
Capítulo 199
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
A poeira dissipou, revelando Meris envolta por uma muralha de gelo derretendo-se. Ela encarou sua mãe sem expressão, então, com um único pensamento, o chão sob seus pés se moveu, transformando-se em neve, reduzindo bastante o atrito.
Ela chutou contra o solo coberto de neve, deslizando para a direita enquanto outro relâmpago somia do céu acima, quase a atingindo. Então, avançou rapidamente, moléculas de água se aglomerando ao seu redor antes de se transformarem em dezenas de gotas. Ela comprimiu a pressão delas até que o ar ao redor parecesse se dobrar, então as lançou direto contra sua mãe.
Elas rasgaram o ar enquanto avançavam rapidamente, deixando ondulações no espaço atrás delas.
Mayari sorriu, levantando o dedo, pronta para vaporizar as gotas, mas naquele momento, a água explodiu para fora em uma onda de líquido denso que a encharcou completamente e subtilmente retardou seus movimentos.
"Congelamento."
A voz fria de Meris ecoou enquanto ela aparecia atrás da mãe, uma lança de gelo reluzente em sua mão, pontiaguda o suficiente para brilhar sob o céu.
Ela avançou sem hesitar na parte inferior das costas de Mayari, enquanto a água no corpo da mãe começava a endurecer em geada.
Mayari recuou, mas o chão já havia se transformado em neve, e ela escorregou, quase caindo. Mesmo desorientada, conjurou uma barreira de relâmpagos roxos, o ar rachando ao redor enquanto a lança atingia a barreira com um estrondo metálico.
Mayari recuperou o equilíbrio, seu pé direito chutando contra a neve antes de girar com precisão implacável, aplicando uma brutal chute de 180 graus nas costelas da filha.
Meris não vacilou. A lança em suas mãos se transformou instantaneamente em uma nuvem de neve fofinha, envolvendo suas costelas para amortecer o impacto.
Porém, a perna de Mayari já estava envolta por serpentes de relâmpagos roxos. A neve se vaporizar instantaneamente, e o som de ossos partindo cortou o ar enquanto Meris era empurrada para trás. O ar foi arrancado de seus pulmões, seu corpo se levantando num turbilhão de vento antes de se chocarem contra o chão a cem metros de distância.
Ela tossiu violentamente, com o coração batendo forte no peito, como se tentasse escapar. Tentou levantar-se, mas uma dor lancinante atravessou suas costelas, fazendo-a recuar. Mesmo assim, rangeu os dentes, sangue escorrendo enquanto se forçava a se levantar de novo.
Mayari observava com um sorriso suave.
"Não foi mal, filha," disse ela, com voz de reconhecimento.
Meris olhou com frieza para sua mãe. Vários espinhos de gelo se formaram ao seu redor, suas pontas afiadas como dentes de tubarão, todos apontados ameaçadoramente para Mayari.
Dois punhais de gelo surgiram em suas mãos, a água se enrolando ao redor deles como serpentes famintas. Neve se acumulou aos seus pés, tornando seus movimentos mais suaves, mais rápidos e mais precisos.
Mayari sorriu de canto. "Seu controle realmente melhorou," disse ela, enquanto seu corpo se envolvia em relâmpagos roxos. "Vamos lá. Se continuar assim, você não vai voltar para Fokay tão cedo." Sua voz carregava uma ironia zombeteira.
"Vamos ver sobre isso," respondeu Meris fria.
Uma gigantesca onda de água se formou ao seu redor. Seus dedos se cerraram tanto que os nós ficaram pálidos. Desta vez, ao invés de aumentar a densidade, ela a reduziu ao máximo, de modo que toda a área de treinamento foi subitamente engolida por uma neblina espessa.
No instante em que a neblina engrossou, Meris lançou suas lanças e avançou como uma tempestade encarnada, o gelo chiando sob seus pés.
