A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 435

A Virtude do Demônio

Eiro pousou na frente da sua mansão, entrando pela porta da frente sem escutar as palavras dos Espíritos ao seu lado.

— Eiro, o que você está fazendo? Normalmente você não é assim! — exclamou Nelli. — Você geralmente é tão calmo e composto, então por que você está tão bravo agora?

O Demônio parou de andar e encarou a Náiade.

— Porque eu estou cansado de tudo dar errado. Relacionamentos são coisas muito estranhas para mim, se não percebeu. Eu só… — grunhiu Eiro. — Só não quero o irmão de Jura se torne um inimigo, certo? Só… se eu precisar ignorar um pouco da estranheza dele, tudo bem. De verdade. Agora, podemos seguir em frente e começar a praticar o Arcano? — sugeriu Eiro, e nenhum dos três Espíritos sabia o que dizer. Então, só permaneceram em silêncio enquanto o Demônio caminhava pela mansão e subia na câmara de infusão.

— O que você está fazendo…? — perguntou Nelli, nervosa. — Você quer se infundir com mana pura?

— Claro que quero. O que mais poderia ser? Eu farei isso, combinar e sobrepor todos os meus sentidos, e analisarei esse elemento o máximo possível para ampliar meu entendimento. Certo? Bom — ele jogou suas roupas no chão ao lado da escada que subia para a câmara de infusão, enquanto Bavet se separava completamente dele.

— Eiro, não tenho certeza se isso é uma boa ideia… isso é mana pura, é basicamente… nada. Você realmente quer se infundir com ‘nada’? Não seria melhor tentar experimentar da forma normal antes? — sugeriu Bavet, mas o Diabrete não prestou atenção, simplesmente continuou a se despir enquanto subia a escada.

— Só me deixe em paz. Fique aqui e me deixe pensar. Sozinho. Tudo bem? — disse Eiro a eles com um olhar profundo, e os quatro rapidamente entenderam. O Demônio fechou a escotilha ao entrar e deitou-se no chão da sala que mal era grande o suficiente para isso.

— Por que eles não podem simplesmente me ouvir? No fim, com meu julgamento, tudo sempre dá certo… — resmungou para si mesmo. Ele sabia que normalmente não eram assim, e que sua raiva provavelmente foi fortalecida pela Marca da Ira colocada nele. Assim esperava, pelo menos. Não gostava de ficar com tanta raiva, principalmente com pessoas com quem se importava tanto quando os Espíritos com quem tinha contrato.

Eles eram seus parceiros, e seres com quem Eiro passava a maior parte do seu tempo. Não ficavam juntos o tempo todo, mas, durante a maior parte do dia, flutuavam ao seu lado ou perto o suficiente, de modo que conseguia, pelo menos, senti-los. Ele se sentia mais próximo deles do que da maioria das pessoas, por motivos óbvios.

O Demônio cravou as unhas no chão, sentindo-as rachar levemente a madeira. Quando percebeu isso, no entanto, parou imediatamente e tentou se acalmar.

— Vamos fazer isso… — murmurou baixinho, fechando os olhos. Eiro tentou se concentrar em um ponto muito específico dentro do seu corpo e manipulou seus circuitos mágicos para que conseguisse criar um pouco de mana muito concentrada, controlando rigorosamente o fluxo de mana ao redor. Não queria nenhum tipo de interferência.

Sentiu o núcleo concentrado de mana dentro de seu peito e então a observou mais profundamente. Eiro sentiu seu próprio ser, o aspecto que tornava sua mana sua, e o que fazia da sua árvore a força que ele era. Por sorte, Eiro tinha uma compreensão relativamente forte das diferenças individuais na mana de cada um, simplesmente porque acabou estudando o processo de criar árvores individualizadas, como a sua.

O Diabrete respirou fundo enquanto buscava pela sua essência dentro do núcleo de mana. Lenta, mas confiantemente, tentou extraí-lo de sua mana.

Quanto mais tentava, mais conseguia sentir uma diferença real. Logo, Eiro foi capaz de entender o que sua essência realmente se parecia para ele.

Era… uma massa viscosa. Lamacenta e repugnante, daquelas que faziam as pessoas estremecerem só de pensar em encostar.

Eiro manipulou seus circuitos mágicos para tentar empurrar essa lama viscosa para suas mãos, onde a expeliu rapidamente para um pequeno frasco de vidro. Estava utilizando uma técnica de artífice, utilizada para armazenar a mana para outras criações, com o objetivo de conter sua própria essência dentro desse frasco, para que conseguisse examiná-la depois. Respirou fundo enquanto forçava a substância através de sua pele. Era desconfortável, chegando a fazer com que estremecesse em resposta.

