
Capítulo 196
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Depois que tudo terminou, já era meia-dia.
Kaden e Vaela ainda estavam juntos, mas o momento de voltarem para suas respectivas casas estava bem próximo… muito próximo.
Por isso, Vaela olhava para Kaden daquele jeito, o mesmo olhar que um cachorrinho faz quando quer alguma coisa, os famosos olhos pidões. E, com o seu olhar absolutamente marcante, Kaden mal se segurava para não atender a todos os pedidos dela.
De verdade, ele estava a um fio de cabelo de se levantar, abrir os braços, fechar os olhos e gritar: Toma! Toma tudo de mim!
Vaela… era insuportavelmente fofa.
De certa forma, ela lembrou sua irmã, estranhamente.
Mas existia uma diferença marcante entre elas. Enquanto a fofura de Daela vinha de sua expressão apática e tímida, a de Vaela vinha de sua expressividade constante, vívida.
Kaden percebeu que realmente gostava de Vaela. Ela era, na verdade, fácil de entender, se você soubesse o que acionava sua loucura. Basta evitar essas coisas, afinal.
Claro, mais fácil falar do que fazer, mas quem era Kaden, afinal?
Se havia uma coisa que definia ele, era sua inteligência emocional. Ele conseguia entender você de um jeito quase assustador e, ao entender, sabia exatamente o que dizer para te conquistar, para te persuadir, para te envolver.
E é exatamente isso que estava acontecendo agora, nesta floresta que testemunhou algo digno de ser gravado na história.
Vaela, como era de se esperar, não queria voltar para o Cerveau e se separar de Kaden.
Ela queria ficar com ele e já planejava como fingir uma missão, qualquer coisa que permitisse passar mais tempo com sua única família.
Mas Kaden não podia permitir isso. Ele precisava voltar para Fokay para sua missão de evolução, então…
"Vaela," disse Kaden, encarando os olhos pidões que ela lhe dava, "pare de olhar assim… isso não vai funcionar." Sua voz treidou um pouco no final, e ele desviou o olhar, lutando para resistir ao feitiço de seus olhos.
Vaela deu-lhe um sorriso de canto. "Tem certeza disso?"
Deuses… ser tão bonita assim tinha que ser crime.
Se a aparência de Alea antes era como uma deusa travessa brincando com os corpos de monstros, costurando-os ao acaso e chamando de criação, então Vaela parecia uma obra de arte criada por um conselho de seres imortais reunidos em torno de uma mesa que sustentava inúmeras possibilidades de mundos e criaturas, sendo que esses seres deveriam estar discutindo o fim de uma era, mas, ao invés disso, passavam a eternidade debatendo como moldá-la da maneira mais perfeita possível.
Ela era… uma obra de arte.
Até Kaden teve que admitir isso.
Ele estalou a língua e resmungou: "Você ficou aqui mais tempo do que o normal. Sua família pode ficar desconfiada, e se ficar, problemas podem surgir."
Ele fez uma pausa, depois se inclinou brincando, mais perto do rosto dela. "E você sabe o que acontece se surgirem problemas, Vaela?"
Ele não esperou a resposta.
"Eu…" apontou para si mesmo com aquele dedo estranhamente elegante.
"Você…" apontou para Vaela, cujo rosto começava a ficar curiosamente sério.
"Não vamos mais nos ver." Ele cruzou os dois dedos, fazendo uma expressão triste e exageradamente sofrida.
Parecia que tentava explicar para uma menina de cinco anos. E o pior — ou talvez o melhor — era que Vaela assentiu de um jeito fofo, mostrando que tinha entendido de vez.
Kaden quase caiu na risada com a cena. Então, sem pensar, ele estendeu a mão e pinicou a bochecha de Vaela.
Ela congelou. Seus olhos arregalaram, o coração pulsou como um terremoto prestes a engolir tudo ao seu redor. O corpo dela tremeu, e só então Kaden percebeu o que tinha feito.
Um sorriso seco — tão seco que parecia algodão antigo — surgiu nos lábios dele enquanto ele gaguejava: "Eu… não é bem o que você pensa...!" lutando por palavras, sem nem saber como explicar sua ação repentina.
Ele se preparou para algo ruim, mas, em vez disso, viu uma cena que ficaria gravada em sua memória para sempre.
O rosto de Vaela estava tomado por um vermelho intenso, como se uma maré de sangue tivesse sido derramada sobre ela. Seus olhos se destinos pelo bosque como quem busca uma fuga, seus dedos tremiam no colo, e então, lentamente, uma voz saiu… baixa, pequena, quase um sussurro.
Mas ele ouviu claramente.
"Toca… toca de novo."
Era a voz de Vaela.
Kaden ficou em choque por um instante, depois um sorriso aberto se espalhou por seus lábios.
"Vaela, você deveria conhecer minha irmã… Acho que vocês se dariam muito bem," disse, já imaginando as duas juntas enquanto observava de longe.
