.
Uma descoberta inesperada, e uma das razões dela ter aberto um pouco mais para ele.
Afinal, Kaden se virava na cozinha, e diferente dele, Sora não tinha pensado em trazer comida no anel espacial.
Realmente, não era digna de ser chamada de gourmet.
“Era só uma observação. Vi você mexer os dedos, mas nunca ouvi cantar alto,” disse Kaden, fazendo uma pausa antes de continuar.
“Se estiver preocupado que eu possa te ameaçar com isso, não se preocupe. Meu interesse é em como superar essa provação.”
“E, se por acaso, estiver com medo de que eu zombarei de você, pode ficar tranquilo. Eu também curto música.”
Essas últimas palavras imediatamente chamaram a atenção de Sora, que parou para olhar para Kaden com expressão suspeita.
“Você está dizendo isso só pra chamar minha atenção?” ela perguntou desconfiada, claramente sem acreditar.
Kaden bufou. “Quem diabos é você?”
“Sou a princesa do Império Celestial. Todo mundo quer minha atenção,” ela rosnou.
Kaden deu de ombros. “Não eu. Não tenho nada a ganhar com isso, só problemas que não quero. Então, passo.”
Ele falou, mas sabia muito bem que não era verdade.
Ele já tinha conquistado a atenção dessa princesa, desde aquele dia na Floresta do Sol Eterno.
E Sora sabia disso também. Observando-o agora, tão despreocupado, ela percebeu que ele não estava tentando conquistar seu olhar.
O que queria dizer…
'Ele realmente gosta de música?' pensou ela, uma sensação estranha e brilhante iluminando seu coração como o sol de verão.
“Você… realmente gosta de música?”
“E você não acha estranho uma princesa como eu cantando?” ela perguntou, com hesitação e esperança misturadas na voz.
Kaden, ainda cuidando do salmão, nem levantou a cabeça, apenas encolheu os ombros discretamente.
“Fiquei surpreso quando descobri, achei estranho,” respondeu honestamente.
A expressão de Sora começou a mudar, a raiva piscando nos olhos dela, mas antes que pudesse rosnar…
“…mas cantar não é mais que uma outra arte, como forjar e outras. Claro, não tem o mesmo respeito, mas isso é só porque ninguém investiu o mesmo esforço para elevá-la a esse patamar.”
Ele levantou os olhos e fixou seu olhar nos dela, percebendo como seus olhos dourados se arregalaram de surpresa.
“Pois deixe-me te dizer uma coisa, voz de ouro...”
Ele sorriu de canto.
“O poder das palavras é uma das forças mais terríveis do mundo.”
“Você só precisa cantar a música que eles querem ouvir, com o ritmo certo, a batida certa, a letra certa, e…”
Seu sorriso se afinou ainda mais.
Os olhos de Sora brilhavam com admiração, choque e alegria ao ver Kaden concluir a frase.
“…e o mundo inteiro fará o que você mandar.”
BUM—!
—Fim do Capítulo 217—