MEU AMOR EM PARIS

Capítulo 4

MEU AMOR EM PARIS

 

 

Paris, 1984 — final da tarde

O dia estava chegando ao fim.

As ruas do centro de Paris continuavam movimentadas. Carros passavam pelas avenidas, ônibus paravam nos pontos e as pessoas caminhavam pelas calçadas usando casacos por causa do frio.

As vitrines das lojas começavam a ficar iluminadas.

Em uma pequena lanchonete próxima a uma das avenidas mais movimentadas, Flor terminava seu lanche.

Ele havia passado o dia procurando emprego novamente.

Tinha visitado alguns estabelecimentos, deixado currículos e ouvido respostas que começavam a se tornar familiares.

“Precisamos de alguém com experiência.”

“Entraremos em contato.”

“No momento, não podemos contratar.”

Mesmo cansado, Flor continuava tentando.

Naquela tarde, ele havia comprado apenas um sanduíche e uma bebida. Depois de terminar, contou cuidadosamente as moedas que ainda tinha.

FLOR: — Preciso economizar.

Guardou o dinheiro no bolso e levantou-se.

Vestiu o casaco, ajeitou os cabelos diante do pequeno espelho próximo à porta e pegou seu caderno.

Sua aparência chamava atenção sem que ele percebesse.

Os cabelos cuidadosamente penteados emolduravam seu rosto delicado. Os olhos tinham uma expressão doce, enquanto o cansaço deixava seu semblante ainda mais tranquilo.

Flor colocou as mãos nos bolsos do casaco e saiu.

🚶 O encontro

Do lado de fora, uma garoa fina começava a cair.

Flor abriu o guarda-chuva e começou a caminhar.

Ao mesmo tempo, do outro lado da calçada, Antonie acabava de sair de uma reunião.

Ele estava acompanhado apenas por seu motorista, Jacques, que havia estacionado o carro alguns metros adiante.

Antonie vestia um elegante sobretudo escuro sobre o terno.

Tinha acabado de sair de uma reunião importante e estava distraído, pensando nos negócios.

JACQUES: — Senhor Antonie, o carro está logo ali.

ANTONIE: — Já estou indo.

Antonie deu alguns passos.

Foi quando uma pessoa atravessou rapidamente sua frente.

Flor tentou desviar de uma poça de água.

Antonie também mudou de direção.

E os dois acabaram esbarrando.

O guarda-chuva de Flor caiu.

Seu caderno quase escapou de suas mãos.

FLOR: — Desculpe!

Antonie segurou o próprio casaco e olhou para ele.

Por alguns segundos, ficou em silêncio.

Aquele era o jovem que havia chamado sua atenção.

Não havia nada de extraordinário na situação.

Era apenas um acidente.

Mas Antonie ficou surpreso com a delicadeza de Flor.

ANTONIE: — Você está bem?

Flor se abaixou para pegar o guarda-chuva.

FLOR: — Estou. Desculpe, eu estava distraído.

Antonie se abaixou e pegou o caderno que havia caído.

Entregou-o a Flor.

ANTONIE: — Acho que isso é seu.

Flor recebeu o caderno.

FLOR: — Obrigado.

Seus olhos encontraram os de Antonie.

Antonie ficou novamente em silêncio por um instante.

Havia algo naquele jovem que havia despertado sua curiosidade imediatamente.

ANTONIE: — Você não é daqui, é?

Flor sorriu sem graça.

FLOR: — Sou francês. Mas vim do interior.

ANTONIE: — Entendi.

FLOR: — Cheguei há poucos dias.

Antonie percebeu que Flor segurava um jornal dobrado.

ANTONIE: — Está procurando trabalho?

Flor olhou para o jornal.

FLOR: — Sim.

ANTONIE: — Está sendo difícil?

Flor soltou uma pequena risada.

FLOR: — Mais do que eu imaginava.

Antonie sorriu.

ANTONIE: — Paris pode ser complicada para quem chega sozinho.

FLOR: — Eu já percebi.

☕ Uma conversa inesperada

A chuva aumentou um pouco.

Os dois permaneceram sob a marquise de uma loja.

