A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 436

A Virtude do Demônio

Eiro sentou-se na sala conectada à câmara de infusão, enquanto Nelli curava suas costas.

— Como eu deveria fazer isso…? — murmurou Eiro. — Meu corpo é fundamentalmente diferente dos outros, então a quantidade de danos que eu sofro deve ser muito menor do que a que Merlin sofreu. Como ele conseguiu evitar esses ferimentos?

— Bem, talvez seja porque ele não estava simplesmente apressando essa merda, seu completo idiota — respondeu Sarius, e o Demônio revirou os olhos.

— Certo, é claro. Quero dizer, posso tentar fazer da forma mais básica. Vou me infundir por dentro, então.

Eiro fechou os olhos e olhou para dentro de si mesmo. Sentiu a massa de pura mana e a moveu dentro de si. Moveu-a para sua mão esquerda e depois substituiu a mana comum que havia ali pela mana pura, repetindo o mesmo processo de ‘infusão’.

Quando o fez, nada em particular aconteceu por um tempo. Mas então, pouco a pouco, quanto mais tempo a mana pura permanecia em sua mão, algo apareceu, algo que apenas Eiro era capaz de ver com seus olhos extremamente fortes.

Linhas extremamente finas de luz dourada apareceram em sua mão, aumentando lenta, mas constantemente de tamanho. Quanto mais isso acontecia, mais sua mão começava a coçar e a ficar cada vez mais leve.

Mesmo assim, o movimento de sua mão não foi afetado. Por ora, sua mão parecia bem, e Eiro começou a prosseguir a partir desse ponto. Dentro do centro do seu peito, continuou a extrair sua essência da mana dentro do seu corpo. Pressionou o máximo possível da substância semelhante a lama viscosa que era sua essência para dentro do frasco que tinha, comprimindo-a com força.

Então, assim que adquirisse mana suficientemente pura, ele começaria a anexá-la à mana pura que estava em sua mão. Estava praticando começar a substituir toda a mana dentro do seu corpo com essa versão pura e arcana. Era assim que Eiro queria substituir a câmara de infusão antes de descobrir uma forma de usá-la com segurança.

Logo, o Demônio havia substituído toda a mana de seu braço com mana pura. Então, concentrou todos os seus sentidos no braço para que pudesse analisá-lo da melhor forma possível. Analisou a coceira, a forma como seu braço mudou ao longo do tempo, os padrões e linhas douradas aparecendo nele, basicamente tudo o que havia mudado em seu braço.

Desse modo, logo percebeu algo. As linhas douradas brilhantes eram padrões similares ao que compunham suas bênçãos, só que em uma escala muito menor, e estavam se deslocando ligeiramente com o tempo, mudando um pouco.

Eiro respirou fundo enquanto se levanta. Começou a mover ambos os braços para ver que tipo de diferenças havia entre o controle sobre eles. Não parecia haver nenhuma grande diferença, apenas que seu braço esquerdo parecia um pouco mais leve. Talvez o movimento estivesse um pouco mais suave, mas era provável que não houvesse nenhum benefício para combate.

Após um tempo, já que estava determinado a não dormir nesta noite para compensar o tempo perdido com o incidente na câmara de infusão, Eiro tentou algo diferente: começou a movimentar quantidades maiores de mana, em vez dos pequenos fluxos que estava utilizando anteriormente.

Certificou-se de aumentar ao máximo o controle sobre a mana pura. Entretanto, não tinha certeza do que estava acontecendo. Por que seu corpo estava reagindo dessa forma à mana pura? Como ela literalmente rasgou sua carne? Não fazia nenhum sentido. Ela não devia ser capaz de fazer algo assim.

— Talvez… — resmungou, antes de cruzar as penas e entrar em um estado meditativo. Começou a deixar a mana pura fluir através do seu corpo como sua mana normal, e Eiro aumentou lentamente a pureza ao retirar gradualmente mais essência de sua mana. Claro, ainda estava produzindo sua mana comum, então não tinha que se preocupar em bagunçar nada dentro de si nesse sentido. No entanto, pouco apouco, a mana em seu corpo se tornou mais pura, e o Diabrete sentiu todo seu corpo ficar mais energizado e a sentir-se muito mais saudável que antes.

Não tinha certeza se isso era real ou sua imaginação, mas era um fato que se sentia assim. Considerando que esse era o caso, Eiro continuou. Não parecia estar lhe causando nenhum mal. Se estivesse, então teria sentido imediatamente.

Este era um dos motivos pelos quais guardou sua ‘essência’. Era relativamente fácil de controlar e, não apenas conseguia expeli-la com facilidade, como também era capaz de reabsorvê-la e infundir a mana pura com sua essência. Caso algo acontecesse. Eiro imediatamente transformaria de volta sua mana pura em mana normal.

