
Capítulo 38
MEU AMOR EM PARIS
A casa permanecia silenciosa naquela noite.
Depois da revelação de que Clara era sua filha, Antonie ainda parecia estar tentando compreender tudo.
Ele estava sentado na sala, próximo ao bebê-conforto, enquanto Flor permanecia do outro lado.
Bernard havia ficado mais afastado, percebendo que aquela conversa pertencia principalmente aos dois.
A mãe de Flor observou o ambiente por alguns segundos e decidiu preparar algo para eles.
MÃE: — Vocês precisam conversar com calma. Vou fazer um café.
ANTONIE: — Obrigado.
FLOR: — Mãe, não precisa se preocupar.
MÃE: — Eu me preocupo porque quero. E vocês provavelmente vão passar bastante tempo conversando.
Ela foi para a cozinha.
O pai de Flor permaneceu por perto, mas também decidiu dar espaço.
Antonie olhou para Flor.
ANTONIE: — Eu ainda estou tentando entender.
Flor baixou os olhos.
FLOR: — Eu imaginei que seria difícil.
ANTONIE: — Você descobriu que estava esperando uma criança e não me contou.
FLOR: — Eu descobri quando tudo estava complicado.
Antonie permaneceu em silêncio.
FLOR: — Eu já tinha problemas de saúde e os médicos sempre disseram que uma gravidez poderia ser difícil. Quando descobri que estava esperando Clara, eu fiquei assustado.
Antonie escutava atentamente.
FLOR: — E depois aconteceu aquilo com Paula.
A expressão de Antonie mudou.
ANTONIE: — O que ela disse para você?
Flor respirou fundo.
FLOR: — Ela foi até a pensão. Disse que estava grávida de você e que não queria se separar.
Antonie fechou os olhos por um instante.
Agora entendia por que Flor havia desaparecido.
ANTONIE: — Flor… Paula mentiu.
Flor levantou os olhos, surpreso.
FLOR: — Como assim?
ANTONIE: — Ela não estava grávida.
Flor ficou completamente quieto.
FLOR: — Você tem certeza?
ANTONIE: — Tenho. Ela admitiu para mim.
Flor demorou alguns segundos para reagir.
FLOR: — Então eu fui embora acreditando em uma mentira.
ANTONIE: — Eu sinto muito.
Flor passou as mãos pelo rosto.
FLOR: — Eu achei que você teria uma família com ela. Achei que meu envolvimento só iria machucar vocês.
ANTONIE: — Eu procurei você porque queria saber por que tinha ido embora.
Flor olhou para ele.
FLOR: — Eu achei que era melhor desaparecer.
ANTONIE: — Você não precisava ter passado por isso sozinho.
Flor não respondeu.
Nesse momento, sua mãe voltou da cozinha trazendo uma bandeja com café.
Ela colocou as xícaras sobre a mesa.
MÃE: — Fiz café para vocês.
ANTONIE: — Obrigado.
Flor pegou sua xícara, mas ficou meio sem graça.
Ele ainda estava abalado com tudo que acabara de descobrir.
Sua mãe percebeu.
MÃE: — Flor, você não precisa ficar envergonhado.
FLOR: — É que… parece tudo tão estranho.
MÃE: — É muita coisa para uma noite só.
Bernard, que estava mais afastado, falou pela primeira vez.
BERNARD: — Acho que ninguém esperava que a viagem terminasse dessa maneira.
Antonie olhou para ele.
ANTONIE: — Nem eu.
Flor tomou um pequeno gole de café.
Então um som interrompeu a conversa.
Clara começou a se mexer dentro do bebê-conforto.
Logo depois, começou a chorar.
Flor imediatamente deixou a xícara sobre a mesa.
FLOR: — Ela acordou.
Ele se levantou e foi até a filha.
FLOR: — Calma, minha pequena. Papai está aqui.
Flor pegou Clara cuidadosamente no colo.
A bebê continuou chorando por alguns instantes, procurando conforto.
Flor percebeu que ela queria mamar.
Ele se acomodou em uma poltrona e começou a amamentá-la de maneira natural, como parte da rotina de cuidados com sua filha.
Clara foi se acalmando aos poucos.
O choro desapareceu e a casa voltou a ficar silenciosa.
Antonie observava a cena.
Seu olhar estava completamente diferente.
Ele sabia que aquela era sua filha.
Mas vê-la sendo cuidada por Flor tornava aquela realidade ainda mais concreta.
Era a primeira vez que testemunhava um momento tão cotidiano entre pai e filha.
Flor percebeu que Antonie estava olhando e ficou um pouco sem graça.
FLOR: — Desculpa…
Antonie imediatamente balançou a cabeça.
ANTONIE: — Não precisa pedir desculpa.
Ele olhou para Clara.
ANTONIE: — Eu só estou tentando guardar esse momento.
Flor ficou em silêncio.
Antonie continuou:
ANTONIE: — Eu perdi tantos momentos dela sem nem saber que existiam.
Flor abaixou os olhos para a filha.
FLOR: — Eu não queria que você perdesse.
Antonie olhou para ele.
ANTONIE: — Então talvez ainda exista uma maneira de recuperar alguns deles.
Flor não respondeu imediatamente.
Clara estava tranquila novamente em seus braços.
A mãe de Flor observava os dois em silêncio.
O pai também.
Bernard percebeu que Antonie estava emocionado, mas não interrompeu.
Depois de alguns minutos, Antonie falou baixinho:
ANTONIE: — Ela é linda.
Flor sorriu discretamente.
FLOR: — Ela se parece comigo.
Antonie olhou para a filha.
ANTONIE: — Sim. Bastante.
Flor soltou uma pequena risada.
FLOR: — Você está conhecendo sua filha há poucos minutos e já está analisando com quem ela se parece?
Antonie também sorriu.
ANTONIE: — Acho que tenho muito tempo perdido para recuperar.
Flor ficou olhando para ele.
Ainda havia muitas coisas para resolver.
Mas naquela noite, pela primeira vez, Antonie estava ali.
Na mesma casa.
Diante da própria filha.
E Flor percebeu que talvez aquela história estivesse começando uma nova etapa.