
Capítulo 200
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
"Daela... tenho algo para te contar." A voz de Kaden ecoou na sala fechada, tremendo e tremulando de confusão e apreensão.
Daela virou a cabeça rapidamente na direção dele, seus olhos vermelhos fixos neles. Ela percebeu a leve trepidação na voz dele e, de imediato, soube que algo estava errado.
Ela assentiu suavemente, o coração batendo mais rápido, incentivando o irmão mais novo a continuar.
Kaden inspirou fundo. "Eu quero—!"
Ele parou no meio da frase.
Na verdade, ele não sabia como dizer aquilo.
Poderia falar diretamente, mas Kaden sabia que falar de forma abrupta sobre essas coisas faria mais mal do que bem, especialmente para alguém que não está acostumada a ouvi-las.
Então, ele fechou os olhos brevemente, depois os abriu novamente, seu olhar fixo no retrato de Scarlet, como se ela pudesse lhe dar força para seguir em frente.
"Como você se sentiria se eu decidisse mudar uma tradição dentro desta casa?" ele perguntou, a voz carregada de apreensão, mas também com um tom de esperança desalentada.
Impotência, porque Kaden conhecia sua irmã.
Sabia que ela não era do tipo que senta contigo para discutir os mistérios da vida acompanhada de chá e bolos.
Ela não era do tipo que veria você angustiado, triste, afundado em uma expressão de desânimo tão pesada que faria mundos chorarem, e depois viria te consolar.
Isso não significava que Daela fosse má ou insensível — não. Às vezes ela parecia assim por fora, mas por dentro ela sentia tudo, mais profundamente que a maioria.
Na verdade, ela era mais observadora que qualquer Guerreiro Nascido. Inclusive mais que Kaden.
Ela percebia detalhes que os outros deixavam passar.
Porque ela era silenciosa.
E especialmente porque… ela escutava para entender, não apenas para responder.
Isso, por si só, a tornava diferente.
Pessoas hoje em dia não escutam para entender. Escutam só para responder.
Sim, parece que estão ouvindo, mas na verdade, estão apenas esperando a hora de falar de volta.
E nesse processo, não param para pensar no que você quis dizer, por que falou aquilo, ou como responder de modo que você não se sinta malinterpretado ou desprezado.
Eles não se importam. Ou, mais precisamente… são ignorantes.
Porque, vivendo num mundo que te bombardeia com bilhões de pedaços de informação — na maioria inúteis — todos os dias, sua mente já está cansada demais para se importar com os significados ocultos por trás das palavras do interlocutor.
E em um mundo assim, Daela aprendeu que o silêncio é melhor do que barulho desperdiçado.
Foi por causa dessa particularidade dela que ela entendeu imediatamente: algo estava errado com seu irmão.
Algo que fazia sua voz tremer.
E assim…
Daela decidiu que hoje teria uma conversa.
Ela fechou os olhos brevemente, colocou a mão no ombro de Kaden, virando-o de modo que seus olhos se encontrassem.
Vermelho contra vermelho.
Sangue contra sangue.
Uma tensão não dita crescia entre eles, preenchendo o ambiente como névoa.
"O que eu faria se você decidisse mudar uma tradição?" ela perguntou, sua voz perdendo o tom apático, passando a algo neutro.
Kaden ficou surpreso com a mudança. E especialmente pelo modo como os olhos de Daela se fixaram nele.
Porque, agora… ele se sentia ouvido.
E, de uma certa forma, isso só aumentava sua ansiedade.
Mesmo assim, ele respirou fundo, firmou o coração e respondeu: "Sim."
Daela respondeu suavemente: "Qual tradição você gostaria de mudar?"
Os olhos de Kaden tentaram nervosamente olhar ao redor do Arquivo, seus dedos tremendo antes de um sorriso constrangido surgir nos lábios.
"Bem, irmã… e se eu te dissesse que quero…" ele hesitou, lutando para terminar.
Mas ele sabia que não pudesse prolongar mais a conversa.
Então, fechou os olhos e falou tudo de uma vez, rápido, como arrancando uma atadura.
"Quero mais de uma esposa!"
As palavras saíram mais altas do que pretendia, ecoando pela sala repetidas vezes.
Cada eco fazia com que ele quisesse cavar um buraco e se esconder nele para esconder o rosto.
Kaden arregalou-se de vergonha. Uma onda de vermelho subiu pelo rosto dele, claramente embaraçado.
