A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 446

A Virtude do Demônio

Eiro cruzou os braços, reflexivo, enquanto olhava para as pessoas que passavam pelo processo mental de destrancar o selo. Parecia que estavam com um pouco de dor, mas do tipo que sumiria depois de alguns minutos.

— Por ora, todos vocês podem se vestir de novo — disse Eiro a eles. — Porém tenho mais algumas perguntas para fazer a vocês. E as farei individualmente para garantir.

— Certo… então — gemeu Solomon, e Eiro acenou a cabeça.

— Certo, acho que você é o mais indicado para conversar primeiro, Solomon.

— Claro… — respondeu o Rei, enquanto Eiro retirava o Ás de Copas. Usou o líquido para produzir um pequeno subespaço na sala em que poderia conversar com todos sem ter a chance de alguém escutar a conversa.

Assim, Eiro e Solomon entraram no subespaço, antes que o Demônio olhasse fundo nos olhos deste. Colocou as mãos na cabeça de Solomon para garantir que o selo foi removido de forma adequada, e Bavet logo sussurrou na orelha de Eiro.

— Parece que tudo se foi. Ele deve ser capaz de se lembrar — explicou o Slime. Eiro sorriu um pouco e retirou as mãos.

— Bom. Você está bem, Solomon? Acha que consegue se lembrar?

— Sim… Sim, consigo me lembrar… — murmurou Solomon, com raiva crescendo dentro dele. — É verdade que aquele homem não era suspeito… Pelo menos não a ponto de matar tentas pessoas dentro da Academia, mas ele não era o homem perfeitamente gentil que eu pensava que era até alguns instantes. Nunca chegamos a tomar medidas disciplinares, mas houve vezes em que ele teve que ser repreendendo pela forma como tratava seus alunos.

Eiro assentiu lentamente enquanto fazia algumas anotações mentais.

— Interessante. Agora, há mais alguma informação sobre o ataque em si que você possa me dizer?

—Sim… eu estava lá naquele dia. E foi um grupo que invadiu a Academia, não apenas aquele homem. Surpreendente, no entanto, eles não pareciam estar tentando me matar, como se…. estivessem procurando por algo, e mataram os estudantes apenas como uma distração. É verdade que Bernard parecia ter enlouquecido, mas era mais como se… ele finalmente tivesse liberado sua verdadeira natureza depois de suprimi-la por um longo tempo.

Acho que… alguns dos que invadiram a Academia eram monstros humanoides? Me lembro de uma criatura… parada lá, simplesmente observando tudo.

— Como ela parecia? — perguntou Eiro, e Solomon tentou se recordar.

— Era uma… uma Lâmia, eu acho? São raras por aqui, então acho que deveria ser muito poderosa…

— Lâmia? Com escamas esmeraldas cintilantes e um grande chifre no centro da testa? — questionou Eiro, e o Rei o encarou, surpreso.

— Sim, acho que sim… Como você sabia?

— Isso… — Eiro estava confuso. Até certo ponto, fazia sentido, mas parecia um massacre muito menor para esse tipo de criatura. — Se é a Lâmina que estou pensando, então era… <O Mago>, um Monstro Nobre.

O corpo todo de Solomon estremeceu em choque, incerto do que Eiro estava dizendo.

— Um Nobre? Por que haveria um Nobre aqui?!

— Bem, você disse que eles procuravam alguma coisa, certo? Talvez fosse algo que ele quisesse… Por sorte, ele não soltou <A Morte>…

— Os corpos de alguns estudantes nunca foram encontrados… Pensamos que eles tivessem sido esmagados pelos poderes de Bernard até ficarem irreconhecíveis, mas talvez…

— Talvez tenham sido sequestrados? — perguntou Eiro, e Solomon acenou lentamente a cabeça.

— É uma possibilidade, sim. <O Mago> é conhecido por fazer esse tipo de coisa… Mas me pergunto, por que foi necessário selar suas memórias de tudo isso?

— Eu não sei, só… Estou feliz que Charles esteja vivo… — disse Solomon com uma expressão nervosa. Eiro compreendia seus pensamentos.

Sobreviver a um encontro com um Nobre era algo incrivelmente raro.

— Acho que isso é suficiente, farei algumas perguntas aos outros. Outras coisas podem surgir, então você terá que perguntar sobre elas depois — disse o Demônio, e o Rei assentiu.

— Entendo, obrigado. Voltarei para o meu escritório por agora, para me recompor um pouco — sugeriu Solomon. Eiro o levou até a porta e se despediu ele, antes de se virar para os outros cinco.

— Certo. Agora, você, vamos lá. Preciso que me diga mais sobre as circunstâncias da barreira. Estou muito curioso para saber por que suas memórias também foram seladas — comentou o Diabrete, mas, o homem, o mago de segurança que vinha vigiando a barreira há algum tempo, já parecia muito nervoso em falar com Eiro. Hesitante, aproximou-se da entrada do subespaço, mas, antes de entrar, virou-se e tentou correr.

