
Capítulo 204
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
O que veio em seguida foram Daela e Kaden conversando sobre várias coisas aleatórias.
Começaram falando sobre Dain, perguntando onde ele estaria e o que estaria fazendo. Questionando se ele estava seguro, ou à beira da morte, ou até mesmo capturado por pessoas mal-intencionadas que conheciam seu artefato e, por isso, decidiram não matá-lo, mas mantê-lo entre a vida e a morte.
Tudo isso era possível.
E assim, eles se perguntavam muitas coisas, mas a verdade inegável era que ambos estavam preocupados com ele.
Ele era, afinal, seu irmão. O mais velho.
E na família Warborn, onde sangue e lealdade importavam, onde a honra prosperava, mesmo sendo rebeldes como Kaden e Daela, eles ainda não conseguiam evitar que esses tipos de verdades nascessem dentro deles.
Kaden decidiu que procuraria por Dain assim que voltasse para Asterion, de repente sentindo o peso da necessidade de saber mais sobre seus paradeiros.
Depois da conversa sobre Dain, Kaden não conseguiu se controlar e perguntou a Daela… sobre o que a tornava tão insegura a ponto de entrar em pânico ao ouvir que ele queria ter várias esposas.
Naquele momento, Daela hesitou.
Não que ela não confiasse no irmão, mas havia coisas que era melhor deixar no silêncio, alguns segredos que eram melhores escondidos dentro de si e jamais revelados a outra alma.
Até mesmo para a família.
Porque inseguranças eram armas que as pessoas usariam para rasgar seu peito, pegar seu coração, e perfurá-lo repetidamente com suas línguas de navalha, tudo isso enquanto olhavam direto nos seus olhos.
Esse tipo de dor podia fazer alguém desejar a morte.
E era ainda pior quando quem causava essa dor era a própria pessoa em quem confiava o suficiente para abrir o peito—não vamos mentir, geralmente quem mais machuca é quem mais amamos—aquela que permite ver seu coração frágil, batendo fora da sua jaula, exposto para que possam espiar.
Ela sabia de tudo isso, por isso hesitou… mas apenas por um momento.
Afinal, se ela nem conseguia abrir seu coração para Kaden, então quem mais poderia?
Então, com o pensamento firme, respirou fundo para acalmar seu coração que parecia trovejar, e começou a falar sobre sua infância.
Sobre como seus pais estavam sempre ausentes.
Sobre como ela sempre esteve sozinha.
Sobre como anelava por carinho, mas só recebia olhares assustados e respeitosos dos empregados.
Sobre como desejava amor, mas só encontrava indiferença.
Sim, ela falou de tudo isso enquanto olhava para os retratos no Arquivo.
Nenhum deles se olhava, os olhares fixos adiante. O corpo de Daela tremia sutilmente, mostrando o medo profundo de reviver aquelas memórias. Sua voz vacilava às vezes, como se estivesse quase se partindo.
Mas Kaden ouvia atentamente, sem interromper. E isso fez com que ele percebesse algo ao comparar sua infância com a de Daela.
Nenhum irmão nasce na mesma casa.
Sim.
Confuso?
Deixa eu explicar, pessoal.
De fato, irmãos nunca têm os mesmos pais, para começar.
Garros e Serena, para Daela, não eram os mesmos Garros e Serena para Kaden.
Daela os lembrava como dois guerreiros sempre fora do forte, pais irresponsáveis.
Mas para Kaden era diferente. Sua mãe estava sempre com ele, mimando-o até não poder mais. Seu pai quase não ficava longe, e às vezes vinha ensinar alguma coisa para Kaden.
Além disso, a verdade é que os pais nunca tratam cada filho do mesmo jeito. Não só por causa da ordem de nascimento, mas também por causa do sexo.
Essa é a verdade.
O primogênito não sente o que o mais novo sente.
E a forma de agir com um menino é diferente de como se age com uma menina.
Isso também é uma verdade simples.
E ainda há outros fatores, como o próprio ambiente. Quando Daela nasceu, não havia conflito com os Cerveau. Mas quando Kaden veio ao mundo, a ameaça de guerra contra os Cerveau pairava no ar.
Todo esse conjunto fazia com que até na mesma casa, eles tivessem crescido em mundos diferentes.
E assim, irmãos nunca nasciam na mesma casa.
Kaden sentiu-se iluminado ao compreender esse conceito simples. E, nesse processo, entendeu o quão fundamental é para uma criança crescer em um ambiente estável, com pais sólidos.
Porque, sem isso, embora não garanta que a criança ficará marcada para sempre por feridas invisíveis mais profundas que as físicas, a probabilidade era muito alta.
