A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 433

A Virtude do Demônio

Eiro respirou fundo enquanto colocava um dos livros que estava lendo na mesa à sua frente. Nenhum deles fazia muito sentida da forma que Eiro imaginava que deveria aprender a usar Arcana. Claro, nenhum deles foi escrito falando sobre Arcana em particular, mas eram simplesmente teorias sobre como a magia não elemental poderia ser usada.

O Demônio cruzou os braços enquanto refletia intensamente. Talvez pudesse dar sentido a algumas dessas teorias ou encontrar algum denominador comum entre elas. Claro, isso não significava que esses livros não eram úteis para ele. Só que não mencionavam nada sobre a Linguagem Antiga, então era evidente que seus métodos teóricos para usar magia não elemental eram falsos, pelo menos até certo ponto.

No entanto, discutiam alguns assuntos bastante interessantes. Para começar, as formas que a magia não elemental podia ser usada. Primeiro, havia o fato de possuir uma magia que simplesmente não era fraca contra nenhuma outra em particular, em troca por também não ser particularmente forte contra nenhuma outra magia. Era um consenso que era um tipo ‘estável’ de amiga, caso fosse possível usá-la.

Então, havia outros aspectos. Alguns feitiços teóricos que só podiam ser usados sem nenhum elemento na jogada, pois não havia nada que pudesse interferir no efeito dela de forma a dificultar o controle, por exemplo, feitiços baseados em precisão. Não se referia a atingir um alvo muito longe com precisão, mas sim feitiços destinados a acertar pontos pequenos e específicos.

Isso seria útil para medicina. Por exemplo, sempre que um soldado ou aventureiros sofresse um ferimento que era grande demais para curar, ou se houvesse algo que impedisse a cura, era importante ter algo para operá-los precisamente. Eiro sabia que esse tipo de coisa era muito útil. Enquanto estudava com Jura, teve que amputar os membros de certos animais, ou algumas vezes até monstros. Como tinha que fazer isso com muita precisão para prevenir hemorragias ou dor desnecessárias, foi realmente muito difícil fazer isso naquela época, mesmo usando ferramentas específicas.

Agora, se alguém tivesse acesso a esse tipo de magia não elemental, que devido às suas propriedades teoricamente não exigia nenhuma afinidade em particular, significava que qualquer um poderia potencialmente aprendê-la, seria possível realizar cirurgias com precisão no meio de uma aventura ou até mesmo em um campo de batalha. Era realmente muito interessante.

Claro, Eiro não ignorou as possibilidades que esse tipo de feitiço tinha para combate. Sempre que queria usar um feitiço sem nenhum elemento em particular por qualquer razão, ele acabava quase sempre usando magia de ar. Havia basicamente uma quantidade limitada aonde quer que fosse, e ela não deixava rastros. Mas também tinha seus problemas, causados pelo próprio elemento vento. Usar magia sem elemento permitiria um controle muito mais preciso no geral, o que o animava.

Agora que pensava sobre isso, era provável que a barreira erguida ao redor da Academia foi construída de alguma forma ao usar a Arcana. Pelo menos, sempre que olhava para ela com sua visão de mana quando fundido com um de seus Espíritos, nunca via nenhum elemento em particular. Pensou que tivesse sido imbuída com algum tipo de intenção, mas agora que sabia mais sobre Arcana e magia não elemental, fazia muito mais sentido se a barreira tivesse sido criada através de mana pura.

Isso significava que assim que descobrisse como usar Magia Arcana usando mana pura, ele deveria ser capaz de criar barreiras completas como essa. E elas seriam perfeitamente discretas, já que a mana pura não podia ser vista por qualquer pessoa, sendo perfeita para algum tipo de proteção passiva que Eiro poderia criar para as crianças.

De qualquer forma, por ora, terminou de ler. Tinha que se dirigir para sua primeira aula do dia. Era outra aula prática de combate físico, na verdade, uma das aulas favoritas de lecionar para Eiro. Sempre lhe dava uma sensação boa movimentar o corpo de alguma forma.

Assim, o Diabrete foi até sua aula, entrando no campo de treinamento que foi reservado para hoje. Por sorte, hoje a aula de hoje também abordaria algo interessante.

— Sparing! — exclamou Eiro enquanto se aproximava dos alunos. — Um dos aspectos mais importantes para aprender a lutar. Se você nunca teve um opoente, nunca saberá realmente como mover seu corpo na prática, não importa quanta teoria você saiba. Então, hoje iremos ter duelos adequados!

Os estudantes se entreolharam confusos, antes que um deles levantasse a mão.

