A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 443

A Virtude do Demônio

Eiro pousou no parapeito de uma das janelas do segundo andar e continuou pelo corredor da mansão. Era muito mais rápido do que entrar pela porta da frente, especialmente quando seu objetivo era o quarto de Leon e Avalin.

As caixas ainda flutuavam atrás de Eiro, e tudo estava perfeitamente intacto. Ele se certificou de manipular as correntes de ar ao redor das caixas enquanto voava de volta.

O Demônio rapidamente abriu a porta do quarto das crianças. Avalin se levantou com um pulo quando viu Eiro e correu até ele, derrubando as canetas que estava usando para desenhar.

— Yaay! — exclamou ela. Mas claro, não era uma exclamação de felicidade por ver Eiro, e sim por ver as caixas ao lado dele. Eiro revirou os olhos e colocou as caixas na mesa no outro lado do quarto, abrindo-as.

Ele assobiou uma pequena melodia.

— Traga alguns pratos para nós.

Alguns minutos depois, a porta foi aberta e um dos servos monstros carregava quatro pratos. Ele os colocou na mesa e pediu licença. Eiro então colocou alguns cookies, um pouco de bolo e alguns macarons frescos no prato.

— Agora, coma devagar, tudo bem? — disse o Demônio, antes que Avalin praticamente arrancasse o prato de suas mãos. Ela correu até sua mesa do tamanho de uma criança e começou a devorar os doces.

— Você quer um pouco de bolo também, Armodeus? — perguntou Eiro, e o Anão Ancião virou-se lentamente.

— Ah, depois, talvez. Por ora… você realmente acha que o garoto está bem? Ele não tem feito nada além de dormir nas últimas horas…

O Diabrete se aproximou da cama de Leon e se sentou nela, acariciando a perna do filho através do cobertor.

— Sim, não se preocupe. Ele provavelmente está bem. Leon sempre foi um dorminhoco. Naquela época, era por causa das marcas usadas para selas suas habilidades e, agora, é por conta das mudanças pelas quais ele está passando.

— Hm? Mudanças…? Ah, certo, Gondos disse algo sobre pré-púbere? — questionou Armodeus. — O que exatamente isso significa?

— Bem… basicamente, quando um Homem-Besta ‘amadurece’, eles ganham identificadores físicos ligados ao seu guardião espiritual. Em casos em que o fluxo de mana de uma criança é alterado de modo repentino e drástico, isso pode fazer com que esse evento ocorra antes mesmo da puberdade, que é quando normalmente deveria acontecer. É isso que está acontecendo com Leon agora. Meu palpite é que aconteceu por causa de suas habilidades terem sido liberadas.

— Ah… Entendo… Então isso significa que o garoto também vai crescer muito de repente? Basicamente pular alguns anos? — perguntou Armodeus, mas Eiro balançou a cabeça.

— Não, não é assim. Nos livros que li, é dito que ele vai envelhecer e amadurecer fisicamente de forma normal, como aconteceria de qualquer forma, ele simplesmente já tem… você sabe, as características que o definem. Durante sua puberdade, daqui alguns anos, ele pode ficar mais peludo, mas é só isso. Não precisa se preocupar com isso… na maior parte.

O Anão Ancião olhou para Eiro com uma expressão preocupada. Leon estava dormindo profundamente, então não tinham problemas em sussurrar sobre isso aqui, portanto, o Demônio explicou.

— O processo de maturidade não é fácil para os Homens-Besta em primeiro lugar. Seus corpos mudam de formas rapidamente. No caso de Leon, como parece que está crescendo uma cauda, ele está literalmente ganhando novos ossos. Ele também vai ter dificuldade em enxergar já que seus olhos também estão mudando. Se ele for de uma tribo carnívora, seus dentes podem começar a doer em breve. Esse tipo de coisa — explicou. — Então, no fim do dia, nada com que se preocupar, mas ainda precisamos cuidar de Leon um pouco mais do que o normal.

— Tudo bem, se você diz, rapaz… Mas sério, pensar que esse garoto é um Homem-Besta… Ele parece igual um humano, não parece? Se ele pudesse permanecer assim por mais empo, a vida poderia ser mais fácil para ele — suspirou Armodeus, e Eiro rapidamente se virou para ele.

— O que você quer dizer?

— Hm? Oh, é que… na maioria dos lugares, simplesmente por causa dessa ‘maturidade’ como você chama, muitos veem Homens-Besta como…

‘Espécies de Monstros’. Não verdadeiros monstros, mas algo próximo disso — comentou Armodeus. — Então, devido a isso, eles não são particularmente bem-vistos na maioria dos lugares. Claro, em Skyhart, essa discriminação é proibida por lei, mas nos países vizinhos e aliados… Não é assim.