Ah… se isso acontecesse… então a vida realmente valeria a pena.
Depois daquele momento, e de prometer que se encontrariam brevemente, eles se despediram, cada um voltando para sua casa.
Kaden apareceu na frente de sua casa, e, como sempre, Daela estava sentada na soleira, com uma expressão tão apática quanto de costume. Ela abriu lentamente a boca ao ver o irmão.
"... demorou, hein, mano."
O rosto de Kaden se abriu em um sorriso largo.
"Senti sua falta também, mana."
Enquanto isso, Vaela apareceu na porta de sua casa, onde um homem esperava, com a postura relaxada, mas transmitindo uma aura assustadora.
Ele vestia um terno azul, com luvas brancas intricadas que lhe combinavam perfeitamente.
Neron Cerveau, o Estrategista.
Ele olhou para Vaela calmamente, um sorriso sutil surgindo nos lábios.
"...demorou, minha querida Vaela."
Sua voz era suave, agradável, mas para Vaela soava como o sussurrar de uma cobra venenosa.
Seu rosto não mudou. Ela o encarou por um tempo, depois passou por ele sem se importar em responder.
Os olhos azuis de Neron brilharam com uma luz estranha. Ele falou enquanto ela se afastava.
"Ouvi algo interessante recentemente… quer ouvir também?"
Ele não esperou resposta.
"Foi algo assim: um inimigo é só um amigo cuja história você ainda não conheceu…"
Vaela tremeu discretamente.
Neron sorriu de um jeito apático e continuou.
"…e um amigo… é só um inimigo que ainda não tirou a máscara."
Ele virou-se na direção de Vaela, que parou no caminho.
"O que acha disso, minha querida Vaela?"
Seu sorriso se agudizou como uma lâmina afiada.
"Tenho curiosidade… qual será a máscara que você está usando?"
…
Fokay — Cidade da Dor.
Já faz semanas que Rea vem procurando uma pedra de evolução de grau superior para sua missão.
Ela recorreu aos Mercadores do Tycoon, esperando encontrar alguém com boas conexões. Pessoas assim, sem dúvida, existiam lá, mas a verdadeira questão era como fazer essas pessoas quererem negociar com ela.
A resposta veio logo.
Eles eram comerciantes, ferreiros, alquimistas e runemantes. O que mais precisavam eram materiais raros, fórmulas para melhorar suas criações ou oportunidades para lucrar mais.
Então, Rea tinha que lhes oferecer algo nesse estilo.
Ela não saiu escolhendo aleatoriamente um contato e deixando o resto ao acaso.
Não, ela estudou cada potencial aliado, avaliou-os de acordo com seus critérios e escolheu aquele que acreditava ser o melhor.
Curiosamente, ela optou por um ferreiro que só estava na Cidade da Dor para um comércio, antes de voltar para Asterion.
Uma anã de pele escura, sempre com um cachimbo na boca e conhecida por seu temper difícil.
Rea gostava desse tipo de pessoa. Direta, que não perdia tempo tentando enganá-la.
Então, preparou o melhor material de ferreiro que podia com o apoio da Igreja: um pó cinza.
Um material raro, exclusivo da Igreja da Tristeza, uma poeira infundida com dor e tristeza. Tudo que fosse criado com ele poderia influenciar de forma sutil a dor e o sofrimento dos inimigos.
Era um material cobiçado por ferreiros, e, com certeza, a mulher aceitou de bom grado, como se esse fosse o seu objetivo o tempo todo.
Em troca, ofereceu a Rea uma pedra de evolução de nível Único que carregava consigo.
E assim, Rea voltou ao seu quarto na Igreja da Tristeza, andando de um lado para o outro, ansiosa e nervosa.
Ela tinha conseguido um nível Único, não o que queria, mas esperar por uma origem lendária naquele momento era puro sonho impossível.
Ela não gostava disso, odiava até… mas não tinha escolha senão aceitar essa condição.
Adiar mais ainda sua missão de evolução seria pouco inteligente.
Então, depois de acalmar os nervos, Rea ajoelhou-se no tapete cinza, levantou a pedra de evolução, olhou-a fixamente, cortou o dedo e deixou uma gota de sangue cair sobre ela.
DING!
{Você usou uma pedra de evolução de nível Único.}
O Espírito fez uma pausa, então…
{Rea Thornspire, você possui uma Origem de nível Lendária e é herdeira da família Fallej Thornspire.}
{Você é uma entidade de dor, tristeza e sofrimento eterno.}
{Seu destino só pode ser um… dor.}
{Você recebeu sua missão de evolução.}
{Missão: suportar a dor, a tristeza, as inseguranças, os traumas, o pecado de todos dentro da prisão na Cidade da Dor… e não perder a sua essência enquanto afunda nelas.}
{Prazo: 2 meses.}
{Que o Infinito Sofrimento esteja com você, Rea Thornspire.}
—Fim do Capítulo 196—