
Capítulo 201
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Daela não sabia como controlar essas ondas de emoções que ameaçavam afogá-la em uma dor sem fim.
Como ela poderia saber?
Sempre viveu mantendo uma rédea bem apertada em suas emoções, obrigando-se a não se deixar dominar por elas.
Porque tinha que ser assim. Caso contrário, estaria sempre depressiva, presa na agonia constante.
Não se esqueça, Garros e Serene sempre saíam para lutar, mesmo quando Dain e Daela ainda eram crianças — mesmo quando eram apenas bebês que precisavam de carinho e da presença dos pais.
Eram verdadeiros viciados em batalha, e por isso dificilmente desempenhavam seu papel de pais de forma adequada para as duas.
E então... consegue imaginar o quanto uma menina, com menos de cinco anos, sentiria de medo ao saber que seus pais estavam lutando contra monstros que ela nem conseguia imaginar?
Sabe quanto de dor uma criança indefesa sentiria ao ver quem mais precisava ser ali por ela preferindo a batalha?
Era de enlouquecer.
Era... arrasador.
E, portanto, para sobreviver, Daela instintivamente aprendeu a esconder todas as suas emoções, a controlá-las. Ela aprendeu a entorpecer-se.
E através disso, descobriu o significado do silêncio num mundo onde as pessoas estavam ocupadas demais com suas próprias preocupações para parar e enxergar o que ela sentia.
Por isso, quando seus sentimentos escaparam e inundaram todo o seu ser numa onda avassaladora… ela voltou a ser aquela garotinha indefesa, de cinco anos, chorando sozinha no quarto porque seus pais não estavam em casa.
Sim… aquela menina miserável.
Os joelhos de Daela tremeram, atingindo o chão com um baque forte. Ela caiu, com as mãos cobrindo o rosto, o corpo tremendo como uma alma presa no inferno congelado.
Pensamentos descontrolados giravam em sua cabeça, o ar nos pulmões começava a faltar até ela respirar como um peixe fora d'água.
Ela entrou em pânico.
Kaden cambaleou para frente, com o coração prestes a explodir de medo, dor e confusão ao ver sua irmã se desmanchar.
A culpa inundou seu peito como uma represa que se rompe, mas ele a afastou de seus pensamentos, focando somente nela.
"A-Aí, irmã… o que está acontecendo?" ele sussurrou com a voz áspera.
Daela não respondeu.
Na verdade, ela mal ouviu o que ele disse.
Sua mente estava consumida pelo medo, pela dúvida, pelas inseguranças que agora emergiam à tona, depois de tantas vezes enterradas.
Ela se perguntava se sentiria de novo aquela impotência da infância.
Seria deixada sozinha novamente?
Choraria de novo à noite, sem ninguém por perto para secar suas lágrimas?
Ela… ela… ela…
As perguntas rodavam em círculos, arrastando-a para um estado de fragilidade cada vez maior.
Seu peito subia e descia de forma irregular, a respiração ficava mais pesada e difícil.
Ela tossiu, a boca se abrindo para puxar ar — mas nada veio. Era como se algo dentro dela estivesse asfixiando-a de dentro para fora.
Ela resfolegou.
A cabeça rodou, a visão ficou turva, a luz escureceu na escuridão. Por um momento…
…Daela achou mesmo que ia morrer.
Uma risada amarga e solitária escapou de seus lábios trêmulos.
Morrer por causa do medo?
Morrer por emoções que ela não conseguia controlar?
'…p-Patética…' pensou enquanto quase entrava em desfalecimento.
Tudo isso porque ela nunca aprendeu a enfrentar suas emoções — só a enterrá-las.
A escondê-las. A temê-las.
E agora, diante de algo forte o bastante para despedaçar seu coração frágil em bilhões de pedaços espalhados pelo mundo…
Ela quebrou.
Quebrou como a menina pequena, frágil, que ela realmente era.
Forte? Nascida na guerra?
