
Capítulo 46
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Dentro de uma igreja esplêndida, uma garota se ajoelhava diante de uma estátua.
Mas chamá-la apenas de bela seria um insulto.
Era uma estrutura impressionante—um equilíbrio perfeito entre arquitetura antiga e construções modernas, ao mesmo tempo divina e opressora, sagrada e sufocante. Um lugar forjado de reverência e algo mais obscuro.
As paredes estavam pintadas de um cinza opaco e sem vida—uma cor tão apática, tão fria, tão totalmente inadequada para uma igreja que parecia um erro. Como um vazio. Como algo que fora drenado de alma.
Mas, novamente… tudo dependia do tipo de igreja que fosse.
E que pergunta curiosa, na verdade.
Uma igreja, afinal, deveria ser um lugar onde as pessoas procurassem paz. Onde pudessem ficar na presença do seu deus e encontrar clareza, conforto e significado.
Era isso que uma igreja deveria ser.
Então, qual seria, então, o propósito da Igreja da Tristeza?
“Bando de lunáticos,” pensou Rea consigo mesma, com a cabeça inclinada sob a estátua de uma mulher com uma máscara de choro e olhos sombreados.
Qualquer um que olhasse para ela agora acharia que ela estava em profunda oração. Que era uma devota fiel oferecendo reverência à sua deidade.
Mas isso não poderia estar mais longe da verdade.
Rea não era uma mulher de fé.
Ela não acreditava em deuses só porque os colegas acreditavam. Não se ajoelhava pelo invisível, não orava para o desconhecido.
Ela acreditava naquilo que podia ver. Naquilo que podia compreender.
Foi isso que havia de errado?
Dependeria do contexto.
Mas essa não era a questão.
O ponto era—
'Como isso pode ser chamado de igreja? Isso é só uma maldita seita masoquista,' pensou Rea amargamente ao se levantar, depois de terminar sua chamada oração matinal.
Ela começou a caminhar lentamente pelos corredores.
E ao fazer isso, o ar foi rasgado por gritos.
"Aaahhhhhh—!"
"Não… não aguento mais! POR FAVOR!!"
Dor. Medo. Tristeza.
Era tudo o que se podia ouvir nesse lugar. Era tudo o que se podia sentir.
E o que ela via…
Era perturbador, nem começava a se dar conta.
Você podia pensar que todos esses pessoas estavam aqui contra sua vontade.
Mas não.
Você não poderia estar mais errado.
'Não entendo,' pensou Rea, com um olhar afiado. 'Como alguém pode acreditar numa coisa dessas?'
'Como é possível se sujeitar voluntariamente à dor e ao sofrimento só porque algum deus disse que era o caminho para a salvação?'
Ela não conseguia compreender.
E mesmo assim…
Isso nem era a coisa mais perturbadora deste lugar.
Porque—então—ela a viu.
Rea congelou.
Uma velha estava ali na sua frente, vestida com a mesma roupa cinza que os outros, cabelo grisalho e comprido, olhos tão cinzentos quanto eles—sem vida, sem fundos.
Parecia frágil. Pele enrugada, costas curvadas, apoiada pesadamente em uma bengala de madeira inscrita com runas cinzentas e tênues.
Você pensaria que ela era só uma doce vovozinha.
Mas toda vez que Rea a via…
Ela tremia de medo.
E isso dizia muito—porque Rea era alguém que manipulava o próprio medo. E ainda assim, na presença daquela velhinha, uma sensação profunda e instintiva de pavor brotava dentro do seu peito.
Isso soava suficiente para disparar todos os alarmes mentais.
A velhinha virou a cabeça.
E sorriu.
Era um sorriso que Rea já tinha visto antes—e ainda não se acostumava com ele.
Um sorriso feito inteiramente de tristeza.
"Minha criança, Rea," ela disse, com uma voz tão suave quanto papel.
Rea imediatamente baixou a cabeça. "Mãe Esmere," respondeu com respeito.
O sorriso de Esmere se aprofundou. "Você é sempre tão respeitosa, minha criança. Gosto disso. Gosto de você."
Rea sorriu com uma expressão pequena e educada.
"Diga-me… como está gostando do seu trabalho na igreja?" perguntou Mãe Esmere, enquanto lentamente se voltava para começar a caminhar.