O Demônio gemeu enquanto enchia o frasco com a lama. Assim que acumulou uma massa de mana pura, ou melhor, a mana mais pura que ele conseguia obter, Eiro fechou o frasco e o armazenou em seu Tesouraria para mantê-lo seguro.

A massa de mana ‘pura’ não era perfeitamente pura, já que ainda havia resíduos de sua própria essência dentro dela. Pelo menos, Eiro devia ter conseguido extrair cerca de 95% de sua essência da mana, mas o resto estava grudado nele. Era provável que conseguiria aprender a controlar isso com o tempo.

Por ora, Eiro apenas se concentrou nesta massa de mana moderadamente pura dentro do seu peito e continuou a observá-la. Conforme o fazia, pôde sentir a mana se apegando ao conceito da Linguagem Antiga. Esta massa que parecia querer se dissipar no instante em que Eiro cessasse seu controle sobre ela, agora parecia estável.

Assim, Eiro começou a movê-la ao redor de seu corpo. Era difícil de se mover, quase como se estivesse aprendendo a controlar sua mana de novo. Mas, eventualmente, ela começou a se mover mais rápido, e a capacidade de Eiro de manipulá-la cresceu cada vez mais.

Não demorou muito para que conseguisse movê-la de volta para o centro de suas costas, já que esse ponto ficava exatamente acima da parte que precisava infundir com magia para que ela fluísse por toda a sala. Eiro a pressionou contra sua pele e sentiu quase como se fosse dilacerado. Não de verdade, mas era assim que se sentia. Desse modo, pressionou essa mana pura através de sua pele como uma rocha através de uma peneira fina. A dor era incomum, mas quase do tipo que satisfaz quando Eiro conseguiu expulsá-la de seu corpo. A sensação perdurou por mais um tempo, enquanto infundia o elemento nas inscrições rúnicas da sala antes que a mana pura fosse dissipada.

No instante seguinte, sentiu o cômodo mudar. As letras rúnicas ao redor da sala se acenderam e quase o cegaram. Parecia como se estivesse deitado no nada. Todos os seus sentidos estavam sobrecarregados e, ao mesmo tempo, sem nada para sentir. Como se estivesse experienciando tudo e nada de uma só vez.

Era como se as paredes estivessem desaparecendo e se aproximando, enquanto o próprio Eiro continuava deitado, incapaz de fazer qualquer coisa.

Assim que sentiu isso, ele se ergueu bruscamente e cessou o controle da mana dentro das inscrições. A sala retornou ao normal, enquanto o resto da mana pura era sugada para o corpo de Eiro de forma dolorosa.

— Merda… — gemeu Eiro enquanto agarrava o peito, ofegando por ar. Mas essa nem foi a pior parte. Um cheiro metálico preencheu o ar, enquanto Eiro sentia algo úmido tocar sua mão e costas. Ele se virou e viu uma poça de sangue no chão.

De imediato, levou a mão para o local de onde havia expelido a mana pura. E o que encontrou foi um ferimento profundo, como se a pele nesse lugar tivesse sido literalmente rasgada.

— O que diabos…? — murmurou.

‘Como isso aconteceu?’ o Demônio levantou-se e abriu a escotilha, descendo a escada.

— Então…? Funcionou? — perguntou Gondos, curioso, e Eiro olhou para ele com uma carranca profunda.

— O que você acha? Claro que não. Eu mal fiquei lá dentro.

— Erm… Como assim? — questionou Sarius, e Eiro soltou um suspiro irritado.

— Nelli, só me ajude, por favor. Minhas costas estão feridas.

— Não… — respondeu a Náiade. — Acho que devemos falar sobre isso. Quanto tempo você acha que esteve lá?

— Não sei, talvez 50 minutos ou algo do tipo? Não foi tanto tempo assim — respondeu Eiro, e Nelli, Gondos e Sarius se entreolharam por um instante.

— Cara, você está lá há algumas horas, já é meia-noite… — apontou a Salamandra. Eiro parou, confuso.

— O que você quer dizer? — perguntou, estendendo sua percepção. E Sarius estava certo, fazia algumas horas.

— Você está brincando? Aquele instante durou algumas horas…? — murmurou Eiro, confuso. Talvez aprender a usar Magia Arcano fosse um pouco mais difícil do que pensou a princípio.

…

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