
Volume 4 - Capítulo 445
A Virtude do Demônio
Demorou algumas horas, mas Eiro finalmente conseguiu terminar a mistura. Era apenas um líquido vermelho escuro, quase preto. Era viscoso, e sua temperatura estava estranhamente acima do que deveria ser. Só estava abaixo do nível que causaria queimaduras na pele humana. Claro, o líquido poderia causar um leve desconforto ao ser aplicado, mas, no fim, seria algo que todos aguentariam lidar.
— Agora, acho que o que falta é reunir todos que tiveram os selos colocados em suas mentes. Precisamos destrancar todos ao mesmo tempo, ou pode não funcionar — explicou Eiro para Solomon, que acenou a cabeça um tanto nervoso.
— Entendo. Eu já chamei todos que você mencionou. Vamos liberar um pouco de espaço para que possamos fazer tudo aqui mesmo — sugeriu o Rei, e Eiro assentiu.
Ele começou a usar magia para limpar tudo o que podia e depois empurrou as messa para o lado antes de colocar cadeiras para todos se sentarem.
Não demorou muito para que todos estivessem aqui. As seis pessoas que foram afetadas pelos selos.
Solomon, Kristoph, o diretor da academia, um dos magos de segurança, Merlin, bem como a pessoa que criou a barreira ao redor da Academia. Essa foi a primeira vez que Eiro a encontrou e, para sua surpresa, não era completamente humana. Parecia uma Elfa, reconhecida pelo sistema como tal, com um pouco de sangue de monstro.
— Interessante… Bavet… — sussurrou Eiro para o Slime, que fundiu com seu corpo antes de todos chegarem. — Só para ter certeza, mas todos aqui foram afetados pelo selo?
— Sim. Parece que sim. E, por sorte, parece que são todos. O selo parece completo agora — explicou Bavet, então Eiro sorriu de satisfação.
Ele olhou para as pessoas na sua frente e bateu as palmas.
— Agora, por favor, tirem a roupa da parte superior do corpo — disse o Demônio, e todos olharam rapidamente para a Elfa que criou a barreira. Era uma mulher, então poderia haver um problema.
— Ah, não se preocupe, vocês terão que se sentar de costas um para os outros. O único que verá alguma coisa será eu, e eu realmente não me importo com tais assuntos — explicou Eiro com um sorriso. A mulher, surpreendentemente jovem, o encarava.
— E você espera que eu acredite nisso?
— Oh, sim, claro. Eu sou completamente assexual, não sinto a menor atração física por ninguém. E só senti verdadeira atração romântica por uma pessoa em toda minha vida. Então não precisa se preocupar — explicou Eiro. Um tanto hesitante, ela também concordou. Ela esperou que os outros se sentassem primeiro e então se despiu e se sentou.
Eiro estalou os dedos da mão esquerda e ficou no centro do círculo formado pelas seis pessoas. Porém já foi capaz de sentir que algo estava estranho.
Embora não tivesse certeza, até que tentou interagir com o caos ao redor dele, tentando entender o que estava acontecendo, e foi quando percebeu.
Havia um fluxo de caos entre Merlin e essa mulher. Era uma conexão profunda, mas não do tipo de que amantes normalmente tinham. Era um pouco diferente. Bem, não que isso importasse para ele, só queria terminar com isso para descobrir exatamente o que aconteceu com a barreira e ajudar Solomon a se lembrar de tudo que ocorreu.
No entanto, Eiro fez outra coisa primeiro. Algo que sentiu que precisava fazer.
— Aliás, tenho algumas perguntas para fazer a vocês. Perguntas que preciso que sejam respondidas com sinceridade — explicou Eiro. — Todas serão relacionadas ao incidente do ano passado, no qual a barreira parou de funcionar, permitindo que alguém que se acreditava ser um professor causasse problemas na Academia.
— O quê? Do que isso se trata? — questionou confuso o mago de segurança. — Quem é você para fazer tais perguntas?
Eiro revirou os olhos em resposta.
— Eu sou o único homem que atualmente tem chance de descobrir exatamente o que aconteceu sem ser suspeito de ter causado a situação. Aliás, Solomon também não é um suspeito, mas não tenho certeza se ele saberá muito sobre a situação — disse Eiro com um tom severo.
— Agora que estabelecemos isso… Todos vocês, digam-me exatamente do que consiste a barreira e como ela foi criada em suas palavras — disse Eiro.
— Solomon, por favor, você primeiro. Enquanto isso, começarei o processe de destrancar os selos. Vai demorar um pouco de qualquer forma, então não vamos desperdiçar tempo.