Lenta, mas seguramente, pressionou um pouco de mana pura em sua mão direita, apenas para testar se isso funcionaria ou não.

— Huh? — murmurou confuso, ao perceber algo enquanto movia a mana pelos circuitos mágicos dentro de sua mão de madeira. Um pouco de mana pura simplesmente escapou. Ela saiu de sua mão de madeira. Porém, como isso era possível?

Foi então que Eiro percebeu uma coisa.

— Meu corpo espiritual foi dilacerado em minha mão por causa da Energia Sagrada… E agora que tenho este cajado agindo como minha mão, permitindo que a mana flua através dele normalmente… A mana pura pode escapar pelas fendas na forma da alma… — disse o Demônio enquanto olhava para os Espíritos na sua frente.

— Espera, isso significa que a mana antes feriu sua alma em si, e não só o seu corpo? — perguntou Sarius, e Eiro olhou para Nelli, que havia feito toda a cura.

— Bem, eu não notei nada incomum. Pareceu apenas que uma massa física saiu de você, e não vi nada estranha em relação à sua alma ali. Sua mana fluía normalmente, afinal — explicou a Náiade, e Eiro fechou os olhos em contemplação. A sua manipulação da mana pura era quase inexistente em comparação com a de mana comum. E foi então que percebeu mais algo.

— Não acho que danificou minha alma… a mana normal praticamente puxa as paredes da minha alma assim que sai do corpo. Só que era tão forte que, ao passar pela minha alma, a carne foi dilacerada naquele ponto, mas minha alma permaneceu intacta. A alma é muito mais resistente do que a carne, afinal. Porém agora, a mana pura não precisa se preocupar com a interferência da alma… mas se eu ainda tivesse uma mão comum, ela poderia dilacerar minha carne naquela área de qualquer maneira, enquanto a mana pura fluía pelas rachaduras. Não devo ter notado nenhuma diferença com a mana comum porque, neste ponto, a mana flui pelas paredes da minha alma como se não existissem — comentou Eiro enquanto começava a pensar profundamente sobre o que deveria fazer.

— Bem, pelo menos isso é um atalho para conjurar Magia Arcana… — murmurou, enquanto sentia a massa de magia na sua frente. Eiro não era particularmente capaz de ver a mana fora do seu corpo, mas ainda era capaz de senti-la um pouco.

Lembrou-se do exemplo de feitiço arcano dentro de um dos livros de feitiços de Merlin e rapidamente o desenhou com a ajuda dessa mana pura que havia absorvido a Linguagem Antiga, essa Magia Arcana. Assim, instantes depois, o feitiço foi concluído ao mesmo tempo em que ele terminou o cântico.

Quando ativou o círculo mágico, as linhas brilhantes se reuniram em uma massa no centro. O Orbe brilhante que logo flutuava teve sua camada mais externa estilhaça em alguns pontos, e o que apareceu ali foi uma mão quase idêntica à mão direita de Eiro. Ela tinha até mesmo algumas das fendas que a mão de madeira precisava para que as partes individuais se movessem corretamente.

A única diferença era que esta mansão era feita de Magia Arcana. Ela flutuava, uma mão branca e translúcida com finas linhas douradas que se moviam por toda sua extensão. E essa mão estava completamente ligada à mente de Eiro e estava sob seu controle.

Com um único pensamento, a mão se moveu para o outro lado da sala e pegou um pequeno objeto, trazendo-o para Eiro. Isso foi muito incrível. Ele nunca tinha visto um feitiço assim.

Parecia que devido à natureza da Magia Arcana e do feitiço em si, essa mão não poderia ser usada em combate. Se segurasse uma arma e atacasse alguém, potencialmente poderia penetrar sua pele, mas mal causaria qualquer dano real. A mão em si nem tinha a força para estrangular alguém, então era realmente bastante inútil nesse sentido.

Mas, por sorte, ela podia ter outros usos. Embora não fosse exatamente nisso que estivesse pensando enquanto observava a mão flutuar na sua frente.

Devido à falta de uma habilidade correspondente, ou até mesmo de algum tipo de controle significativo sobre o Arcano na forma de uma afinidade elemental, a mão era fraca e instável, mal conseguindo levantar a pena de escrever que estava sob a mesa do outro lado da sala. Consumia muito mais mana para se manter do que a maioria dos feitiços de alto poder de ataque que Eiro tinha.

No entanto, era algo tão novo e tão diferente para Eiro, que ele se sentiu como se não fosse nada além de um Diabrete Inferior, encarando uma fogueira e ficando encantado por ela que todos os seus pensamentos desapareceram.

…

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