Normalmente, nada disso teria preocupado Mayari. Mas ela tinha reduzido seus poderes, sua percepção, tudo... abaixando-se ao nível de Meris, por uma questão de justiça.
Por isso, ela não percebeu imediatamente a lâmina da filha prestes a cortar sua garganta.
Ela se abaixou a tempo, mas o chão escorregadio a traíu, fazendo-a cambalear.
Acima, as lanças choviam como flechas de gelo. Nas mãos de Meris, os punhais se transformaram em manoplas de gelo. Ela avançou com o punho em direção ao rosto de Mayari, como um ferreiro balançando seu martelo, com toda a força, toda a energia.
Uma luz azul suave envolveu as manoplas pouco antes do impacto.
Mayari sorriu de canto, indiferente. "Uma intenção, hein? Não foi nada mal."
E então, o céu se partiu ao meio.
Um mar de relâmpagos roxos explodiu para fora como uma tsunami, atingindo e engolindo mãe e filha. O chão tremeu sob a explosão retumbante enquanto uma tempestade de poeira, relâmpagos, geada e neve se ergia alto aos céus.
Quando finalmente tudo se acalmou, Meris jazia de costas, com o corpo marcado por queimaduras, faíscas de relâmpagos ainda crepitando na pele.
Sua respiração era ofegante, superficial, irregular.
"Parece que está pronta para voltar," disse Mayari calmamente, de pé sobre ela, com o corpo impecável e intocado.
Meris suspirou, a expressão suavizando. "Mãe... você disse que ia ir com mais calma." Sua voz saiu embargada de queixa, os olhos carregando uma expressão ferida.
Mayari deu de ombros, completamente indiferente.
"Menti."
…
Darklore — Família Warborn.
Já fazem alguns dias desde que Kaden voltou do leste. A primeira coisa que fez foi procurar seus pais, dizendo que tinha saturado seu núcleo, esperando que lhe dessem pedras de evolução…
Mas não deram.
Hesitaram, consideraram, mas, no final, tradições e cultura não são coisas que se abandonam de um dia para o outro com facilidade.
Kaden apenas assentiu como um filho obediente, dizendo que tinha entendido.
Seus pais — especialmente a mãe — pareciam culpados.
E foi exatamente nesse momento que Kaden aproveitou a oportunidade enquanto ela ainda estava quente.
Pediu por espadas. De preferência, especiais, com atributos únicos.
Esse sempre foi seu objetivo verdadeiro. Sabia que não iriam lhe dar pedras, então transformou a recusa deles em culpa, pressionando de modo que dissesse silenciosamente:
Já me recusaram uma vez. Não vão fazer isso de novo, certo?
E, de fato, eles não recusaram, embora tenham perguntado por que ele precisava das espadas.
A resposta de Kaden foi simples: "Tenho alguém para alimentar."
Elas pareceram perplexas, mas sabiam que não deveriam comentar.
Kaden sempre foi estranho de qualquer forma.
Ele ficou realmente desapontado com as armas que ofereceram, nenhuma delas realmente valiosa. Mesmo assim, pegou as espadas que aumentavam força e agilidade e entregou para Nasari.
Kaden ficou recuado, curioso, enquanto Nasari devorava as lâminas como se fossem as iguarias mais finas do mundo, maiores do que qualquer coisa que pudesse existir na realidade ou na imaginação.
Era uma cena engraçada.
No final, a força e agilidade de Nasari havia aumentado consideravelmente, e o sorriso de Kaden se alargou, tornando-se selvagem.
A partir daí, ele se sentiu especialmente motivado a fortalecer Nasari. O homem agora era o Cavaleiro Arruinado, e Kaden faria dele alguém digno desse título.
Além disso, Kaden passava seus dias dormindo ou sentado em seu quarto, deitado em uma poltrona reclinável enquanto afiava a lâmina de Reditha.
