
Volume 4 - Capítulo 429
A Virtude do Demônio
Eiro caminho casualmente pela Vila dos Monstros, aproveitando um pouco de cenário. Isso porque era uma das coisas que podia fazer. Caminhar e olhar casualmente para as coisas não exigia muito da sua capacidade mental, o que o permitia continuar trabalhando no Dicionário da Linguagem Antiga em sua biblioteca mental.
Era multitarefa em um nível básico. Se Eiro tivesse que parar para ter uma conversa com um dos monstros da vila, ele não conseguiria continuar trabalhando em seu dicionário, então não era de fato multitarefa. Mas ainda era bom o suficiente, já que conversas com monstros não exigiam muita capacidade mental. Assim, Eiro conseguiu observar de forma breve algumas das maneiras mais específicas sobre as quais havia mudado ao longo do tempo.
Primeiro, as casas foram desenvolvidas de formas incríveis. Não apenas o número cresceu rapidamente, devido ao aumento dos monstros vivendo aqui, mas a qualidade individual das casas também aumentou. A terra e rochas que antes serviam de chão agora foram substituídos por madeira da floresta próxima, preparada pelos Orcs com tarefas de marcenaria. Portas adequadas foram criadas, e as estruturas para famílias de raças diferentes tinham algumas diferenças. Pontes e escadas foram criadas para que as partes mais altas das paredes da ravina também fosse usada.
Instalações de armazenamento foram criadas ao lado das minas principais para que os minérios brutos pudessem ser processados posteriormente e levados para os depósitos apropriados no grande prédio em que Eiro esteva mais cedo. A maioria dos monstros estavam fazendo algum tipo de trabalho, fosse algo que lhes foi designado, ou simplesmente treinando. Esta última parte era especialmente o caso para os Goblins, Kobolds e os mais jovens entre os Orcs. Eles estavam treinando e aprendendo de acordo com suas capacidades básicas e talentos, medidos por Gobo, Boju e Kitsue.
Poderiam ser talentos voltados à produção, nesse caso eles estudariam com os mais experientes e seriam instruídos diretamente. E se fossem talentos voltados para o combate, treinariam principalmente por conta própria, alguns desenvolvendo seu próprio estilo com uma orientação geral daqueles com mais experiência.
[<Entendimento da Linguagem Antiga (Iniciante)> subiu de nível!]
Eiro levantou a mão e passou os dedos pela notificação. Agora, estava no nível 8, o que era surpreendentemente baixo ao considerar o progresso que já havia feito. Havia transcrito aproximadamente 7% das palavradas que podiam ser encontradas no tomo. Se tivesse feito assim com outras linguagens, teria subido muito mais níveis.
‘Isso é meio estranho’, pensou Eiro, ‘Todas as linguagens deveriam ter a mesma raridade e nível de dificuldade… A única diferença vem dos próprios indivíduos. Mas eu não tenho essas restrições… Não tenho talentos nem inabilidades. Isso só pode significar que…’ pensou o Demônio, tentando descobrir se estava certo.
‘Isso significa que a Linguagem Antiga não é apenas uma linguagem, mas que há muito mais nela’, concluiu Eiro, e não era uma ideia ridícula, para ser honesto. O fato de a Linguagem Antiga ser a mais usada para feitiços e encantamentos mágicos tinha um motivo: a complexidade da linguagem e as capacidades mágicas que estavam profundamente enraizadas na linguagem devido à forma como foi desenvolvida.
Eiro entrelaçou os dedos em sua biblioteca mental. Se fosse o caso, então isso significava que conseguiria aumentar seu Entendimento da Linguagem Antiga rapidamente através de outros meios em vez de simplesmente estudá-la e usá-la. E isso se dava por meio de algo bastante simples que ele pretendia tentar de qualquer forma.
Eiro ia compor seu próprio componente vocal para um feitiço, usando também escrita rúnica para criar a estrutura. Basicamente, ia tentar modernizar a magia antiga, um conceito que lhe parecia mais do que empolgante.
O Demônio levantou-se do seu assento na biblioteca mental e dirigiu-se à área aberta no centro, onde havia vasculhado suas memórias para tentar recuperá-las.
Na frente dos seus olhos, começou a desenvolver o feitiço com palavras que havia descoberto até então. Primeiro, usou as letras e símbolos no geral para integrá-las no círculo mágico do feitiço. Por sorte, Eiro encontrou algumas palavras que significavam coisas como ‘frio’, ‘gelo’ e ‘geada’. Para utilizar de forma correta a forma como as palavras na Linguagem Antiga eram escritas, Eiro criou um círculo mágico em camadas, em vez de um plano.
Estava atribuindo a cada camada diferentes aspectos para cuidar, em vez de simplesmente adicionar letras nas diferentes camadas, para melhor estabilidade e, com sorte, funcionalidade. Isso tornava o feitiço mais difícil de criar, mas não era um problema para Eiro. Já que não estava tentando criar uma versão nova e mais simples do feitiço, e sim apenas uma versão que fosse profundamente integrado com a Linguagem Antiga.
