
Volume 4 - Capítulo 442
A Virtude do Demônio
Eiro estava parado na loja de doces, tendo acabado de vomitar no barril no canto da sala. Seus olhos e os olhos da jovem com quem estava falando estavam fixos um no outro, enquanto ela tentava entender o que ele havia dito.
— Mas você- o que você quer dizer?! — exclamou ela, irritada. — Como você ousa simplesmente- — a jovem parou no meio da frase e pressionou a mão no peito, segurando a gola do vestido
Com uma postura calma fingida, falou.
— O que você acabou de dizer é bastante insultante, Lorde Daemonherz.
— Oh, bom, parece que você entendeu o que eu queria dizer então — respondeu Eiro sem rodeios. Ele olhou para a funcionário que o encarava e o barril com nervosismo, antes que o Demônio colocasse a mão no saco de couro que tinha no quadril. Retirou um maço de moedas de ouro, retirou uma e a pressionou na mão da funcionária. — Isso é pela bagunça que eu fiz. Não se preocupe, também darei uma gorjeta generosa pelos doces que você está preparando para mim.
A funcionária assentiu nervosa, e um jovem, aparentemente um aprendiz desta loja, foi encarregado de jogar o barril fora e limpar os resquícios. Assim que ele retornou, Eiro também lhe deu uma gorjeta pelo trabalho.
O Demônio voltou para sua mesa e passou pela jovem que ainda tentava compreender o que Eiro havia dito a ela. Enquanto isso, o Diabrete sussurrou algo para si mesmo, ou melhor, para o slime que atualmente era parte de si.
— Eu não sabia que você podia fazer algo assim, mas obrigado.
— Hmph, eu também não sou um slime de um só truque, Eiro. Há muito mais que eu posso fazer que você provavelmente não está ciente.
— Então, me mostre mais disso depois, tudo bem? — sussurrou Eiro, enquanto se sentava na mesa, como se nada tivesse acontecido. A jovem se aproximou de novo, mas Eiro levantou a cabeça antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. — Acho que terminamos por aqui. Não quero falar mais com uma criatura repugnante como você, então por favor saia da minha frente imediatamente.
O rosto da jovem ficou vermelho, mas ela conseguiu se conter.
— Espero que se lembre que minha família é de posição mais elevada que a sua. Somos Viscondes, enquanto você não é nada além de um Barão. Eu tentei ser legal com você devido às suas conquistas recentes, mas está claro que você não deseja se tornar parte dessa sociedade, ao considerar a forma como age com alguém que não lhe fez qualquer mal.
Eiro sorriu casualmente enquanto olhava para a jovem.
— Acho que você também não entende tão bem o sistema de nobreza. Você não é uma viscondessa de forma alguma. Apenas seu pai possui um título de nobreza, e quer saber como ele conseguiu isso? Ele só teve sorte de ser o primogênito da sua família. Ele não trabalhou para estar onde está e, pelo que estou ciente, delega todas as responsabilidades que possui para outras pessoas, para que possa passar o tempo em casas de veraneio em nossos países aliados. Não é verdade?
A jovem não sabia o que dizer, mas Eiro não se importava.
— Agora, antes que continue pensando que outras pessoas são inferiores a você, tente conversar com um Homem-besta. Por coincidência, há um pesquisador muito renomado na Academia. Ele é um Homem-Besta da tribo Macaco. Escute, o motivo pelo qual não existem tantos Homens-Besta aqui é porque a maioria deles estão acostumados a climas tropicais, quentes e secos. Somos um país setentrional. Não é porque eles são uma raça de escravos. Aliás, não existe raça que seja inerentemente destinada à escravidão. Então vá embora e nunca fale comigo de novo. Entendido?
Eiro sabia que havia deixado seus pensamentos claros para ela. Sabia que ela o entendia. E ambos sabiam que essa era a última vez que falariam voluntariamente um com o outro. A jovem pegou sua bolsa e saiu da loja, pedindo desculpas timidamente às funcionárias, agindo como se Eiro fosse o errado e ela simplesmente tivesse que se comportar daquela forma pois estava sendo aterrorizada por ele.
Do ponto de vista de Eiro, isso era absolutamente ridículo, mas entendia que da perspectiva dela, ele estava errado. Embora ainda não gostasse disso.
Pelo resto do seu tempo na loja, todos ficaram em silêncio. Um silêncio assustador, já que não queriam irritá-lo depois de ver como ele falou com a jovem.
Isto é, até que uma das funcionárias se aproximou de Eiro com algumas caixas em mãos.
— L-Lorde Daemonherz, aqui está. Espero que tudo seja do seu agrado. Se desejar podemos enviar a conta para sua propriedade, caso não queira lidar com isso agora…
— Não, está tudo bem. Entregarei o dinheiro agora mesmo — respondeu. Ele olhou para o pedaço de papel preso na caixa de cima e rapidamente pegou algumas moedas. Entregou a funcionária o dinheiro e ainda deu uma gorjeta generosa, devido às circunstâncias.