Todos concordaram, e Solomon começou a explicar o que entendia da barreira.
— A barreira é algo criado através de círculos mágicos finamente ajustados, colocados no núcleo sob o centro da Academia. Peço desculpas, não sei muito sobre magia em si, então meu conhecimento termina aí — comentou Solomon e, embora fosse uma mentira óbvia, o Demônio compreendia por que ele disse isso. Eiro estava tentando investigar os outros, então ele tentou responder o mínimo que podia. O único motivo para ter respondido em primeiro lugar era para que os outros não tivessem escolha a não ser responder. Afinal, se o Rei respondeu honestamente, então todos os outros também podiam.
Um após o outro, todos deram suas respostas. No entanto, só houve duas respostas que importaram para Eiro: a de Merlin e a da mulher. Como esperado, eles tinham um alto entendimento da barreira, explicando em muitos detalhes. Talvez um pouco demais, mas não importava. De qualquer forma, depois de ouvir suas respostas, Eiro prosseguiu.
— Quem causou o incidente? — perguntou. Como pensava, o consenso era que tinha sido o professor, embora ele tenha percebido que tanto Merlin quanto a mulher estavam escondendo algo.
— Como a vigilância da barreira foi interrompida? — questionou o Demônio. Solomon, o diretor e Kristoph não sabiam o que dizer, já que realmente não faziam ideia, mas os outros três entendiam o funcionamento da barreira bem o suficiente.
— Há só duas possibilidades. Ou o suprimento de mana para as inscrições no núcleo foi interrompido, ou alguém manipulou deliberadamente a barreira para causar uma perturbação. A primeira opção é muito mais plausível, já que o nível de habilidade necessário para a última é muito alto. Sei que você fez isso com a barreira colocada ao redor da arena aquela vez, Barão Daemonherz, mas esta é muito mais complexa — explicou o mago de segurança.
Essa era mais ou menos a reposta que Eiro esperava. Então, vieram as respostas dos outros dois.
— É verdade que o nível de habilidade necessário é imenso, mas isso não significa que seja impossível. Se foi possível criar tal barreira, é possível manipulá-la. Simples assim. Certamente, aquele professor maligno escondeu suas verdadeiras habilidades e conseguiu manipular de alguma forma a barreira, permitindo que fizesse o que quisesse — sugeriu Merlin, e a criadora da barreira parecia concordar com essa teoria, sem adicionar nada.
— Hum, certo. Acho que isso significa que só tenho mais uma pergunta — disse Eiro. — Quem é o verdadeiro criador da barreira?
De imediato, Eiro sentiu os batimentos de Merlin e da mulher Elfa acelerarem. Estava claro qual era a resposta. Quatro das seis pessoas responderam com o nome da mulher, Gabria, e realmente achavam isso. Os outros dois disseram o nome Gabria e mentiam. Esses dois eram a própria Gabria e Merlin. Era óbvio o que aconteceu, pelo menos para Eiro, embora ainda não soubesse a razão. Entretanto, descobriria em breve.
Eiro permaneceu em silêncio e começou a acelerar o processo de pintar todos os padrões intrincados no chão. Precisava que Bavet canalizasse a magia através dessa ‘pintura’ o tempo todo, então ele não poderia usar magia para isso, o que significava que demorou muito mais. Porém ainda foi bastante rápido, já que era Eiro quem desenhava tudo nessas cinco pessoas para completar o círculo de liberação.
— Muito bem. Agora, todos vocês estiquem seus braços e segurem firmemente as mãos de quem está do seu lado, para criar um círculo completo entre vocês — instruiu Eiro. Todos rapidamente fizeram como pedido, enquanto Eiro terminava o círculo ao pintar padrões nos braços deles.
Então, por um instante, Eiro encerrou sua fusão com Bavet para a última parte. Afinal, o Slime tinha que terminar tudo. Ele esticou o corpo e tocou na nuca de todos envolvidos, criando outro padrão no centro, como se transformasse seu corpo na forma de um círculo mágico.
Para isso, Bavet também proferiu um encantamento, embora usando a voz de Eiro, e a magia das artes de selamento fluiu pela tinta vermelha escura que cobria o corpo dos envolvidos. A tinta lentamente se desprendeu de seus corpos enquanto Eiro sentia algo mudando diretamente dentro da mente de cada uma das seis pessoas. Ele se fundiu com Bavet mais uma vez, preparando-se para fazer mais perguntas a todos.
Principalmente essa impostora, Gabria, que fingia ser a criadora da barreira, bem como Merlin, o verdadeiro criador da barreira.
…