Ao mesmo tempo, estava pensando em que tipo de feitiço vocal poderia criar para isso. Normalmente, a partir da sua compreensão dos aspectos vocais de outros feitiços, geralmente se pedia a ajuda de outra pessoa, geralmente um ser ‘superior’, para ajudar a conjurar o feitiço. Mas Eiro não tinha certeza se esse ser superior tinha que ser o ‘deus’ e ‘deusa’ genéricos usados para se referir ao conjunto de seres divinos, ou se poderia se referir aos seus próprios ‘seres superiores’, como os Reis e Rainhas dos Espíritos dos vários elementos.
Então, para testar, Eiro chamou a Dama do Inverno para esse feitiço baseado em gelo. Na maioria dos feitiços com aspectos vocais da Magia Espiritual, parecia que já se chamava a ajuda do Espírito para conjurar o feitiço, então era muito provável que funcionasse. Eiro duvidava muito que houvesse alguém monitorando o que os conjuradores diziam, ao considerar que era capaz de conjurar quase qualquer feitiço sem o aspecto vocal. Ele simplesmente o tornava mais estável e, ao mesmo tempo, mais poderoso do que antes, embora para Eiro a diferença fosse mínima.
O tempo que ele conseguia ao desenhar instantaneamente o círculo mágico e ativá-lo, em vez de ter que proferir todo o feitiço, compensava a minúscula quantidade de poder perdida em sua ativação.
Eiro criou o cântico do feitiço, que traduzido, dizia, ‘Ó minha dama, que governa o inverno, cubra o lugar ao meu redor com uma geada profunda.’
Assim que terminou o cântico, estava pronto. Respirou fundo e esticou suas asas. Eiro pulou e olhou ao redor. Havia um campo vazio perto daqui. O Demônio vestiu sua máscara, já que Bavet estava descansando em algum lugar da vila, e depois voou até o campo vazio.
Assim que pousou, levantou a mão e começou a construir o círculo mágico, repetindo o encantamento diversas vezes enquanto o fazia. Eiro teve que ajustar a velocidade com que construía o círculo mágico para que pudesse terminar no momento exato em que terminasse de falar o cântico.
Sua mana foi retirada de seu corpo e entrou no centro do círculo mágico assim que ele foi ativado. No instante seguinte, o ar rapidamente esfriou. Geada cobriu a grama, as folhas e os troncos das árvores que estava na frente do Demônio. Em um círculo enorme ao redor de Eiro, alcançando 50 metros em diâmetro devido à mana que ele usou no feitiço, a área foi congelada. Como se a temperatura tivesse repentinamente caído para menor que zero.
O calor emitido pelo corpo de Eiro gerou uma névoa devido à mudança repentina na temperatura base do ar, quase escondendo todo seu corpo.
— Isso… Isso é bem efetivo, não é? — comentou Nelli surpresa, e Eiro acenou a cabeça.
— Sim, é… Mas por quê? — questionou. Ele não esperava que esta área esfriasse com tanta facilidade. Ser capaz de afetar uma tão grande assim quase instantaneamente era mais do que útil, e ele não conhecia muitos feitiços assim. Pelo menos, nenhum com esse nível de eficácia.
— Hum… — murmurou Eiro. — Espera, vamos tentar uma coisa…
O Demônio saltou e voou rapidamente, afastando-se da área congelada, até o prédio principal da vila. Correndo pelas portas e entrando no depósito com facilidade.
Havia um Goblin trabalhando ali, e Eiro olhou para ele com um sorriso.
— Traga me todas as pedras mágicas de gravidade. Agora — ordenou, e o Goblin inclinou a cabeça para o lado confuso.
Eiro colocou a mão no bolso e retirou a pedra mágica de gravidade ‘vazia’ que tinha, que já havia consumido toda sua magia. Ela ainda matinha a maior parte de sua cor, embora tivesse perdido um pouco do seu brilho. Eiro pensou em pedir a Armodeus para fazer algo com ela, já que esse tipo de pedra mágica frequentemente era usado para propósitos decorativos.
De qualquer modo, o Goblin pegou a pedra mágica que Eiro o entregou e se virou apressado, enquanto Eiro fechava os olhos e entrava em um estado meditativo. Queria focar toda sua capacidade mental nisso. Havia descoberto algumas frases em que palavras relacionadas à ‘peso’, ‘massa’ ou mesmo ‘gravidade’ diretamente faziam sentido.
Eiro ia concentrar toda sua análise nessas áreas em particular para tentar decifrar tudo. Afinal, se removesse todas as partes que transformavam o feitiço anterior em uma versão baseada em geada, teria uma versão base para criar feitiços que afetavam grandes áreas.
Se então alterasse as runas e alguns dos padrões para criar algo que aumentava o peso ou o nível de gravidade afetando todos nesta área, exceto ele mesmo… Seria uma forma de Eiro incapacitar muitas pessoas sem necessariamente feri-las.
Ou melhor, que faria com mais frequência… uma forma de impedir que sua presa fugisse dele, tornando a caçada muito mais fácil.
…