O Demônio estalou os dedos, e Gondos apareceu ao seu lado. O Golem criou algumas rochas, cujo Eiro posicionou perfeitamente ao redor das caixas com os doces, e depois começou a manipulá-las para que não precisasse carregá-las. Em vez disso, ele simplesmente as fez flutuar enquanto saía da loja.
— Tenha um ótimo dia — disse Eiro com um sorriso antes de sair e seguir pelas ruas. Claro, tudo isso enquanto chamava ainda mais atenção do que antes, considerando as caixas flutuando atrás dele. Mas ele não se importou, saindo do distrito urbano e se escondendo junto a caixa usando o Ás de Copas para que pudesse voar de volta para casa.
Ainda era cedo no dia, mal chegava ao meio-dia, então Eiro provavelmente podia ir com calma e não se preocupar muito coma s coisas, especialmente porque era Armodeus quem estava cuidando de Leon e Avalin.
Em vez disso, Eiro teve uma conversa apropriada com Bavet.
— Agora, diga-me, como você conseguiu me fazer… sentir daquela forma? — perguntou o Demônio, curioso, e Bavet respondeu com um bufo.
— O quê, você ainda não descobriu? Cara, algumas vezes me pergunto se você realmente não é um idiota disfarçado…
— Só me diga, slime, antes que eu te transforme em fertilizantes para minhas árvores — respondeu Eiro à criatura fundida com ele, embora Bavet esperasse esse tipo de ameaça.
— É? Tem certeza disso? Sabe que sou eu quem detém o poder agora! — sussurrou Bavet na orelha de Eiro, e o Diabrete revirava os olhos enquanto colocava as mãos por baixo das roupas. Enterrou os dedos na carne e arrancou o núcleo de Bavet. Um instante depois, o slime que o compunha se reuniu ao redor da mão de Eiro, transformando-se em orbe de madeira para que Bavet pudesse se segurar.
— Oh? Tem certeza de que deveria fazer isso? Sabe que posso conjurar chamas de todas as partes do meu corpo, certo? — respondeu Eiro com um sorriso, e Bavet pareceu resmungar baixinho.
— Certo, certo… Bem, se você realmente quer saber, é meio básico. Sabe, nas artes de selamento, especialmente quando se trata de seres vivos, é necessário pacificá-los de alguma forma. Você possui outras formas de fazer isso, motivo pelo qual nunca senti a necessidade de te contar sobre isso…
Porém, através de padrões e cores que mudam e piscam, aromas específicos e frequências sonoras particulares, é possível acalmar a maioria dos seres vivos. No entanto, se não tomar cuidado, eles acabam ficando doentes e vomitando, ou pior, desmaiando. Esse tipo de coisa geralmente não funcionaria com você, mas considerando o quanto eu sei sobre o seu corpo e como ele reage às coisas agora, consegui ajustar isso para você — explicou o Slime, e Eiro ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Hu, é mesmo? E por que você fez isso? Você queria lutar contra mim ou algo do tipo? — perguntou Eiro, e Bavet zombou como se a ideia fosse ridícula.
— Certo, e por que eu faria isso? Não sou um idiota. Nem, eu fiz isso para ajudá-lo. Sei que você tem suas emoções sobre controle, mas ainda é sensível a algumas coisas. Agora mesmo, você quase atacou a filha do Visconde e, há algumas semanas, você esfaqueou a mão do filho do Duque. Já que eles disseram coisas relacionadas às suas crianças. Escute cara, você é forte para caralho, mas quando você está bravo, você… não é você. Você fica desleixado, você não se move como você, a maioria das suas técnicas se tornam inúteis. Imaginei que você precisaria de uma forma de se livrar da sua raiva imediatamente, se fosse necessário, especialmente porque você planeja lutar com aquele que te deu essa raiva em primeiro lugar — continuou explicando o Slime, e Eiro não pôde deixar de sorrir.
Afinal, Bavet não contou uma mentira sequer. Ele falava de coração. Bavet era parte da vida de Eiro agora, e ele confiava nele, mas não tinha plena consciência de quão próximos os dois haviam se tornado e o fato de Bavet sempre estar tentando encontrar formas de ajudá-lo realmente significava muito para Eiro.
— Obrigado. então, estarei contando com você — disse o Demônio, embora o corpo de Bavet tenha estremecido um pouco em resposta.
— Quer saber? Eu preferiria muito mais se você não precisasse depender de mim… Sabe, se você tivesse suas emoções sobre controle, porra, seu idiota…
— Oh? O que você disse, você está sentindo frio, Bavet? Ah, entendi, algumas chamas estão surgindo!
…