
Capítulo 203
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
"Não me importo," Daela respondeu diretamente, sem suspense algum.
Nunca se importara com as tradições; seu único medo era ser descartada pelo irmão.
Mas agora esse medo havia desaparecido, dissipado como fumaça por uma vasta planície. Kaden podia fazer o que quisesse.
Mesmo assim, ela ergueu a cabeça, olhou fixamente para ele e levantou dois dos seus dedos delgados.
"Só dois," ela rosnou.
Kaden deu um sorriso tímido. "Negociável ou não?" perguntou.
"Não negociável."
"Tem certeza?"
"Sim."
"Quer dizer... mesmo depois que eu concordar em te dar carinhos na cabeça por vinte minutos seguidos todos os dias que estiver em casa?" O tom dele era brincalhão.
Daela hesitou, momentaneamente indecisa, e depois balançou a cabeça com determinação.
"Ainda não," ela assoprou.
"Trinta minutos?" ele propôs casualmente, com o rosto relaxado, como se já estivesse certo da vitória.
Daela apertou os dentes. Queria recusar de coração, mas…
'Trinta minutos de carinho na cabeça do irmão? Seria um sacrilégio recusar...' ela gaguejou na cabeça, incapaz de imaginar a felicidade pura que aquilo poderia trazer.
Mas se trinta minutos eram possíveis…por que não mais? E assim, Daela se deixou dominar pela ganância.
"Vamos fazer uma hora de carinho na cabeça, uma hora de treino comigo, e uma hora tomando chá na colina ao lado de Waverith," ela propôs, um sorriso radiante surgindo em seu rosto.
Era um sorriso que Kaden nunca tinha visto antes, e por um momento ele ficou tentado a aceitar imediatamente, encantado com a beleza dele, mas se recomprou, estreitando os olhos com desconfiança.
"Você fez de propósito," ele comentou.
"Fez o quê?" ela retrucou, inclinando a cabeça, expressão confusa, atuando como uma garota fofa e ingênua — o que ela realmente era, só não era tão ingênua assim.
"Para quantas esposas, com tudo que você acabou de propor?" ele indagou, ignorando sua fingida inocência.
"Três." Ela levantou a mão direita, mostrando três dedos bonitos, endurecidos pelos anos segurando espadas.
Kaden recusou. "Quatro."
Daela franziu a testa. "Você está sendo ganancioso. Não precisa de tantas esposas assim."
"Quem foi que te contou isso?" ele inclinou a cabeça.
"Eu," respondeu Daela, sem mostrar expressão alguma.
"E quem é você?"
Daela ficou olhando fixamente, sem reação.
Kaden riu. "Quatro não é muito. Já vi gente com mais de dez mulheres. Na verdade, alguns chegam a quase cinquenta. Quatro comparados a isso?"
"Primeiro, você não é eles. E segundo, por que quatro?"
"Eu gosto do número quatro," ele disse com um sorriso descarado.
Daela lançou um olhar sombrio, depois sacudiu a cabeça.
"Desde que você não me descarte, desde que você mantenha sua palavra… tudo bem para mim."
Kaden abriu a boca para responder, mas Daela colocou um dedo contra ela e o silenciou.
O clima mudou instantaneamente, tornando-se sombrio, pesado, cheio de uma intenção de matar que fez a pele de Kaden arrepiar. Era como se milhares de espadas estivessem picando cada centímetro do seu corpo.
Os olhos de Daela começaram a brilhar com uma intensa luz vermelha sangue, tingindo o mundo de carmesim, como se o próprio tecido da realidade estivesse sangrando por uma ferida invisível.
Ela se inclinou, ficando a apenas um centímetro do rosto dele, e falou.
"Sabe o que aconteceria se você me negligenciasse por causa delas?" ela perguntou, claramente retórica.
Sua voz era como o sussurro de uma chama tremulante — intermitente, errática, deixando você temer o momento em que explodiria em fúria e te engoliria por completo.
Ela continuou, os olhos fixos em Kaden, cujo lábio agora se curvava em um sorriso sutil.
"Eu vai matar todas elas."
Suas palavras eram diretas.
Era o tipo de pensamento que Daela normalmente enterraria fundo dentro de si mesma e agiria silenciosamente. Mas agora, após o que acabou de acontecer entre eles, ela tinha coragem suficiente para dizer em voz alta, ameaçando diretamente seu irmão com a morte de suas esposas.
