
Capítulo 9
MEU AMOR EM PARIS
O telefone ainda estava na mão de Antonie.
Do outro lado da linha, Flor permanecia em silêncio por alguns segundos depois de encerrar a conversa.
A voz dele ainda parecia ecoar na cabeça de Antonie.
FLOR: — Ser gentil seria me deixar trabalhar.
Antonie olhou para o aparelho antes de colocá-lo lentamente sobre a mesa.
Por alguns instantes, não disse nada.
A ligação havia terminado, mas aquela conversa estava longe de sair de seus pensamentos.
Ele havia tentado conversar.
Flor havia deixado claro que estava trabalhando e não queria ser incomodado.
Antonie sabia disso.
E, ainda assim, havia algo naquele jovem que despertava sua curiosidade.
Ele se aproximou da janela da suíte e ficou observando Paris.
Foi quando uma ideia surgiu.
ANTONIE: — Ele trabalha aqui…
Antonie olhou para o telefone novamente.
Então percebeu a coincidência.
Flor não apenas estava em Paris.
Não apenas havia conseguido um emprego.
Ele trabalhava justamente em um dos hotéis que pertenciam a Antonie.
A expressão de surpresa em seu rosto foi substituída por um pequeno sorriso.
ANTONIE: — Então era aqui que você estava.
Ele balançou a cabeça, quase incrédulo.
Mas decidiu não ligar novamente.
Flor tinha sido claro.
Se quisesse conhecê-lo, teria que fazer isso sem atrapalhar seu trabalho.
A descoberta
Pouco depois, Antonie saiu da suíte.
No corredor, encontrou Henri.
HENRI: — Senhor Antonie.
ANTONIE: — Henri.
HENRI: — A reunião com Bernard continua marcada para as onze.
ANTONIE: — Eu sei.
Antonie hesitou.
Depois perguntou casualmente:
ANTONIE: — O funcionário novo… Flor.
Henri imediatamente entendeu de quem ele falava.
HENRI: — Sim. O rapaz que começou ontem.
ANTONIE: — Ele está trabalhando hoje?
HENRI: — Está.
Antonie tentou esconder sua reação.
ANTONIE: — Como ele está se saindo?
Henri sorriu.
HENRI: — Muito bem.
Antonie ficou interessado.
ANTONIE: — Muito bem?
HENRI: — Chegou no horário, presta atenção às instruções e é extremamente educado com os hóspedes.
ANTONIE: — Alguma reclamação?
HENRI: — Até agora, nenhuma.
Henri fez uma pausa.
HENRI: — Na verdade, aconteceu o contrário.
ANTONIE: — O quê?
HENRI: — Alguns hóspedes já elogiaram o trabalho dele.
Antonie ficou em silêncio.
Aquilo claramente despertou sua atenção.
ANTONIE: — Já?
HENRI: — Sim.
Antonie sorriu discretamente.
ANTONIE: — Interessante.
No terceiro andar
Enquanto isso, Flor não fazia ideia daquela conversa.
Ele estava ocupado organizando um dos quartos.
Abriu as cortinas, deixou a luz entrar e verificou cuidadosamente todos os detalhes.
Arrumou a cama.
Dobrou as toalhas.
Conferiu o banheiro.
Organizou os objetos que estavam fora do lugar.
Quando terminou, respirou fundo.
FLOR: — Acho que está tudo certo.
Ele pegou seu material e saiu.
No corredor, encontrou uma hóspede que acabava de voltar de um passeio.
CLIENTE: — Bom dia.
Flor imediatamente sorriu.
FLOR: — Bom dia, senhora.
CLIENTE: — Você poderia me ajudar?
FLOR: — Claro.
Ela explicou que havia esquecido em qual direção ficava o salão de refeições.
Flor apontou o caminho.
FLOR: — É por aquele corredor. Depois vire à esquerda.
CLIENTE: — Muito obrigada.
FLOR: — Não há de quê.
Ela continuou andando, mas depois de alguns passos voltou.
CLIENTE: — Desculpe, posso perguntar seu nome?
Flor ficou surpreso.
FLOR: — Flor.
CLIENTE: — Flor?
FLOR: — Sim.
A senhora sorriu.
CLIENTE: — É um nome bonito.
Flor ficou um pouco envergonhado.
FLOR: — Obrigado.
CLIENTE: — Tenha um bom dia, Flor.
FLOR: — A senhora também.
O primeiro elogio do dia
Mais tarde, Flor entrou em outra suíte para realizar a limpeza.
Quando estava terminando, ouviu uma batida na porta.
Era o hóspede que ocupava o quarto.
HÓSPEDE: — Com licença.
Flor se afastou para deixá-lo entrar.
FLOR: — Desculpe. Já estou terminando.
O homem olhou ao redor.
A cama estava perfeitamente organizada.
As cortinas estavam abertas.
Tudo estava limpo e arrumado.
HÓSPEDE: — Você fez isso?
FLOR: — Sim.
O homem olhou novamente para o quarto.
HÓSPEDE: — Está muito bem feito.
Flor sorriu.
FLOR: — Obrigado.
HÓSPEDE: — Você é novo aqui?
FLOR: — Comecei ontem.
HÓSPEDE: — Então continue assim.
FLOR: — Vou continuar.
O homem saiu.
Flor ficou alguns segundos parado.
Era apenas um elogio.
Mas significava muito para ele.
Ele havia chegado a Paris sem saber o que aconteceria com sua vida.