Claro, Eiro conseguiu alcançá-lo em um instante e o segurou pelo pescoço.

— Ah… Como eu pensava. Não fazia sentido que as memórias de uma pessoa aleatória tivessem sido seladas, mas eu entendo. Foi você quem enfraqueceu a barreira, certo?

— P-Por favor, você precisa acreditar em mim! Eu não tinha escolha! Eles iriam me matar!

— E em vez disso, vários estudantes foram mortos. Você está feliz consigo mesmo? — questionou Eiro com um olhar penetrante, e o homem balançou a cabeça.

— Como eu poderia? Me sinto horrível! Mas eu não tinha escolha, minha esposa, ela… tínhamos acabado de descobrir que ela estava grávida, e eu não poderia deixá-la sozinha!

Eiro cerrou os dentes e jogou o mago no chão.

— Quem te obrigou? Foi Bernard?

— S-Sim, claro! Ele era um homem aterrorizante, sério! — exclamou o mago, encarando Eiro. Mas o Demônio já estava enojado desse homem e o chutou para o outro lado da sala.

— Que repugnante. Kristoph, chame alguns guardas e mande prendê-lo, por favor. Então, você. Venha comigo — disse Eiro, falando com o diretor. Ele também parecia nervoso, muito provavelmente devido às memórias que recuperou através do processo. Eiro notou que os guardas levaram o mago de segurança para longe e depois começou a falar com o diretor sobre o que ele sabia.

Surpreendentemente, ele não parecia saber muito, apenas coisas semelhantes ao que Solomon já havia lhe dito. O diretor em si era covarde e fraco, então ele parecia ter se escondido durante a maior parte do ataque. Era repugnante para Eiro o fato de que o diretor, o homem que supostamente deveria proteger os alunos da Academia, estar se escondendo e esperando o massacre terminar. Mas o diretor parecia estar ainda mais enojado de si mesmo, então Eiro não o repreendeu muito por enquanto.

Após o diretor, Eiro falou com Kristoph.

— Então, que tipo de coisas você consegue se lembrar?

— Ah… bem, eu acabei lutando contra alguns dos intrusos. Matei um deles, aparentemente, mas é provável que o corpo tenha sido levado pelos intrusos.

Havia uma Lâmia lá, e eu tentei atacá-la, mas ela simplesmente desapareceu quando eu me aproximei. Então, eu me concentrei nos outros. Quando eu vi Bernard pronto para a batalha, a princípio, pensei que ele fosse me ajudar, mas… então ele começou a atacar os alunos em vez dos intrusos — explicou Kristoph. — Oh, e você disse que nossas memórias foram seladas de uma só vez, certo? Bem, eu me lembro exatamente quando elas foram seladas, mas eu não estava perto dos outros naquele momento.

— Huh, sério? É, parece certo. Foi <O Mago>, afinal, então não é surpresa que ele tenha conseguido conjurar um feitiço em múltiplos alvos à distância

— comentou Eiro, e Kristoph arregalou os olhos, encarando o Diabrete.

— <O Mago>? Do que você está falando? O… Nobre?

— Sim, é claro que estou falando do Nobre. Ainda não sei porquê ele estava lá, aparentemente tentava roubar alguma coisa. É provável que tenham causado todo aquele massacre como uma distração, ou uma ferramenta para conseguirem o que queriam. Ou ambos, ou algo completamente diferente.

— Você já sabe o que eles roubaram? — perguntou Kristoph. — Tudo estava concentrado no prédio de especialização em magia, assim como na biblioteca…

— Talvez estivessem procurando por algum tipo e artefato ou… tomo, talvez? Terei que pergunta para Merlin, então — disse o Demônio, e Kristoph acenou a cabeça.

— Sim, claro.

Kristoph deixou o subespaço e, agora, restavam apenas Merlin e Gabria. No entanto, Eiro queria questioná-los juntos, pelo menos até certo ponto.

Dispensou o diretor e Kristoph por enquanto, para que eles estivessem mais dispostos a responder.

— Okay então. Primeiro, quero perguntou por que todos acham que foi Gabria quem criou a barreira, quando claramente foi Merlin? — perguntou Eiro, e ambos ficaram em choque a ouvirem o que Eiro disse.

— C-Como você-

— Tenho capacidades dedutivas incríveis, Gabria. Contem-me tudo. Todos os detalhes sobre o relacionamento de vocês, a barreira, assim como o motivo pelo qual o Nobre <O Mago> estava lá. Havia algo que ele queria roubar? Por que ele saiu tão facilmente? Por que suas memórias foram seladas em primeiro lugar? E por que apenas você seis? Eu quero saber tudo que sabem em relação ao incidente… — proclamou Eiro com um olhar profundo.

— E é melhor vocês não mentirem para mim, eu consigo dizer se estão.

…

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