Rea a seguiu, mantendo uma distância suficiente—não muito perto, não muito longe.
"Eu gosto, Mãe Esmere. O trabalho é simples, o pagamento é generoso. Sou grata pela oportunidade… Mãe."
E ela realmente queria dizer isso.
O trabalho era fácil.
Bastava aceitar as doações dos fiéis, manter as contas em dia, varrer os pisos cinzentos. Não era o tipo de trabalho que uma moça nobre de outro mundo deveria fazer.
Mas Rea não ligava para sua reputação.
Ela não acreditava em deuses.
Ela acreditava em dinheiro.
Dinheiro era real. Tangível. Poderoso. Podia te alimentar, te vestir, te proteger. Podia matar. Podia salvar. E se fosse preciso varrer pisos ensanguentados numa seita assustadora para conseguir isso?
Que assim fosse.
Mãe Esmere sorriu suavemente. "Isso é ótimo. Muito bom mesmo."
Ela fez uma pausa.
"Você não está conosco há muito tempo, mas tenho te observado de perto. Você trabalha com seriedade. Com dedicação. E justamente por isso… temos um papel especial que precisa ser preenchido."
Ela parou diante de uma porta preta—alta, sem detalhes, silenciosa.
Ela se virou.
E olhou para Rea.
Rea, vestida com simples túnicas cinza. Cabelo branco preso discretamente atrás da cabeça. Seus olhos vermelhos brilhando como duas rubis neste lugar sem cor.
Havia algo nela.
Algo que intrigava profundamente Mãe Esmere.
"Você mencionou na sua inscrição que sua Origem é baseada no medo," ela disse.
Rea assentiu uma vez.
"E que sua primeira habilidade permite influenciar os medos dos outros."
Outro aceno de cabeça.
"Então este trabalho será perfeito para você."
Mãe Esmere colocou a mão na porta. Luz cinzenta ondulou de sua palma.
Clique.
A porta se abriu.
Rea entrou atrás dela.
E o que viu fez seu sangue gelar.
Dezenas de pessoas.
Homens. Mulheres. Crianças. Idosos. Jovens. Humanoides. Elfos. Anões.
De todas as raças.
Todos acorrentados. Todos tremendo. Todos encarando à frente com olhos arregalados de horror.
Seus olhos… brilhavam com loucura.
"Isto," disse Esmere, com a voz vazia, "é o que acontece com aqueles que sucumbem ao medo. A quem fogem dele. Que o rejeitam. E, ao fazerem isso… rejeitam os ensinamentos de Nossa deidade."
Sua voz era como gelo. Fria, afiada, implacável.
"Essas pessoas se desviaram."
"Porém, nossa Deusa é misericordiosa. Ela quer que eles voltem."
A garganta de Rea ficou seca.
"E… como vocês trazem eles de volta?" perguntou com cuidado, o coração acelerado no peito.
Esmere se virou para ela. Os gritos ainda ecoavam. O silêncio entre cada relato de horror era mais assustador do que o próprio som.
"É aí que você entra, minha querida."
"Se eles fogem do medo…"
"Então fazemos do medo o mundo deles."
Ela inclinou a cabeça, um movimento que poderia ter sido fofo—se não fosse feito por uma avó numa sala cheia de lunáticos acorrentados.
Rea nem teve tempo de processar isso antes que Esmere falasse novamente—
"Então, Rea… use sua habilidade. Faça-os sentir seus medos mais profundos e sombrios. Repetidamente. Até que parem de fugir. Até que o enfrentem. Até que fiquem… iluminados."
"Esse será seu papel a partir de agora."
Sua voz era suave.
Mas seu olhar não deixava margem para recusar.
"Você consegue fazer isso?"
Rea ficou ali, por um longo segundo.
Ela não tinha escolha.
Ela parecia ter, mas não era burra.
Aquele olhar nos olhos de Esmere dizia tudo.
Recusar significaria a morte.
E Rea?
Ela não estava pronta para morrer.
Então, ela sorriu.
Um sorriso perfeito. Um sorriso treinado.
Um sorriso de tristeza.
Uma réplica exatamente igual a todos os outros malditos sorrisos daquele lugar.
"Sim… Mãe Esmere."