
Volume 4 - Capítulo 437
A Virtude do Demônio
Eiro olhou para a Magia Arcana flutuando na sua frente. Fazia um tempo desde que sentia esse tipo de familiaridade imediata com a magia que estava conjurando. A primeira vez que sentiu isso foi quando usou Magia de Gelo pela primeira vez. Agora, era com a Magia Arcana. Esses dois elementos, embora o Arcano não fosse um elemento em si, pareciam partes inatas do próprio ser de Eiro.
Simplesmente parecia certo. Eiro estendeu a mão e tocou as pontas dos dedos contra os da mão mágica. Nelli olhou para ele, preocupada.
— Eiro, isso está drenando uma quantidade insana da sua mana por segundo, você provavelmente deveria ter cuidado… — comentou a Náiade, e Eiro olhou para ela. Era como se tivesse escutado suas palavras, mas demorasse alguns segundos para entender o significado delas.
— Oh, certo… Claro — ele estalou os dedos, e a mão arcana desapareceu. O Demônio se levantou com sua cauda e permaneceu parado no centro da sala. — Isso foi realmente… incrível.
— Foi? Parecia como uma magia qualquer para mim… — comentou Nelli, e Eiro olhou para ela com um grande sorriso.
— Eu sei, no fim das contas não era diferente de qualquer outra magia. Mas ainda parecia mais do que isso para mim. Preciso agradecer a Merlin por me ensinar sobre isso. Da próxima vez que eu encontrar aqueles quatro, precisarei dizer ao Mago Arcano o quanto estou grato por ele ter me dado aquela breve dica com sua pergunta. Infelizmente, não consegui encontrá-lo novamente depois disso, mas tenho certeza de que não será a última vez que o vi — disse Eiro, com um sorriso calmo, mas amplo, em seu rosto, o qual não parecia que desapareceu em breve.
Nelli suspirou, mas logo flutuou ao redor da cabeça de Eiro e inclinou seu corpo contra a bochecha dele.
— Estou feliz que você esteja se sentido feliz sobre isso. Desculpa por talvez ter exagerado um pouco por conta de Merlin… — disse ela com uma voz genuína. Eiro simplesmente continuou sorrindo.
— Não se preocupe. É verdade que ainda não podemos confiar completamente em Merlin… ele escondeu algo muito importante de mim, afinal.
— Hm? Ele escondeu? — perguntou Nelli confusa, afastando-se lentamente do rosto do Demônio, que acenou a cabeça.
— Ele escondeu a forma como eu deveria controlar essa magia até conjurar o feitiço. Agora que vi a magia em ação, me dei conta exatamente que estava acontecendo antes.
— Sério? Então o que era? Foi meio chocante ver você saindo de lá daquele jeito… — comentou Sarius, e Eiro olhou para os Espíritos.
— Minha essência — respondeu enquanto retirava o frasco que havia guardado em sua Tesouraria.
— Essa é a única razão pela qual consigo controlar minha mana. Veja, posso controlar perfeitamente minha essência, muito melhor do que consigo controlar mana comum. Mas também percebi que ela se dissipa rapidamente assim que eu a retiro do meu corpo. Se eu tivesse perdido o controle sobre ela por um instante sequer, ela teria desaparecido para sempre. É por isso que as vezes perdemos o controle com facilidade sobre feitiços fora do nosso corpo, pelo menos na maioria das vezes, e porque esses feitiços se dissipam rapidamente. A essência desaparece e a mana é purificada. Mas a mana pura também não pode existir tão facilmente no mundo, então ela também de dissipa rapidamente. Como ambos se dissipam dessa forma, a mana se desfaz e se torna incontrolável muito antes de desaparecer por completo — explicou Eiro. — Pelo menos, essa é minha teoria no momento. Mas também é por isso que eu não conseguia expelir a mana pura do meu corpo, porque ela não era mais vista como ‘minha’ mana por completo. Era uma substância estranha e, embora eu ainda consiga controlá-la até certo ponto, meu corpo ainda a rejeita. É por isso que, quando ela pressionou as paredes da minha alma, rasgou minha carne nessas áreas.
Os três Espíritos se entreolharam confusos, já que não tinham ideia de que forma isso se relacionava com o fato de Merlin ter escondido algo de Eiro.
— Bem, o que mais você poderia fazer então? É isso que é a Magia Arcana, certo? — comentou Nelli, e Eiro assentiu.
— Claro, mas não no começo. No momento, a mana pura ainda é vista principalmente como mana pura, por conta do meu baixo nível na Linguagem Antiga e por eu não possuir uma afinidade com o ‘Arcano’. Mas assim que isso aumentar, e a Magia Arcana cria pela mana pura se tonar algo próprio, meu corpo será capaz de usá-la adequadamente — explicou a eles.