— Mas a gente já não vem fazendo isso? Duelando um contra o outro?

— É, mais ou menos, mas não exatamente. O que vocês têm feito é basicamente ‘testar’ alguns movimentos no seu parceiro de treino de uma forma segura. Eu sempre dou algumas restrições a vocês para se certificar que ninguém acabe realmente se ferindo. Mas hoje, faremos algo diferente — comentou Eiro. Estalou os dedos e levantou uma plataforma quadrada do chão. — Eu estive os observando atentamente esse tempo todo. Neste ponto, todos vocês são perfeitamente capazes de se defenderem contras seus colegas. Existem alguns que são um pouco mais fortes ou mais experientes do que outros, mas com certeza levarei isso em consideração na pontuação das lutas.

De imediato, os alunos ficaram bastante nervosos.

— Espera, isso vai valer nota? — questionou um deles, e Eiro levantou as sobrancelhas, meneando a cabeça.

— Não, não, não vai valer nota. Desculpa, eu deveria ter explicado primeiro. Estive desenvolvendo um sistema para vocês compreenderem suas fraquezas com um pouco mais de facilidade e, assim, saber o que praticar durante o tempo livre. As categorias são ‘Técnica’, ‘Estamina’, ‘Inteligência’, ‘Criatividade’ e, por último, ‘Coragem’ — declarou Eiro e depois explicou o que cada um significava.

— Técnica obviamente será determinada por quão precisas suas técnicas são, e Estamina será baseada no tempo que vocês conseguem lutar sem que seus movimentos se tornem desleixados ou lentos. Agora, o resto é um pouco mais ambíguo, mas confiem em mim, eu os julgarei de forma justa.

Dependendo de quão bem vocês reagirem aos movimentos do seu opoente, vocês terão uma pontuação maior ou menor. Novamente, levarei múltiplos fatores em conta, especialmente quando se trata dessa pontuação. Quanto à Criatividade… eu não quero que usem os movimentos exatamente da maneira como as leram. Troquem partes, combinem certos movimentos de forma criativa dependendo da situação. Quanto mais criativos em uma luta, menos previsível serão — disse Eiro, caminhando até dois alunos que estavam um ao lado do outro: Rico e Ac. Ele os puxou para frente.

— E agora, vamos ao último tópico. Rico, me ataque. Com o máximo de força que você conseguir — disse Eiro sem rodeios, surpreendendo não apenas Rico, mas todos os outros alunos.

— H-Huh? M-Mas… — gaguejou Rico, e Eiro sorriu em reposta.

— Não se preocupe, eu posso lidar com isso. Só me acerte com todo o seu poder, bem no meio do meu rosto.

Rico engoliu em seco, nervoso, e, com as mãos trêmulas, parou na frente de Eiro, que exibia um sorriso suave. Assim, Rico cerrou os punhos e, após mais algumas confirmações do próprio Eiro, ele socou o rosto do Demônio. Mas, mesmo assim, ele desacelerou antes de acertar a bochecha de Eiro.

— Agora, vocês viram isso? Rico estava com medo de me atingir. Ele estava com medo de me machucar. Claro, podem pensar que é devido ao fato de seu ser o professor de vocês, e isso certamente influencia, mas muitos de vocês ainda têm medo de ferir outras pessoas em geral. Isso faz com seus ataques sejam mais fracos, enquanto vocês se expõem a contra-ataques — explicou Eiro, antes de se virar para Arc.

— E para mostrar que isso não foi apenas porque vocês me conhecem… Arc, por favor, branda sua espada de madeira contra meu rosto o mais forte que-

— Entendido — antes mesmo de Eiro terminar a frase, Arc brandiu sua espada de madeira com dedicação a precisão absolutas. Ao atingir a testa do Demônio, a espada de madeira se estilhaçou.

— Ah, merda… Você tem uma nova para mim? — perguntou Arc, olhando para o que restava da sua arma de prática.

Eiro sorriu enquanto passava as mãos pelos cabelos arco-íris para se livrar das lascas de madeiras presas dentro dele.

— Como podem ver, meu próprio filho acertou meu rosto sem qualquer hesitação. Para ser honesto, talvez ele tenha exagerado um pouco no entusiasmo, mas isso não vem ao caso — comentou Eiro, enquanto Arc sorria estranhamente.

— É assim que vocês precisam atacar qualquer inimigo de vocês. Se começar, você precisa ir com tudo até o fim. Esse é o quinto ponto pelo qual irei avaliá-los, Coragem. Agora, vou dividir vocês em pares, então vamos começar, certo?

…

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