E Kaden não pôde deixar de sorrir com isso.
"Seria triste, minha irmãzinha," ele disse, de forma estranha e sombria, satisfeito com a dedicação dela.
"Eu vou te fazer feliz de novo," Daela respondeu com um tom sério.
Kaden riu. "Não duvido disso. Mas isso não vai acontecer, porque eu nunca vou te abandonar. Então… estamos de acordo?"
Ele estendeu a mão direita, como uma convite para um aperto de mãos.
Daela não entendeu exatamente o que era, mas, instintivamente, fez o mesmo e estendeu a sua.
Kaden segurou firme, olhou nos olhos dela e falou: "Vou te dar uma hora de carinho na cabeça, uma hora de treino, e uma hora tomando chá na colina. E você vai me ajudar a mudar a tradição dentro desta casa. Combinado?"
Daela ouviu atentamente, com expressão séria, certificando-se de que seus pedidos estavam mantidos. Então, ela assentiu. "Combinado."
"Perfeito!" Kaden bateu palmas, levantando-se do chão, e alongou as pernas e as costas, os músculos clicando ao se ajustarem.
Depois, rolou os ombros e o pescoço, soltando a rigidez.
Daela, ao seu lado, levantou-se calmamente, sem dramatismo algum, lançando-lhe um olhar estranho, curiosa com o que ele estava fazendo.
Kaden ignorou sua expressão habilidosamente.
"Você não sente falta do irmão Dain?" de repente perguntou, com os olhos se dirigindo ao retrato do avô, Raven Warborn.
Raven lembrava seu pai — e, por extensão, Dain — com sua figura robusta, músculos rasgados e olhos que carregavam uma luz pouco séria.
"De vez em quando, sim," ela respondeu com sinceridade.
"Você sabe onde ele está, ou se ainda… está vivo?" Kaden perguntou a última parte com hesitação, inseguro se tinha sido uma boa ideia falar tão abertamente.
"Ele está vivo," ela disse. "Mas quanto ao paradeiro dele, se está bem… isso é outra história."
Ela ficou ao lado de Kaden, observando o retrato de Raven junto com ele.
"Entendo. Deve ser por causa de algum artefato."
Daela assentiu, concordando.
Kaden inclinou a cabeça, refletindo por um momento.
"O irmão Dain estava em Asterion, então posso tentar descobrir onde ele está por lá."
Ele sorriu com mischievousidade.
"Mas, pelo pouco que ouvi dele por lá, era realmente uma encrenca," disse, com uma voz divertida.
"Qual a chance de uma dessas confusões fazerem com que ele não volte por anos?"
"Cem por cento." a resposta de Daela foi imediata.
"Ele é igual ao pai, um viciado em batalhas e teimoso. Quando decide algo, vai até o fim, mesmo que isso custe a vida dele." Sua voz ficou melancólica ao recordar.
"Então acho que vou me dar bem com ele. Gosto de caras que buscam a morte."
Daela virou a cabeça de repente, fixando o olhar nele, antes de resmungar:
"Eu sou sua irmã favorita."
Kaden riu. "Com certeza."
Ela assentiu, satisfeita com a resposta, e voltou a olhar calmamente para os retratos.
Uma suave silêncio floresceu entre eles, como flores vermelhas-sangue em um jardim sereno, onde apenas os dois existiam.
Dois irmãos.
Um irmão e uma irmã.
Um relacionamento onde a irmã se agarrava ao irmão como sua fonte de luz em um mundo cheio de medos sombrios.
Um relacionamento onde o irmão dava a atenção que a irmã ansiava.
Um relacionamento onde a irmã estaria pronta para matar as esposas dele se ele a negligenciasse.
Um relacionamento onde o irmão decidiu garantir que isso nunca acontecesse, e se acontecesse, ele simplesmente morreria.
Sim, na verdade, era uma relação bastante doentia.
Mas era a deles.
E…
"Eu te amo, meu querido irmão," Daela sussurrou de repente, emoções transbordando na garganta dela.
"Eu te amo, mana," Kaden respondeu, antes de levantar a mão e puxar as bochechas dela, fazendo-a gritar surpresa.
…Era um amor de verdade.
—Fim do Capítulo 203—