Não havia nada para limpar. Reditha estava sempre pristina. Como se fosse de uma mulher, diria-se.
Mas ele fazia isso mesmo assim, simplesmente porque queria fazer algo por ela.
Podia ficar horas ali, apenas afiando, enquanto Reditha pulsava num tom avermelhado para mostrar sua gratidão. Esses eram seus momentos mais felizes.
Apenas ela e Kaden. Sem Rory, sem mais ninguém.
Mas hoje foi diferente.
Hoje... Kaden entrou na sala do Arquivo.
O Arquivo era onde se guardavam retratos dos antigos governantes de Darklore, junto às suas armas. Para a família, era um lugar extremamente sagrado.
As cores eram inconfundíveis — preto e vermelho.
No teto, o brasão de Darklore: duas espadas cruzadas acima de uma poça de sangue.
O chão era coberto por um tapete vermelho-sangue, sinistro porém impressionante. A sala era enorme, com paredes repletas de retratos dos ancestrais de Kaden desde o começo dos tempos até o presente.
Kaden estivera ali por horas, lendo suas descrições. Alguns deles o chocaram profundamente. Só agora realmente compreendia o quão poderosos seus antepassados haviam sido.
Não, poderosos não era nem a palavra certa. Eram monstruosos.
Origem variada — espadas longas, odachi, punhais, martelos de guerra, lanças, até manoplas e correntes.
A variedade era imensa, e cada um deles era aterrorizante.
Mas um retrato o fez parar.
Uma mulher.
Seu sobrancelha se franziu.
"Pensava que só homens podiam mandar na família?" perguntou à sua irmã Daela, que o acompanhava em silêncio desde o começo.
Daela olhou para o retrato, era uma mulher deslumbrante, marcada por uma cicatriz feia que ia da testa, atravessando o olho direito até os lábios. Seus olhos rubros olhavam com uma indiferença tão fria que parecia viva. Cabelos negros de úmido ictor, cortados curtos, mas chamativos.
Ela vestia uma armadura intrincada preta e vermelha, braceletes escarlates reluzindo nas mãos.
"Guerreira Escarlate," disse Daela sèchemente. "Irmã mais nova do avô Raven Warborn. Nossa grande-aunt. Ela era tão forte que foi uma exceção... a primeira mulher a governar os Warborn. Mas, um dia, desapareceu, deixando seu posto para o avô."
Sua voz morreu no silêncio.
Kaden torceu os lábios.
Qual era o padrão da família com sumir assim?
O avô Raven desapareceu. A Guerreira Escarlate desapareceu. Dain desapareceu. Até o primeiro ancestral deles sumiu.
'Será que isso virou uma tradição familiar?' perguntou Kaden, amargurado.
Mas o que realmente cativava sua atenção era a própria Guerreira Escarlate. Uma mulher, mas que conseguiu mandar em um clã de homens.
Ela quebrou o sistema.
E fez isso com uma coisa.
Força.
Kaden vinha refletindo sobre isso há um tempo. Como faria sua família aceitar sua harem? Não era algo fácil.
Ele tinha dito a Mayari que não mudaria a tradição, apenas a evoluiria, uma versão aprimorada. Mas isso só aconteceria se a família enxergasse assim.
E se eles achassem que era desonroso? Que iria envergonhar o legado deles?
O que então? Seguiria o caminho de Escarlate, conquistando força absoluta, forçando-os a se curvar?
Era possível. Mas Kaden relutava em usar força assim. Queria que eles entendessem. Só não sabia como.
Seu semblante escureceu, os olhos engolidos pelas sombras.
Naquele momento, Kaden se voltou para sua irmã séria.
Sabia que era inútil, mas precisava alguém que o ouvisse.
Alguém que pudesse entender.
Sim...ele só precisava da irmã.
Com voz trêmula, os olhos fixos no retrato de Scarlet, Kaden abriu os lábios.
"Daela... tenho algo para te contar."