Flor olhou para a rua.

FLOR: — Eu deveria continuar procurando.

ANTONIE: — Não está com pressa?

FLOR: — Tenho que voltar para a pensão antes de ficar tarde.

Antonie hesitou.

Não costumava abordar desconhecidos daquela maneira.

Mas havia algo nele que o fazia querer continuar aquela conversa.

ANTONIE: — Pode parecer estranho…

Flor olhou para ele.

ANTONIE: — Mas você gostaria de sair para jantar comigo?

Flor ficou surpreso.

Ele não esperava aquele convite.

FLOR: — Jantar?

ANTONIE: — Sim.

Flor observou Antonie por alguns segundos.

Antes que pudesse responder, uma voz conhecida surgiu atrás deles.

🧣 Paula

PAULA: — Onde você estava, amor?

Antonie virou-se.

Era Paula, sua companheira ômega.

Ela se aproximou usando um elegante casaco e segurando uma pequena bolsa.

Paula havia ido encontrá-lo para o jantar combinado naquela noite.

Ela olhou para Antonie e depois para Flor.

Percebeu imediatamente que os dois estavam conversando.

PAULA: — Antonie?

Antonie ficou um pouco desconcertado.

ANTONIE: — Paula.

Flor percebeu a situação.

Não queria ficar no meio de um casal.

Abaixou discretamente o olhar.

FLOR: — Eu tenho que ir.

ANTONIE: — Espere…

Mas Flor já estava se afastando.

Paula virou-se por um instante para pegar o cachecol que havia deixado sobre o banco próximo à entrada do restaurante.

Antonie olhou para Flor.

Sem pensar muito, tirou um cartão do bolso do sobretudo.

Caminhou alguns passos atrás dele.

ANTONIE: — Flor!

O jovem parou e virou-se.

Antonie estendeu o cartão.

ANTONIE: — Me ligue.

Flor olhou para o cartão.

Depois para Antonie.

FLOR: — Eu…

Antonie manteve o cartão estendido.

ANTONIE: — Se quiser conversar.

Flor pegou o cartão por educação.

FLOR: — Está bem.

Ele guardou o cartão no bolso e seguiu seu caminho.

Antonie voltou para perto de Paula.

🍽️ O jantar

Paula ajeitou o cachecol ao redor do pescoço.

PAULA: — Podemos entrar?

ANTONIE: — Claro.

Os dois entraram no restaurante.

O ambiente era elegante, com mesas cobertas por toalhas brancas, iluminação suave e música ambiente.

Um garçom os conduziu até uma mesa.

GARÇOM: — Boa noite. Sua mesa está preparada.

PAULA: — Obrigada.

Eles se sentaram.

Paula observou Antonie.

Ele parecia distraído.

PAULA: — Você está pensando em alguma coisa?

Antonie demorou alguns segundos para responder.

ANTONIE: — Não. Só estou cansado.

Paula não pareceu totalmente convencida.

Enquanto isso, Flor caminhava sozinho pelas ruas.

🗑️ O cartão

Flor chegou a uma esquina.

Colocou a mão no bolso e encontrou o cartão de Antonie.

Parou.

Retirou-o.

Leu o nome impresso.

Não sabia quem aquele homem realmente era.

Para Flor, ele era apenas um estranho muito elegante que havia acabado de convidá-lo para jantar enquanto sua companheira estava esperando por ele.

Flor fez uma expressão de incredulidade.

FLOR: — Casado e me chamando para sair?

Ele olhou novamente para o cartão.

FLOR: — Nem pensar.

Flor caminhou até uma lixeira.

Jogou o cartão dentro dela.

Depois ajeitou o casaco e continuou andando.

FLOR: — Tenho problemas suficientes.

Ele seguiu em direção à pensão sem olhar para trás.

Flor não fazia ideia de que acabara de jogar fora um cartão que pertencia a um dos homens mais poderosos de Paris.

E Antonie, sentado naquele restaurante, também não fazia ideia de que o jovem que havia despertado sua curiosidade já havia decidido esquecê-lo.

Pelo menos por enquanto.

Comentários