
Capítulo 36
MEU AMOR EM PARIS
Eram exatamente 10 horas da noite.
A pequena cidade estava silenciosa. A maioria das casas já estava com as luzes apagadas, e apenas algumas janelas continuavam iluminadas. O movimento nas ruas havia diminuído bastante, deixando o lugar com aquele silêncio típico das noites tranquilas do interior.
Na casa de Flor, porém, as luzes ainda estavam acesas.
Depois de um dia inteiro cuidando de sua filha, Flor havia acabado de dar banho em Clara.
No quarto, ele havia secado cuidadosamente a bebê e colocado nela uma roupinha confortável para dormir. Clara estava tranquila, enrolada em uma manta clara.
Flor a carregou nos braços até a sala.
FLOR: — Pronto, minha filha. Agora você está limpinha.
Clara abriu os olhos por alguns segundos.
Flor sorriu.
FLOR: — Está com sono?
Ele caminhou até o bebê-conforto que estava colocado próximo ao sofá e acomodou a filha com cuidado.
Flor verificou a manta, ajeitou a posição da bebê e ficou alguns segundos observando-a.
FLOR: — Assim está melhor.
Clara mexeu as mãozinhas e soltou um pequeno som.
Flor se sentou ao lado dela.
Na cozinha, seus pais preparavam o jantar.
Sua mãe estava terminando alguns alimentos enquanto seu pai cuidava da panela no fogão.
O cheiro da comida recém-preparada preenchia a casa.
MÃE: — Flor, quando terminar de colocar a Clara para descansar, venha comer.
FLOR: — Já vou, mãe.
PAI: — Você falou isso há dez minutos.
Flor riu baixinho.
FLOR: — Eu sei.
MÃE: — Desde que essa menina nasceu, você não pensa em outra coisa.
Flor olhou para Clara.
FLOR: — Ela precisa de mim.
Sua mãe sorriu.
MÃE: — E você também precisa cuidar de você.
O pai colocou a colher sobre a bancada e olhou para o filho.
PAI: — Sua mãe tem razão.
FLOR: — Eu vou me cuidar.
Ele voltou a olhar para a filha.
Aquela pequena casa tinha se tornado o lugar onde Flor se sentia protegido.
Depois de tudo que havia acontecido em Paris, estar novamente perto dos pais lhe dava segurança.
Ele ainda pensava em Antonie.
Mas tentava não pensar demais.
Tentava concentrar toda a atenção em Clara.
Naquela noite, entretanto, o passado estava muito mais perto do que ele imaginava.
🚗 A chegada
A vários quilômetros dali, um carro finalmente entrou na pequena cidade.
Antonie estava acompanhado de Bernard.
A viagem havia sido longa.
Durante boa parte do caminho, Antonie permaneceu em silêncio, olhando pela janela.
Bernard percebeu o quanto ele estava nervoso.
BERNARD: — Você está muito quieto.
Antonie continuou olhando para a estrada.
ANTONIE: — Estou pensando no que vou dizer quando encontrar Flor.
BERNARD: — Depois de tudo o que aconteceu, talvez ele também tenha muitas coisas para dizer.
Antonie assentiu.
ANTONIE: — Eu sei.
BERNARD: — Então escute primeiro.
Antonie olhou para ele.
ANTONIE: — Vou escutar.
O carro continuou pelas ruas da cidade.
Finalmente, Bernard conferiu o endereço que tinha conseguido.
BERNARD: — É aqui perto.
Antonie ficou mais atento.
Poucos minutos depois, o carro parou diante de uma casa simples.
Antonie olhou pela janela.
Uma luz estava acesa.
Ele respirou fundo.
ANTONIE: — É aqui.
Bernard desligou o motor.
Os dois desceram.
Antonie ficou alguns segundos diante da casa.
Ele havia procurado Flor durante meses.
Agora estava finalmente diante da porta.
BERNARD: — Tem certeza de que quer fazer isso agora?
Antonie olhou para a casa.
ANTONIE: — Sim.
BERNARD: — Então eu espero aqui.
Antonie assentiu.
ANTONIE: — Obrigado por ter vindo comigo.
Bernard colocou as mãos nos bolsos do casaco.
BERNARD: — Boa sorte.
Antonie caminhou até a porta.
Levantou a mão.
E bateu.
TOC. TOC. TOC.
🚪 A porta
Dentro da casa, todos ouviram.
