
Volume 4 - Capítulo 441
A Virtude do Demônio
Eiro caminhou pela cidade, atraindo a atenção das pessoas. Estava em seu disfarce ‘famoso’, afinal. E não era como se fosse impossível alguém ter esse tipo de aparência, mas era algo bastante raro.
Cabelos brilhante e da cor do arco íris, alta estatura e a aura que acompanhava o crescimento do poder de Eiro. A maioria das pessoas pelo menos olhou para Eiro, e muitas o encaravam o tempo todo enquanto ele atravessava as ruas. Claro, Eiro tentou seu melhor para ignorar isso, mas era difícil quando os sussurros sobre ele vinham de todos os lados para onde ele tentava desviar a atenção.
Porém, por sorte, Eiro logo chegou ao lugar que queria ir. No distrito cheio de lojas destinada apenas à nobreza, muitas das quais nem atenderiam clientes plebeus, mesmo que tivessem dinheiro suficiente, Eiro encontrou o lugar aonde queria ir. Era incrivelmente caro, mas era a loja favorita de Avalin, então ele tinha que lidar com o custo por enquanto.
O Demônio abriu a porta e entrou na loja de doces. De imediato, as mulheres e crianças presentes se voltaram para ele, que destoava bastante nesta loja.
No entanto, pelo menos as funcionárias agiram profissionalmente. Uma delas veio até Eiro e perguntou se ele precisava de alguma ajuda, e o Demônio assentiu.
— Sim, só me dê um segundo para eu dar uma olhada… — disse Eiro, olhando rapidamente para tudo que podia ser encontrado na loja. A funcionária acenou a cabeça.
— Claro, por favor, nos diga assim que tiver-
— Terminei — respondeu Eiro, estendendo a mão e retirando um pedaço de papel e uma pena de escrever da sua Tesouraria. O Diabrete escreveu uma lista no pedaço de papel e o entregou a ela.
— Reúna tudo isso, por favor — instruiu Eiro, enquanto a funcionária olhava para a lista um pouco surpresa.
— A-Ah, claro! Oh, mas… estamos sem macarons no momento. Alguém veio e comprou todos eles para uma festa do chá. Estamos fazendo mais agora mesmo, só vai demorar cerca de meia hora. Se não se importar de esperar…? — perguntou, e Eiro assentiu.
— Claro, meia hora está tudo bem. Enquanto isso, parece que vocês também servem chá? Poderia me servir uma xícara enquanto espero? — perguntou Eiro, e a funcionária assentiu e rapidamente o levou até uma mesa onde poderia se sentar enquanto esperava os macarons ficarem prontos.
— Aqui está. Agora, que tipo de chá você gostaria? — perguntou a funcionária, e Eiro não precisou pensar por muito tempo.
— Algum tipo de chá de ervas seria ótimo. Algo com um sabor forte —respondeu o Demônio.
— Certo! — Assim, ela saiu para preparar o chá. Enquanto isso, Eiro pegou um livro que queria continuar lendo. Era um que havia emprestado da biblioteca mais cedo, um que tinha informações particulares sobre as características físicas das diferentes tribos de Homens-Besta.
Após alguns minutos, o chá foi servido, então Eiro começou a beber enquanto lia casualmente. Isso também era agradável às vezes, e o livro era bastante interessante. Parecia que muito raramente, os Homens-Besta recebiam a habilidade de se transformar em seus espíritos guardiões. Essas habilidades também tinham diferentes alcances. Alguns poderiam assumir versões humanoides do espírito guardião, algo muito semelhante ao que os Metamorfos eram capazes de fazer, enquanto outros podiam se transformar na verdadeira versão desse espírito guardião, o que significa que seriam capazes de se transformar totalmente em bestas quando ativassem essa habilidade.
Certamente, era uma habilidade interessante… Eiro esperava que Leon a recebesse. Não apenas isso o tornaria bastante poderoso, permitindo que se defendesse e defendesse aos outros caso suas habilidades únicas se descontrolassem no futuro, sem precisar estudar combate diretamente, como também deixaria muito mais óbvio que tipo de Homem-besta Leon era… Parecia uma solução simples, mas era algo que Eiro esperava.
Assim que terminou essa linha de pensamento e estava prestes a tomar outro gole do seu chá, notou que alguém havia se aproximado da mesa e se sentou no assento à sua frente.
— Oh, que coincidência nos encontramos de novo! Eu não sabia que você gostava de doces, Lorde Daemonherz! — disse a mulher. Era uma jovem de uma família nobre de menor importância, apenas alguns anos mais velha que Sammy e Clementine. Ela era uma das que tentou se aproximar de Eiro durante a festa em que se tornou oficialmente um barão.
