
Capítulo 39
MEU AMOR EM PARIS
A noite já estava avançada.
Clara havia terminado de mamar e estava novamente tranquila nos braços de Flor. A pequena parecia sonolenta, enquanto Flor a embalava devagar.
Antonie continuava sentado na sala, olhando para as duas pessoas que agora faziam parte de sua vida de uma maneira que ele jamais havia imaginado.
Bernard permanecia mais afastado, percebendo que aquela era uma conversa familiar.
A mãe de Flor trouxe mais uma xícara de café e colocou sobre a mesa.
MÃE: — Antonie, pode tomar. Você deve estar cansado depois dessa viagem.
ANTONIE: — Obrigado. Realmente foi uma viagem longa.
O pai de Flor puxou uma cadeira.
PAI: — Então sente-se. Há muita coisa que precisamos conversar.
Antonie assentiu.
ANTONIE: — Eu sei.
Flor continuava com Clara no colo.
Depois de alguns minutos, a bebê adormeceu.
Flor cuidadosamente a colocou novamente no bebê-conforto.
Antonie acompanhou cada movimento.
ANTONIE: — Ela dorme bastante?
Flor sorriu.
FLOR: — Na maior parte do tempo. Mas também tem momentos em que gosta de deixar todo mundo acordado.
O pai de Flor riu.
PAI: — Principalmente de madrugada.
MÃE: — E quando ela começa a chorar, todo mundo acorda.
Antonie sorriu pela primeira vez naquela noite.
ANTONIE: — Então já está fazendo a família inteira trabalhar.
Flor riu baixinho.
FLOR: — Mais ou menos.
Por alguns segundos, o clima ficou menos pesado.
Então Antonie olhou novamente para Flor.
ANTONIE: — Eu quero saber tudo.
Flor ficou sério.
FLOR: — Tudo?
ANTONIE: — Tudo sobre ela. Quando você descobriu? Como foi sua gravidez? Quando ela nasceu? Quero saber o que aconteceu enquanto eu estava procurando por você.
Flor respirou fundo.
FLOR: — Eu descobri pouco depois de começar a passar mal. Estava tendo muita tontura e enjoo.
ANTONIE: — E você foi ao médico?
FLOR: — Fui.
Ele contou sobre a consulta, sobre a surpresa ao descobrir que estava esperando um bebê e sobre o medo que sentiu por causa de sua condição de saúde.
Antonie escutou sem interromper.
FLOR: — Eu não sabia o que fazer. E quando Paula apareceu dizendo que estava grávida de você…
Antonie abaixou os olhos.
ANTONIE: — Eu sinto muito.
FLOR: — Eu acreditei nela.
ANTONIE: — Eu sei.
FLOR: — Achei que vocês estavam construindo uma família. Então pensei que minha presença só iria atrapalhar.
Antonie ficou alguns segundos em silêncio.
ANTONIE: — E você decidiu voltar para casa.
FLOR: — Sim.
ANTONIE: — Sem me contar que eu seria pai.
Flor assentiu.
FLOR: — Eu estava com medo.
Antonie respirou fundo.
ANTONIE: — Eu gostaria de ter sabido.
Flor olhou para ele.
FLOR: — Eu sei.
Bernard observava em silêncio, mas percebeu a emoção no rosto de Antonie.
BERNARD: — Antonie procurou você durante muito tempo, Flor.
Flor olhou para Bernard.
FLOR: — Eu não sabia.
BERNARD: — Ele não desistiu de descobrir onde você estava.
Antonie fez um pequeno gesto para Bernard não continuar.
ANTONIE: — O importante é que encontrei vocês.
A palavra “vocês” fez Flor olhar para Clara.
Antonie também olhou para a bebê.
ANTONIE: — Eu posso… chegar um pouco mais perto dela?
Flor ficou alguns segundos pensando.
Depois assentiu.
FLOR: — Pode.
Antonie se levantou.
Caminhou devagar até o bebê-conforto.
Ele se inclinou um pouco, olhando para Clara.
A bebê dormia profundamente.
Antonie sorriu.
ANTONIE: — Oi, Clara.
Ela não respondeu, obviamente.
Antonie soltou uma pequena risada.
ANTONIE: — Acho que ela ainda não sabe quem eu sou.
Flor observou a cena.
FLOR: — Ela é pequena demais para entender.
ANTONIE: — Então vou ter que esperar.
O pai de Flor cruzou os braços.
PAI: — Você vai precisar de paciência.
Antonie olhou para ele.
ANTONIE: — Eu tenho.
A mãe de Flor sentou-se ao lado do marido.
MÃE: — Flor contou tudo para nós. Inclusive que ainda gosta de você.
Flor ficou imediatamente sem graça.
FLOR: — Mãe!
Ela sorriu.
MÃE: — O quê? É verdade.
Antonie olhou para Flor.
Flor desviou o olhar.
ANTONIE: — Você ainda gosta de mim?
Flor ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois respondeu sinceramente.
FLOR: — Nunca deixei de gostar.
Antonie pareceu emocionado.
ANTONIE: — Eu também nunca deixei de amar você.
Flor levantou os olhos.
Os dois ficaram se olhando.
Mas nenhum deles se aproximou.
A situação era diferente agora.
Não eram apenas duas pessoas tentando entender seus sentimentos.
Havia uma criança.
Uma família.
E muitas decisões pela frente.
Antonie voltou a olhar para Clara.
ANTONIE: — Eu não quero chegar aqui e simplesmente exigir espaço na vida dela.
Flor pareceu surpreso.
ANTONIE: — Quero conquistar esse espaço aos poucos. Se você permitir.
Flor ficou pensativo.
FLOR: — Eu quero que ela conheça o pai.
Antonie respirou fundo.
ANTONIE: — Então eu vou fazer tudo para ser um bom pai para ela.
A mãe de Flor sorriu discretamente.
O pai permaneceu sério, mas sua expressão mostrava que estava disposto a ouvir.
Bernard olhou para o relógio.
BERNARD: — Já está ficando tarde.
Antonie olhou para Flor.
ANTONIE: — Eu posso ficar na cidade amanhã?
Flor respondeu depois de alguns segundos.
FLOR: — Pode.
Antonie sorriu.
Naquele momento, Clara abriu os olhos por alguns instantes.
Antonie se aproximou um pouco mais.
Ela olhou na direção dele.
Ele ficou completamente emocionado.
ANTONIE: — Oi, pequena.
Clara mexeu uma das mãos.
Flor observou os dois.
Pela primeira vez, Antonie estava diante da filha.
E, embora ainda houvesse muita coisa para resolver, aquela pequena troca de olhares era o começo de algo novo.