Flor olhou imediatamente para a direção da entrada.
Sua mãe parou o que estava fazendo.
Seu pai também.
PAI: — Alguém está batendo.
MÃE: — A essa hora?
Flor olhou para o relógio.
FLOR: — São dez horas.
Clara continuava tranquila no bebê-conforto.
Sua mãe enxugou as mãos em um pano de cozinha.
MÃE: — Eu vou ver quem é.
Ela caminhou até a porta.
Flor permaneceu na sala.
Ele não fazia ideia de quem poderia estar ali.
Sua mãe abriu a porta.
Do lado de fora estava Antonie.
Ela nunca havia visto aquele homem pessoalmente.
Embora Flor tivesse contado toda a história aos pais e mencionado várias vezes o nome de Antonie, ela não sabia que aquele visitante diante dela era justamente ele.
Por isso, sua reação foi natural.
MÃE: — Quem é você?
Antonie manteve uma postura educada.
ANTONIE: — Desculpe aparecer tão tarde. Estou procurando o Flor.
A mãe de Flor ficou desconfiada.
MÃE: — Flor?
ANTONIE: — Sim. Flor está aqui?
Bernard permanecia alguns metros atrás, perto do carro.
A mãe continuou olhando para Antonie.
MÃE: — Quem é você para estar procurando meu filho a essa hora?
Antonie respirou fundo.
ANTONIE: — Meu nome é Antonie.
A mãe ficou em silêncio.
O nome imediatamente chamou sua atenção.
Era o mesmo nome que Flor havia mencionado quando contou aos pais toda a história que vivera em Paris.
Mas ela ainda não conhecia o rosto dele.
Agora começava a entender.
Antes que pudesse continuar a conversa, uma voz veio da sala.
FLOR: — Mãe… quem é?
Flor se levantou.
Caminhou alguns passos.
E então viu o homem parado na porta.
Ele parou completamente.
Seu rosto mudou.
Por alguns segundos, Flor não conseguiu dizer nada.
Era Antonie.
O homem que ele havia deixado em Paris.
O homem que ele acreditava ter uma vida completamente diferente.
O homem que havia procurado por ele durante meses sem que Flor soubesse.
FLOR: — Antonie…
Antonie ouviu sua voz.
Seus olhos encontraram os de Flor.
ANTONIE: — Flor.
O silêncio tomou conta da casa.
A mãe de Flor olhou para o filho.
Depois para Antonie.
Agora ela finalmente compreendia que o homem diante dela era o mesmo Antonie de quem Flor havia falado.
MÃE: — Então… você é o Antonie.
Antonie assentiu.
ANTONIE: — Sim.
Flor permaneceu parado.
Seu pai se aproximou lentamente, percebendo a tensão.
PAI: — Flor…
Flor respirou fundo.
Antonie olhou para ele.
ANTONIE: — Eu procurei você por muito tempo.
Flor não respondeu.
Antonie então percebeu que estava diante da casa da família de Flor e que havia aparecido sem avisar.
ANTONIE: — Eu sei que talvez não fosse a melhor maneira de aparecer.
Flor finalmente falou.
FLOR: — O que você está fazendo aqui?
ANTONIE: — Eu precisava encontrar você.
Antes que Flor pudesse responder, Clara se mexeu no bebê-conforto.
Um pequeno som chamou a atenção de Antonie.
Ele virou o rosto.
E viu a bebê.
Antonie ficou imóvel.
A pequena Clara estava acordada, olhando tranquilamente para o ambiente.
Ele não sabia quem ela era.
Não sabia que era sua filha.
Não sabia que Flor havia escondido dele a existência daquela criança.
Apenas ficou olhando.
ANTONIE: — Essa bebê…
Flor sentiu o coração acelerar.
Sua mãe ficou em silêncio.
Seu pai também.
Ninguém contou a verdade.
Antonie deu um pequeno passo para dentro da casa, ainda olhando para Clara.
ANTONIE: — Quem é ela?
Flor olhou para a filha.
Depois olhou para Antonie.
Durante meses, ele havia imaginado aquele encontro.
Mas nunca imaginou que Antonie descobriria sua existência daquela maneira.
Clara mexeu novamente as mãozinhas.
Antonie continuou olhando para ela, completamente sem saber que estava diante da própria filha.
E Flor percebeu que aquele segredo, guardado durante tantos meses, estava prestes a mudar tudo.