— Isso por si só não significava que algo tenha sido omitido. No entanto, quando você combina as duas informações que acabei de contar a vocês, o que eu quis dizer fará mais sentido — disse Eiro, pressionando o frasco com sua essência em seus lábios, praticamente despejando um pouco por sua garganta, como se a bebesse. Então, dentro do seu corpo, ele combinou a essência com a mana pura que já havia absorvido a Linguagem Antiga. A mana retornou à sua pureza original, mas havia uma diferença. Os três Espíritos perceberam exatamente qual era, pois conseguiam ver a mana fluindo pelo corpo de Eiro.
— Ah… — exclamou Gondos. — Ainda é diferente da mana normal? A dependência da Linguagem Antiga que a mana pura possui permaneceu intacta em sua forma original? — perguntou o Golem, e Eiro acenou a cabeça.
— Exatamente, amigo. Não é Magia Arcana de verdade agora, mas tecnicamente é de uma forma deturpada. Isso significa que ainda consigo fazer algo assim — disse Eiro, conjurando novamente o mesmo feitiço de antes com Magia Arcana impura. Ela fluiu para fora de sua pele exatamente como faria normalmente, enquanto conjurava o feitiço. No instante seguinte, a mão apareceu flutuando no ar. Só que desta vez, parecia um pouco diferente. Parecia quase despedaçada, mal se mantendo unida. Mal era visível em primeiro lugar, tão translúcida que era.
Eiro pediu para Gondos criar um pouco de pó e alguns pedregulhos para ele, então os segurou acima da sua mão.
— Custa muita menos mana se eu fizer algo assim, apesar de ainda ser muito mais do que o normal para esse nível de feitiço. No entanto, ao mesmo tempo… — ele derrubou os pedregulhos e o pó. O pó atravessou metade da mão e parou ali, começando a flutuar através da mão translúcida junto com o fluxo de magia da qual era feita. Enquanto isso, os pedregulhos já haviam atingido o chão, criando vários buracos limpos na mão.
— Nem é capaz de conter a entrada do pó. É suficiente para praticar e, com o tempo, vou continuar usando uma versão mais pura a cada vez. Isso deve ser suficiente para me acostumar bem com isso — comentou Eiro. — Além disso, não estou dizendo que Merlin omitiu isso com intenções maliciosas… claro, ele é um pouco suspeito, mas não posso esperar que ele revele todos os segredos da sua vida. Não parece que ele ‘esqueceu’ algo, mas sim que simplesmente escolheu não me dizer. Ele pareceu bastante incomodado por eu ter conseguido compreender o trabalho da vida dele tão facilmente, então talvez ele tenha omitido isso para me fazer sofrer um pouco. Ou está me testando para ver quão bem posso lidar com a Magia Arcana.
—… Tem certeza de que quer acreditar nele assim? — perguntou Nelli, encarando os olhos de Eiro, e o Demônio assentiu.
— Por enquanto, sim. Claro que não devo confiar nele cegamente, mas simplesmente quero confiar. É assim que é. Mas se chegar a esse ponto… não irei ignorar suas ações devido ao relacionamento que temos.
Nelli sorriu suavemente enquanto olhava para o Demônio com quem tinha um contrato.
— Bom. Obrigada por ser mais razoável do que antes — a Náiade o agradeceu, antes que o Diabrete caminhasse até a porta e saísse da sala.
— Agora, acho que vou dormir pelo resto da noite e recuperar um pouco da minha mana. Amanhã, eu vejo e posso descobrir algo sobre a essência na biblioteca da Academia — comentou Eiro enquanto espreguiçava seu corpo e se dirigia ao seu quarto.
Eiro se despiu e se jogou em sua cama, olhando para o teto por um tempo. Enquanto dormia, em seu sonho, entrou na biblioteca em sua mente. Sentou- se em uma das mesas e pegou dois livros, colocando-os à sua frente. O tomo escrito na Linguagem Antiga que encontrou, assim como o dicionário que estava escrevendo conforme decifrava o significado de certas palavras.
Continuou olhando examinando o tomo, tentando compreender mais significados. No momento, embora as coisas estivessem um pouco mais estagnadas, Eiro estava mais uma vez imerso em uma profunda fase de ‘estudo’. Estudou como usar a Magia Arcana, como compreender a Linguagem Antiga e como aumentar cada vez mais o nível da sua habilidade de entendimento de linguagem.
À medida que sua afinidade com o Arcano aumentasse cada vez mais, ele seria capaz de despertar a habilidade Magia Arcana, e a quantidade de feitiços que conseguiria conjurar aumentaria de forma considerável, em especial depois que aperfeiçoasse a fusão elemental.
No entanto, uma coisa se tornou cada vez mais aparente para Eiro: ele estava se afastando cada vez de ser uma criatura que pudesse simplesmente viver em paz em lugar como este.
…