— Bem, pelo menos ele terá a mim e ao meu nome para protegê-lo de qualquer coisa que possa acontecer com ele — resmungou baixinho o Demônio, ainda se sentindo muito enojado e furioso com a ideia de Leon ser maltratado de tal forma simplesmente porque não era igual aos outros. Embora…

— Uma… Uma das minhas primeiras memórias, é algo de que não me orgulho muito, mas é algo que se adequa. Eu entendo que é da natureza das pessoas, e até dos monstros, rejeitar aqueles que são diferentes, mas eu pensei que aqueles com mais inteligência seriam um pouco diferentes do meu eu Diabrete Inferior. Na horda, quando eu ainda fazia parte dela, o Diabrete que sempre andava na minha frente era o mais forte de todos. Era sempre ele quem acabava matando mais monstros no nosso grupo, então ele foi o primeiro a evoluir. Eu vi que estava crescendo algo em suas costas, muito provavelmente algum tipo de asa rudimentar, e o ataquei por causa disso, porque ele era diferente — explicou Armodeus, que escutava em silêncio.

— Mas antes que me julgue, isso foi antes de eu sequer ter um ponto de atributo em… bem, qualquer coisa, na verdade. Eu não tinha um único ponto em Inteligência, Sabedoria, Percepção… ou qualquer coisa. Eu bati naquele Diabrete repetidamente e não acho que tenha causado um único ponto de dano a ele — o Demônio se inclinou para trás, certificando-se de não incomodar Leon enquanto ele dormia. — Estatisticamente, as pessoas tinham literalmente infinitamente mais inteligência do que eu naquela época, e eles ainda estão agindo como eu agi? Isso é… estranho.

— Claro, isso não é sobre lógica. É sobre medo. O medo que as pessoas têm enraizado nelas, pensando que até mesmo o monstro mais fraco pudesse massacrar uma cidade inteira. O medo do desconhecido, que todos nós possuímos… Você não pode me dizer que nunca se sentiu assustado ao encarar o abismo profundo, sem saber o que veria a seguir. Geração após geração, esses medos são passados de pais para filhos e se intensificam. Logo, o medo se torna raiva, e raiva se torna ódio. E esse ódio… se torna normal — explicou Armodeus.

— É algo que também me enoja, confie em mim. Até eu passei por isso várias vezes enquanto viajava pelo continente. Em pequenos assentamentos onde talvez nunca tivessem ouvido falar de um Anão, eu também era visto como uma aberração. Talvez eu ainda tenha cicatrizes daquela época. Claro, agora posso me passar por um humano corpulento por causa da minha altura, mas, naquela época, antes de eu ascender e me tornar um Anão Ancião, eu talvez tivesse metade da altura que tenho agora. Um homem adulto com barba espessa e voz trovejante, mais forte do que a maioria dos guerreiros com quem me deparei. Tudo isso, com a altura de uma criança humana.

Eiro virou a cabeça para Leon, e suspirou fundo.

— Acho que foi bom termos encontrado Solomon na sua loja naquela época… Nunca entrei em uma igreja por vontade própria, mas talvez devesse oferecer uma oração à Deusa do Destino às vezes.

— Haha, sim, talvez você devesse, rapaz — riu Armodeus. — Os Deuses são inconstantes em relação a quem favorecem, mas parece que esse está de olho em você há algum tempo.

— O que seria bastante irônico, não seria?

— Quem sabe, talvez o humano de quem sua alma foi retirada foi um Sacerdote da Deusa do Destino — riu Armodeus junto de Eiro. Os dois permaneceram em silêncio por um tempo, enquanto o Diabrete continuava a observar Leon dormindo mais um pouco.

Alguns minutos depois, o Anão Ancião se levantou da cadeira que havia colocado ao lado da cama e riu um pouco.

— Acho que agora estou pronto para uma fatia de bolo, rapaz.

Eiro sorriu e se levantou também.

— Já está saindo — respondeu o Demônio. também pegou uma fatia para si e depois continuo a conversar com Armodeus enquanto comiam bolo e chá.

Eiro entendeu por que nobres humanos gostavam de fazer isso o tempo todo.

Mas logo a conversa foi interrompida, pois o Diabrete percebeu alguém se aproximando da mansão a cavalo.

— Desculpa, mas preciso verificar algo rapidamente — disse Eiro, colocando a xícara de chá na mesa. Rapidamente pegou Bavet, que estava deitado no chão em sua forma de gato, e pressionou o núcleo do Slime em seu peito. O slime cobriu todo seu corpo em um instante.

— Eh, o que está acontecendo? — questionou Bavet, levemente desorientado.

Eiro saiu do quarto, correu até uma janela aberta no fim do corredor e simplesmente pulou para fora. Com algumas batidas de asas, acelerou o suficiente para que conseguisse pular até o protão da frente da mansão.

Ali, rapidamente deteve o mensageiro vindo do castelo real.

…

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