— Os doces não são para mim, mas para minha filha — respondeu Eiro, sem tirar o olhar da página que lia. A jovem olhou para a capa do livro e bateu as mãos com um sorriso amplo.
— Oh! Você está tentando aprender mais sobre Homens-Besta? Sou uma espécie de especialista no assunto, pelo menos se comparado a maioria das pessoas vivendo aqui na capital — exclamou ela, obviamente frustrada, mas Eiro também conseguia dizer que ela não estava mentindo. Levantou a cabeça e encontrou o olhar da jovem.
— Mesmo? Como assim? Até agora, quase não encontrei algum deles por aqui neste país — comentou o Demônio e, como se fosse óbvio, a jovem começou a rir.
— Oh, claro que você não encontraria um deles por aqui!
— Hm? Mas você-
— Minha família possui uma casa de veraneio em um país aliado ao sul, à beira-mar. É realmente um lugar maravilhoso. Veja, eu detesto o inverno e lá praticamente verão o tempo todo! — explicou ela, e Eiro permaneceu em silêncio, já que queria descobrir o que essa mulher sabia sobre os Homens- Besta. — Lá, aprendi muito sobre Homens-Besta! A cidade onde temos a mansão é uma cidade portuária, um dos maiores pontos de conexão com o continente ao sul, então eu podia ver muitos deles por lá! Eles eram tão fofos, sabe?! — exclamou a jovem, com carinho pelas lembranças. Talvez Eiro tivesse a julgado mal. Ela parecia bastante egoísta e de mente fechada da última vez que falou com ela, mas ela não era tão ruim assim. Obviamente, Eiro nunca teria um relacionamento próximo com ela, mas ter conexões com outras casas nobres era bom.
— É mesmo? Por acaso você sabe alguma coisa sobre crianças Homens-besta entrando na fase de pré-púbere? — perguntou a ela, mas a jovem parecia bastante confusa.
— Pré-púbere? O que você quer dizer? — questionou ela, e agora Eiro ficou um pouco perplexo.
— Sabe, quando o corpo de um Homem-Besta muda, afastando-se de sua aparência humana, e eles adquirem suas características primárias que os conectam ao seu espírito guardião? A pré-púbere acontece com eles antes da puberdade — explicou Eiro, antes que visse algo que realmente o enojou: a expressão da jovem à sua frente.
— É? Homens-Besta parecem como nós quando crianças? Que nojo, pensar que eles podem acabar brincando com nossas crianças sem sabermos… — a jovem comentou com uma expressão distorcida de desgosto. — Não é de se espantar que nunca vi nenhuma criança Homem-Besta nos recintos… Que coisa desprezível desses zoológicos esconderem esse fato de nós.
Eiro sentiu uma onda de raiva percorrer seu corpo, seu coração batendo tão forte que quase o ensurdeceu. No entanto, em vez de dizer algo a jovem diretamente, fez uma pergunta.
— E por que… por que você acha que é tão óbvio que não existam… Homens-Besta aqui neste país…?
— Hu? — questionou a dama, confusa com a mudança repentina na expressão de Eiro. — Bem, é claro que é porque a escravidão é ilegal aqui? Por que precisaríamos de Homens-Besta nesse caso?
Eiro sentiu seu corpo ferver com mais raiva e desgosto, mas compreendia que não era culpa dessa mulher diretamente. Ela era desagradável, absolutamente repugnante. Mas também sabia que ela não era a única que pensava dessa forma. A maioria das pessoas pensava. A maioria das pessoas pensava que os Homens-Bestas eram inferiores.
O pensamento de que Leon pudesse ser maltratado no futuro apenas por causa de algo assim… Algo tão superficial, algo sobre o qual ele não tinha controle… deixou Eiro furioso, absolutamente furioso…
— Acalme-se — sussurrou Bavet na orelha dele, enquanto todos os sentidos do Demônio eram dominados pelas coisas mais repugnantes que já existiram. Cheiro, toque, visão, audição, tudo ao redor de Eiro parecia ter se transformado em sua pior versão.
O Diabrete se levantou lentamente, seu corpo trêmulo sendo guiado com a ajuda de Bavet. Eiro caminhou até o outro lado da sala, onde havia um pequeno barril vazio, que antes continha açúcar.
Debruçou-se sobre o barril e vomitou tudo o que havia dentro de seu estômago. Não foi uma sensação agradável, mas pelo menos foi o suficiente para impedir que enlouquecesse e matasse alguém.
— Urgh… — murmurou enquanto se endireitava novamente, usando um lenço para limpar o vômito nos cantos de sua boca, olhando para a jovem ao seu lado, claramente preocupada… O Demônio sorriu, agradecendo mentalmente a Bavet, enquanto falava com a jovem.
— Sinto muito, mas sua própria essência, sua mente apodrecida, é tão abominavelmente vil que eu não consegui mais me controlar.
…