
Capítulo 20
MEU AMOR EM PARIS
A manhã havia começado tranquila, mas Antonie sabia que aquele dia seria um dos mais difíceis de sua vida.
Depois da conversa com Flor, ele tinha tomado uma decisão. Não queria continuar vivendo uma relação enquanto seu coração estava em outro lugar.
Antes de qualquer coisa, porém, precisava resolver sua situação com Paula.
Antonie acompanhou Flor até a entrada do hotel. Do lado de fora, Paris já estava movimentada. Táxis passavam pela rua, pessoas caminhavam apressadas e os cafés começavam a receber os primeiros clientes.
Flor ajeitou o casaco e olhou para Antonie.
FLOR: — Obrigado por ontem.
ANTONIE: — Eu é que agradeço por confiar em mim.
Flor hesitou.
FLOR: — E agora?
Antonie respirou fundo.
ANTONIE: — Agora eu vou para casa conversar com a Paula.
Flor ficou sério.
FLOR: — Seja honesto com ela.
ANTONIE: — Vou ser.
FLOR: — Mesmo que seja difícil.
ANTONIE: — Principalmente porque será difícil.
Flor assentiu.
Antonie chamou um táxi para ele.
Antes de entrar, Flor olhou novamente para Antonie.
FLOR: — Até mais tarde.
ANTONIE: — Até.
O táxi partiu.
Antonie ficou alguns segundos parado na calçada, observando o carro desaparecer entre o movimento de Paris.
Então entrou em seu próprio automóvel.
🏠 A residência de Antonie
Jacques dirigia pelas ruas enquanto Antonie permanecia calado no banco traseiro.
Normalmente, Antonie aproveitaria aquele trajeto para ler documentos ou conversar sobre os compromissos do dia.
Naquela manhã, não conseguiu.
Jacques percebeu o silêncio.
JACQUES: — Senhor Antonie?
Antonie levantou os olhos.
ANTONIE: — Sim?
JACQUES: — Está tudo bem?
Antonie olhou pela janela.
ANTONIE: — Não sei se posso dizer que está tudo bem.
Jacques não insistiu.
JACQUES: — Entendo.
Depois de alguns minutos, o carro chegou à residência.
Antonie entrou e encontrou Marie organizando alguns objetos na sala.
MARIE: — Bom dia, senhor.
ANTONIE: — Bom dia, Marie.
Ela percebeu imediatamente que havia algo diferente nele.
MARIE: — Posso preparar seu café?
ANTONIE: — Obrigado, mas não agora.
Antonie subiu as escadas.
Precisava falar com Paula.
☕ A conversa
Paula estava na sala quando Antonie entrou.
Ela estava sentada próxima à janela, folheando uma revista.
Ao ouvir seus passos, levantou os olhos.
PAULA: — Você chegou cedo.
ANTONIE: — Precisamos conversar.
Paula imediatamente percebeu a seriedade em sua voz.
Ela colocou a revista sobre a mesa.
PAULA: — Sobre o quê?
Antonie permaneceu alguns segundos em silêncio.
ANTONIE: — Sobre nós.
Paula ficou imóvel.
PAULA: — Aconteceu alguma coisa?
Antonie sentou-se diante dela.
ANTONIE: — Eu não quero continuar fingindo que está tudo igual.
Paula franziu a testa.
PAULA: — Antonie…
ANTONIE: — Você merece sinceridade.
PAULA: — Está falando como se tivesse tomado uma decisão.
Antonie respirou profundamente.
ANTONIE: — Tomei.
Paula levantou-se.
PAULA: — Você quer terminar comigo?
Antonie demorou alguns segundos para responder.
ANTONIE: — Quero terminar nosso relacionamento.
O silêncio tomou conta da sala.
Paula ficou olhando para ele, tentando compreender aquelas palavras.
PAULA: — Por quê?
Antonie baixou os olhos.
ANTONIE: — Porque meus sentimentos mudaram.
Paula soltou uma pequena risada, mas não havia humor nela.
PAULA: — Mudaram?
ANTONIE: — Sim.
PAULA: — Depois de todos esses anos?
ANTONIE: — Eu sei que isso machuca.
PAULA: — Você sabe?
Ela começou a andar pela sala.
PAULA: — Você chega aqui, olha para mim e simplesmente diz que seus sentimentos mudaram?
Antonie levantou-se.
ANTONIE: — Eu não queria que acontecesse dessa maneira.
PAULA: — Mas aconteceu.
Ela parou diante dele.
Então perguntou, diretamente:
PAULA: — Você quer me deixar por causa daquele menino?
Antonie ficou em silêncio por alguns segundos.
Paula percebeu a resposta antes mesmo que ele falasse.
PAULA: — É ele, não é?
ANTONIE: — Paula…
PAULA: — Você quer me deixar por causa daquele menino que apareceu do nada?
ANTONIE: — Não é tão simples.
PAULA: — Para mim é!
Paula virou-se, tentando controlar a emoção.
PAULA: — Eu estava ao seu lado. Nos seus momentos difíceis, nas reuniões, nos eventos, em tudo.
Antonie permaneceu próximo, mas não tentou impedir que ela se afastasse.
ANTONIE: — Eu reconheço tudo o que você fez por mim.
PAULA: — Então por que ele?
Antonie ficou pensativo.
ANTONIE: — Porque eu me apaixonei.
Paula fechou os olhos por um instante.
PAULA: — Você está apaixonado por ele…
ANTONIE: — Estou.
PAULA: — E ele sabe?
ANTONIE: — Sabe que meus sentimentos por ele são verdadeiros.
Paula respirou fundo.
PAULA: — E você acha que isso vai ser fácil?
ANTONIE: — Não.
PAULA: — Você acha que as pessoas vão simplesmente aceitar?
ANTONIE: — Não sei.
PAULA: — Então por que está fazendo isso?
Antonie respondeu sem hesitar:
ANTONIE: — Porque continuar ao seu lado fingindo que meu coração ainda está no mesmo lugar seria muito mais injusto.
Paula ficou em silêncio.
Aquelas palavras não faziam a dor desaparecer.
Ela ainda estava magoada.
PAULA: — Eu não aceito isso, Antonie.
Ele assentiu lentamente.
ANTONIE: — Eu entendo.
PAULA: — Não, você não entende.
ANTONIE: — Talvez não consiga entender completamente o que você está sentindo. Mas não vou diminuir sua dor.
Paula sentou-se novamente.
PAULA: — Eu preciso de tempo.
ANTONIE: — Você terá.
PAULA: — E não espere que eu simplesmente sorria e diga que está tudo bem.
ANTONIE: — Eu não espero isso.
Paula olhou para ele.
PAULA: — Então vá.
Antonie permaneceu parado.
PAULA: — Se você já escolheu o caminho que quer seguir, vá.
Antonie respirou fundo.
ANTONIE: — Eu sinto muito, Paula.
Ela desviou o olhar.
PAULA: — Eu ainda não consigo aceitar.
Antonie não respondeu.
Ele sabia que algumas decisões não podiam ser consertadas com dinheiro, palavras ou promessas.
Naquele momento, só podia respeitar a dor dela.
Antonie saiu lentamente da sala.
No corredor, parou por alguns segundos.
Pela primeira vez, percebeu que escolher seguir seu coração não significava que ninguém sairia machucado.
Enquanto isso, dentro da sala, Paula permaneceu sentada junto à janela, olhando para as ruas de Paris.
Ela ainda não estava pronta para aceitar o fim.
E Antonie sabia que aquela conversa estava longe de ser o fim de tudo.