Agora estava começando a receber reconhecimento pelo próprio trabalho.
Na recepção
Clara estava organizando alguns documentos quando uma hóspede se aproximou.
CLIENTE: — Com licença.
CLARA: — Pois não.
CLIENTE: — Eu gostaria de deixar um elogio para um funcionário.
Clara pegou um pequeno bloco.
CLARA: — Claro. Qual funcionário?
A mulher pensou.
CLIENTE: — O rapaz novo. Flor.
Clara imediatamente sorriu.
CLARA: — Flor?
CLIENTE: — Sim.
CLARA: — O que aconteceu?
CLIENTE: — Ele foi muito gentil comigo. Eu estava procurando meu quarto e ele me acompanhou até o elevador e explicou tudo.
Clara anotou.
CLARA: — Vou registrar seu elogio.
CLIENTE: — Faça isso. Ele merece.
A mulher saiu.
Clara olhou para a anotação e sorriu.
Poucos minutos depois, Flor apareceu na recepção.
FLOR: — Clara, Henri pediu estes documentos.
Clara pegou os papéis.
CLARA: — Obrigada.
Flor começou a se afastar.
CLARA: — Flor.
Ele se virou.
FLOR: — Sim?
CLARA: — Você sabe que acabou de receber outro elogio?
Flor arregalou os olhos.
FLOR: — Outro?
CLARA: — Outro.
Flor ficou sem jeito.
FLOR: — Eu só estou fazendo meu trabalho.
CLARA: — E está fazendo muito bem.
Flor sorriu.
FLOR: — Obrigado.
Antonie observa
Antonie estava descendo as escadas naquele momento.
Ele havia terminado uma conversa com Bernard e caminhava pelo saguão quando ouviu Clara mencionar o nome de Flor.
Parou discretamente.
Não queria interromper.
Clara continuava conversando.
CLARA: — Os hóspedes estão gostando de você.
Flor deu uma pequena risada.
FLOR: — Isso é bom, não é?
CLARA: — Muito.
Antonie observou de longe.
Ele percebeu o sorriso de Flor.
Não era um sorriso direcionado a ele.
Era um sorriso de satisfação por estar conseguindo fazer seu trabalho.
Isso fez Antonie pensar.
No dia anterior, Flor havia rejeitado sua aproximação.
Hoje, sem sequer tentar, estava conquistando a simpatia das pessoas ao seu redor.
Henri passou por Antonie.
HENRI: — Senhor Antonie.
Antonie apontou discretamente para Flor.
ANTONIE: — Ele realmente está se saindo bem.
HENRI: — Eu disse.
ANTONIE: — Quantos elogios?
Henri sorriu.
HENRI: — Já perdi a conta.
Antonie riu baixo.
ANTONIE: — Então parece que fizemos uma boa contratação.
HENRI: — Sem dúvida.
Um hóspede agradece pessoalmente
No início da tarde, Flor estava levando algumas toalhas quando um senhor o chamou.
HÓSPEDE: — Flor!
Ele parou imediatamente.
FLOR: — Sim?
HÓSPEDE: — Eu queria falar com você antes de ir embora.
Flor se aproximou.
HÓSPEDE: — Minha esposa e eu estamos hospedados aqui há três dias.
FLOR: — Espero que tenham gostado do hotel.
HÓSPEDE: — Gostamos muito.
Ele sorriu.
HÓSPEDE: — E você ajudou bastante.
FLOR: — Eu?
HÓSPEDE: — Você.
O homem estendeu a mão.
Flor apertou.
HÓSPEDE: — Continue trabalhando dessa maneira. Pessoas educadas fazem diferença.
Flor sorriu.
FLOR: — Muito obrigado. Desejo uma boa viagem.
HÓSPEDE: — Obrigado, rapaz.
O homem foi embora.
Flor observou-o desaparecer pela porta principal.
Antonie toma uma decisão
Do outro lado do saguão, Antonie havia visto novamente a cena.
Ele ficou pensativo.
Bernard se aproximou.
BERNARD: — Está tudo bem?
ANTONIE: — Sim.
BERNARD: — Está olhando para Flor novamente.
Antonie sorriu.
ANTONIE: — Ele está recebendo muitos elogios.
BERNARD: — Parece que sim.
Antonie ficou alguns segundos em silêncio.
Depois falou:
ANTONIE: — Não vou incomodá-lo durante o trabalho.
Bernard pareceu surpreso.
BERNARD: — Essa é uma boa decisão.
Antonie olhou para Flor mais uma vez.
ANTONIE: — Se ele quer trabalhar, vou deixá-lo trabalhar.
BERNARD: — E fora daqui?
Antonie soltou uma pequena risada.
ANTONIE: — Isso é outra história.
Bernard balançou a cabeça.
BERNARD: — Senhor Antonie…
ANTONIE: — Eu entendi.
Ele sorriu.
ANTONIE: — Sem pressão.
E, pela primeira vez, Antonie percebeu que talvez precisasse ter paciência.
Flor havia deixado claro que não queria ser incomodado.
Então Antonie decidiu respeitar seu espaço.
Mas agora havia uma certeza que não conseguia ignorar:
Flor estava trabalhando em seu hotel.
E, todos os dias, Antonie teria a oportunidade de vê-lo — mesmo que de longe.
Enquanto Flor, completamente alheio aos pensamentos de Antonie, continuava trabalhando e recebendo novos elogios dos hóspedes.
Para ele, aquele era apenas o começo de sua nova vida em Paris.