Agora, ele entendia por que Daela agia como agia. Mas não sentiu pena dela, nem tristeza.
Ele simplesmente apertou a mão dela com força, olhando fixamente para os retratos, e sussurrou baixinho:
"Você foi forte."
Essas palavras tocaram algo profundo dentro de Daela, e por um momento as lágrimas encheram seus olhos, ameaçando cair a qualquer instante.
Ela Rangeu os dentes, apertou os lábios até um estalido escapar, tentando desesperadamente segurá-las.
Mas elas caíram.
Lágrimas escorreram pelo seu rosto como água na pedra. Primeiro lentamente, controladas, depois derramando-se mais rápido, até que jorraram como cachoeira, molhando seu lindo rosto de chuva.
Era a primeira vez que Daela chorava…
…desde que tinha cinco anos.
Pois alguém havia reconhecido seu esforço.
Pois alguém tinha entendido ela.
E assim…
Ela chorou.
Não por tristeza. Não por medo. Não por insegurança.
Ela chorou porque foi libertada.
Porque alguém viu suas cicatrizes feias, percebeu o quanto tinha se torcido, como sua mente tinha se alterado, e ainda assim resolveu amá-la. Ainda aceitou seus defeitos.
E…
…isso foi suficiente.
E assim… ela chorou.
Ela soluçou como a garotinha de cinco anos que um dia foi, sozinha no seu quarto.
E, no meio de tudo isso, Kaden ficou lá, de postura ereta, olhos fixos na frente, sem piscar sequer uma vez, porque tinha medo…
…de que também pudesse derramar lágrimas, só porque via sua irmã chorando.
Então abriu bem os olhos, fechou os punhos até as juntas ficarem brancas como osso, e esperou. Esperou sua irmã se libertar, se desprender das sombras turvas do passado.
…
Uma semana tinha se passado desde aquele dia no Arquivo.
Daela não mudou por fora para o resto do mundo. Seus olhos ainda carregavam aquele olhar apático, seu rosto permanecia sem expressão. Ela seguia suas rotinas, ou seja, treinando e espionando o irmão.
Sim, ela queria contar tudo a Kaden, mas não o fato de espioná-lo, e certamente não o de escrever sua história sob sua perspectiva, como uma Registradora.
Ela queria que esse fosse seu segredo exclusivo.
Ela era uma garota, afinal. Precisava esconder algumas coisas, certo?
Mas mesmo que ela não tivesse mudado por nada, sempre que ficava sozinha com Kaden ela agia como uma gata, ronronando e sorrindo toda vez que o irmão acariciava sua cabeça ou elogiava ela.
Ela, honestamente, vivia o sonho dela. Desejava que esses momentos durassem para sempre.
Mas desde quando os deuses escutam pedidos mortais?
Kaden, afinal, logo voltaria para Fokay.
"Acho que descansamos o suficiente, acho que…
ele murmurou de forma suave enquanto se acomodava na poltrona, Reditha repousando no colo dele.
Ele acariciou sua lâmina delicadamente, com carinho, como se estivesse manuseando algo frágil, que poderia se quebrar a qualquer momento.
Reditha pulsava aos seus gestos, claramente discordando.
Ela queria mais tempo sozinho com ele antes de serem jogados em mais uma tempestade.
Kaden sorriu de lado. "Também queria isso, sabia? Mas preciso ser um Mestre primeiro, antes que essa paz frágil entre nós e os Cerveau se quebre."
"Você esteve comigo. Sabe o que Vae nos disse… É só questão de tempo até eles atacarem. Aqueles bastardos estão determinados a nos derrubar."
Sua voz ficou fria como rios congelados ao final.
E Kaden também não esqueceu dos Steelbeasts. Se Goremaw voltasse com a herança daquele calabouço lendário, tudo pioraria ainda mais.
Ele não podia perder tempo. Precisava encontrar uma pedra de evolução, seguir sua missão… e, felizmente, tinha uma pista.
'Aquele tipo de lugar certamente tem uma pedra de evolução, certo?' ele pensou, lembrando de uma informação que havia obtido um dia.
Ele suspirou lentamente, levantando a cabeça para olhar para o teto preto do quarto.
"Nível Mestre, hein…" ele respirou fundo antes de um sorriso surgir nos lábios.
"Não posso esperar."
De repente, uma dúvida surgiu em sua mente.
Qual seria sua missão de nível Mestre?
'Tomara que não seja algo louco, tipo destruir uma floresta inteira.'
Para que o próprio Vontade o consideraria?
Ele era um homem amante da natureza, pelo amor dos deuses.
—Fim do Capítulo 204—