Ah!
Ela era simplesmente uma garota fraca, que sofreu desilusões na infância e sempre se apoiou no irmão em busca de alívio, de um pouco de conforto.
Uma menina que suportaria a dor física mais torturante… mas, diga uma palavra contra o irmão dela, e ela desabaria, ofegando, enquanto o mundo escurecia ao redor.
Exatamente como hoje.
'Ah… EU SOU TÃO—!'
"DAELA!!!"
O grito de Kaden rasgou os pensamentos dela, puxando-a de volta à realidade.
Ela virou a cabeça de repente e o viu.
Os olhos dele estavam arregalados, dilatados de medo, dor, culpa e confusão. O rosto suado, os lábios tremendo.
Quando ela o encarou, os olhos dele se iluminarem de um alívio desesperado. Ele se lançou para frente, abraçando-a forte, pressionando-a contra o peito, e Daela sentiu o coração dele pulsar violentamente.
Era tão forte, tão rítmico, que por um instante ela pensou que fosse parar pela tensão. E, ainda assim… para Daela, o som era lindo. Agradável.
"Eu-Desculpe! Você não precisa agir assim! Se quiser… eu não vou me casar—!" Kaden gaguejou, a voz tremendo de culpa.
Ele achava que tudo tinha acontecido por causa de suas palavras, do desejo de mudar a tradição, do egoísmo dele querer mais de uma esposa, que ela tivesse entrado nesse estado.
Tremente, tremendo, ofegante, como se fosse morrer de dor.
E a culpa o dilacerava.
Daela era sua família mais próxima.
Aquela que sempre estava lá, esperando por ele na porta ao voltar.
A mesma quando ele terminou seu desafio pela primeira vez.
A mesma ao voltar do leste.
Ela sempre estivesse lá.
Aquela que se arriscou no treinamento, que fez ele usar as mesmas roupas, os mesmos trajes, para combinarem.
A que entrou nos campos de treinamento para criticar sua espada com palavras duras, mas sempre com preocupação escondida por trás da voz.
A que o carregava até a cama e o aquecia com cobertores quando ele desmaiava de cansaço.
Tudoo aquilo… Daela.
A irmã silenciosa, mas amorosa.
A que cuidava dele como ninguém mais.
Como poderia aguentar vê-la assim?
Ele preferiria morrer milhões de mortes horrendas, com o coração arrancado, os olhos cegados, órgãos jorrando como água e sangue drenado — tudo isso, só para não ver Daela desse jeito.
Então, apertou-a ainda mais forte, envolvendo seus braços ao redor de seu corpo trêmulo, sentindo cada respiração ofegante cortando seu peito. O coração dele se partiu mais ainda, mas ele cerrava os dentes e sussurrava—
"Eu não vou… eu não vou…"
Repetiu essa frase várias vezes.
Não sabia a causa, nem a resposta. Mas sabia que precisava acalmá-la.
E conseguiu.
Seu abraço a enraizava, a fazia se sentir segura. Aos poucos, seu corpo tremendo parou. Sua respiração se acalmou.
Ela se praçou mais perto dele, agarrada ao calor, deixando que aquilo acalmasse a tempestade interior.
Mas a tempestade ainda não tinha passado. Ainda não.
Kaden não perguntou nada. Simplesmente permaneceu ali, em silêncio, paciente, disposto a dar o tempo que ela precisasse.
Mesmo que fosse dias. Mesmo que fosse semanas.
Ele esperaria.
Porém, o silêncio não durou para sempre.
Logo, Daela falou.
Kaden nunca tinha ouvido sua voz soando tão fraca, tão vulnerável. Isso o tocou mais do que ele esperava.
"Kaden…" ela sussurrou suavemente.
"Sim…" ele respondeu imediatamente.
Um silêncio pesado e sufocante se instaurou, difícil de suportar.
Então Daela murmurou… aos prantos,
"Kaden… eu não quero te perder."