Após um momento sem resposta, ele abriu lentamente os olhos.
Daela estava encarando-o com os olhos largos e vermelhos, cheios de choque e indignação.
Mas Kaden percebeu que havia algo mais escondido fundo dentro dele… insegurança.
"…Por quê?" ela finalmente conseguiu dizer, a voz rouca, carregando sentimentos não ditos.
"Por que você quer mais de uma esposa? Não… o que você realmente espera de uma esposa?" ela perguntou de novo, a voz tremente, ameaçando desabar.
Kaden permaneceu calado, os olhos fixos nos dela.
Sabia que Daela não ficaria feliz em ouvi-lo falar contra a tradição. Mas, agora que falou… precisava defendê-la.
E aí que estava o verdadeiro problema.
Como justificar querer várias esposas?
Mais filhos? Mais prosperidade?
Isso é bobagem. Os Guerreiros Nascidos não precisavam do que já tinham.
Então, que benefício isso poderia trazer?
Sinceramente, Kaden não sabia. Ele era jovem demais, tinha apenas quinze anos. Mesmo considerando suas duas vidas, sua maturidade não era suficiente para entender completamente.
Mas havia uma coisa que ele sabia… seus desejos.
"Porque… eu amo mais de uma mulher." As palavras saíram simples, carregadas de culpa.
As palavras ecoaram na mente de Daela como um clarim, penetrando dolorosamente, como se alguém tivesse empalado uma haste grossa como um tronco e enfiado no coração dela.
Dói. Meu Deus, dói tanto.
Dói ouvir o irmão confessar que ama outras mulheres — não apenas ela.
'Será que eu não o amava o suficiente?' ela se perguntou desesperadamente.
Pânico e medo tomaram conta de suas veias como veneno.
Porque, de repente, ela sentiu que ia perder o irmão para outras garotas.
Imaginou alguém roubando toda a atenção de Kaden, monopolizando-o até ela não conseguir mais ver seu irmão.
Seus pensamentos giravam loucamente. Ela o via com crianças, esquecendo que ela existia.
Sim… por que ele se importaria com uma irmã depois que tivesse esposas que lhe deram filhos e alegria?
Por que se preocuparia com ela, quando outras mulheres poderiam amá-lo, mimá-lo, dar tudo a ele?
Sim… que papel ela teria no mundo do irmão?
Sua respiração ficou desordenada.
"Daela…?" Kaden chamou hesitante, vendo sua expressão.
Mas Daela não ouviu. Ela estava mergulhada em pensamentos tormentosos.
Ela tinha medo.
Medo de perder o amor do irmão.
Medo de perder a atenção dele.
Ela não podia permitir isso. Ele era a única pessoa com quem se sentia segura.
A única pela qual entregaria a vida.
A única cuja presença ela ansiava, mesmo que fosse apenas um afago na cabeça.
A única que cuidava dela quando o mundo nada fazia por ela.
Ela se lembrou daquela caverna, depois que ele a salvou dos bestas de aço. O momento em que ele deu uma palmada na cabeça dela.
Foi o melhor momento de sua vida. E talvez sempre fosse, até o dia em que ela morresse.
Sim… ela o amava assim, tanto.
Não no sentido romântico, como alguns podem pensar.
Mas como uma irmã.
Como uma irmã protetora.
Como uma irmã amorosa.
Como uma irmã tímida demais para pedir afeto abertamente.
Como uma irmã que permanecia silenciosa, com medo de ser mal interpretada.
Como uma irmã que sempre temia que não amasse o suficiente.
Como uma irmã que só queria uma coisa: que seu irmão permanecesse seu irmão, e não se tornasse marido de outras.
Sim, isso era tudo que ela desejava.
Não pedia que a lua fosse retirada do céu e colocada diante dela numa bandeja feita de luz do sol.
Não pedia riquezas, proteção ou favores.
Ela só queria que seu irmão… fosse seu irmão.
Então…
"…Por quê?"
A voz dela quebrou, tremendo na beira do pranto. Seu corpo agitou-se como uma folha ao vento, o coração pesado quase a fazendo desabar.
O que ela não sabia… era que o coração de Kaden também se quebrou.
O peito dele parecia rasgado, como se a própria Morte tivesse vindo abrir, observando a irmã naquele estado.
Ele cambaleou e gemeu baixinho.
"I-inha...?!
—FIM do Capítulo 200—