
Capítulo 2
MEU AMOR EM PARIS
Paris, 1984 — 6h30 da manhã
O despertador mecânico tocou no pequeno quarto da pensão.
TRIM! TRIM! TRIM!
Flor abriu os olhos lentamente.
Por alguns segundos, ficou olhando para o teto, tentando lembrar onde estava. Então ouviu o movimento das pessoas na rua e se lembrou.
Paris.
Ele havia chegado à capital para começar uma vida nova.
Flor se levantou, arrumou a cama e abriu o pequeno armário. Tinha poucas roupas. Escolheu uma camisa clara, uma calça escura e seu casaco mais apresentável.
Diante do pequeno espelho, penteou os cabelos e ajeitou a gola da camisa.
Sua aparência era delicada e angelical, mas naquele momento seus olhos demonstravam preocupação.
Ele precisava encontrar trabalho.
E precisava encontrar rápido.
Flor colocou alguns francos no bolso e guardou seu caderno com os endereços dos anúncios de emprego.
Antes de sair, pegou a fotografia da família que estava sobre a mesa.
FLOR: — Eu vou conseguir. Hoje vai ser diferente.
Guardou a fotografia com cuidado e saiu.
☕ O café da manhã
No andar de baixo, alguns hóspedes tomavam café.
Madame Celine estava atrás do balcão organizando algumas contas.
MADAME CELINE: — Bom dia, Flor.
FLOR: — Bom dia, Madame Celine.
Ela colocou uma xícara sobre o balcão.
MADAME CELINE: — Vai procurar trabalho novamente?
Flor assentiu.
FLOR: — Vou passar pelos endereços que encontrei ontem.
MADAME CELINE: — Espero que tenha sorte.
FLOR: — Eu também.
Ele agradeceu e saiu.
Na rua, Paris já estava acordada.
As bancas de jornais estavam abertas. Trabalhadores caminhavam rapidamente pelas calçadas, alguns segurando jornais dobrados debaixo do braço.
Flor comprou uma edição do jornal e começou a andar.
📰 Primeiro anúncio
O primeiro endereço era uma pequena padaria.
Flor entrou cuidadosamente.
O cheiro de pão recém-assado tomou conta do ambiente.
Atrás do balcão, uma senhora organizava alguns produtos.
FLOR: — Bom dia. Vi no jornal que estão procurando um funcionário.
A mulher olhou para ele.
MADAME ROSE: — Você tem experiência?
Flor hesitou.
FLOR: — Tenho experiência ajudando minha família. Também sei atender pessoas e organizar as coisas.
Madame Rose ficou pensativa.
MADAME ROSE: — Estamos procurando alguém que já tenha trabalhado em uma padaria.
Flor abaixou discretamente os olhos.
FLOR: — Entendo.
MADAME ROSE: — Sinto muito.
FLOR: — Tudo bem. Obrigado por me receber.
Flor saiu.
A porta se fechou atrás dele.
Ele respirou fundo.
FLOR: — Primeiro lugar.
Olhou para o caderno.
FLOR: — Ainda tenho muitos.
🧹 Segundo endereço
O segundo anúncio era de uma pequena empresa de limpeza.
Flor esperou alguns minutos até ser chamado para conversar.
Um homem de meia-idade examinou seu currículo.
MONSIEUR HENRI: — Você veio do interior?
FLOR: — Sim.
MONSIEUR HENRI: — Tem experiência profissional?
FLOR: — Não muita.
Henri devolveu o papel.
MONSIEUR HENRI: — Precisamos de alguém com experiência.
Flor tentou manter a calma.
FLOR: — Eu aprendo rápido.
O homem balançou a cabeça.
MONSIEUR HENRI: — Tenho certeza de que sim, mas não posso contratá-lo.
FLOR: — Entendo.
Ele saiu novamente.
Dessa vez, sentiu o desânimo pesar.
Sentou-se em um banco da praça e abriu o jornal.
Havia dezenas de anúncios.
Mas quase todos pediam experiência.
Ou referências.
Ou qualificações que ele não possuía.
🥪 Uma pequena pausa
Já passava do meio-dia.
Flor entrou em uma pequena lanchonete e comprou apenas um sanduíche simples.
Sentou-se perto da janela.
Enquanto comia, observava as pessoas.
Um grupo de estudantes conversava animadamente em uma mesa próxima.
Do lado de fora, um ônibus passou pela rua.
Flor abriu seu caderno.
Havia vários endereços riscados.
FLOR: — Não posso desistir.
Ele pegou o jornal novamente.
Encontrou outro anúncio.
FLOR: — Hotel…
Seus olhos se iluminaram.
O anúncio procurava funcionários para um hotel elegante no centro de Paris.
Flor anotou o endereço.
FLOR: — Vou tentar.
🏨 Mais uma porta
O hotel era muito diferente dos lugares que Flor havia visitado.
O prédio era elegante, com grandes portas de vidro, lustres visíveis no interior e funcionários usando uniformes impecáveis.
Flor parou diante da entrada.
Olhou para suas próprias roupas.
Por um instante, pensou em ir embora.
Mas respirou fundo.
FLOR: — Eu vim aqui procurar trabalho.
Entrou.
Na recepção, uma funcionária levantou os olhos.
CLARA: — Bom dia. Posso ajudá-lo?
FLOR: — Bom dia. Vim por causa do anúncio de emprego.
Clara pegou o currículo.
CLARA: — Você tem experiência em hotelaria?
FLOR: — Não, senhora.
CLARA: — Alguma experiência com recepção?
FLOR: — Também não.
Flor apertou as mãos.
FLOR: — Mas posso aprender.
Clara percebeu o nervosismo dele.
CLARA: — Deixe seu currículo. Se houver uma vaga adequada, entraremos em contato.
Flor sabia que aquela frase provavelmente significava que não havia nenhuma garantia.
Mesmo assim, sorriu educadamente.
FLOR: — Obrigado.
Ele deixou o currículo e saiu.
🌧️ A chuva
Quando Flor chegou à rua, começou a chover.
Ele abriu o casaco e tentou proteger o jornal.
A chuva aumentou rapidamente.
Flor caminhou pelas calçadas molhadas, segurando o caderno contra o peito.
Mais um dia.
Mais algumas portas fechadas.
Mas ainda havia esperança.
Ele parou diante de uma vitrine e viu seu reflexo.
Por um momento, lembrou-se de sua família.
FLOR: — Eu não posso voltar agora.
Continuou caminhando.
🌙 De volta à pensão
Já era noite quando Flor voltou.
Estava cansado, com os sapatos úmidos e poucas perspectivas.
Madame Celine estava no salão.
MADAME CELINE: — E então?
Flor colocou o caderno sobre a mesa.
FLOR: — Ainda não consegui.
Ela percebeu a expressão dele.
MADAME CELINE: — Quantos lugares você visitou?
FLOR: — Sete.
Madame Celine arregalou os olhos.
MADAME CELINE: — Sete?
FLOR: — Amanhã vou procurar mais.
Ela sorriu discretamente.
MADAME CELINE: — Você é persistente.
FLOR: — Preciso ser.
Flor subiu para o quarto.
Sentou-se na cama e tirou os sapatos.
Pegou a fotografia da família.
FLOR: — Hoje não deu certo.
Ele respirou fundo.
FLOR: — Mas amanhã eu tento novamente.
Colocou a fotografia sobre a mesa.
Do lado de fora, Paris continuava iluminada.
Flor ainda não sabia que o currículo que havia deixado naquele hotel chegaria às mãos do proprietário.
E o proprietário daquele hotel era justamente Antonie.