A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 428

A Virtude do Demônio

Eiro olhou para os três monstros chefes na sua frente, cada um deles em sua nova forma humana graças aos artefatos artificiais que deu para eles.

Gobo se transformou em uma pessoa pálida, quase humana. Eiro não sabia exatamente o que ele parecia, mas de qualquer forma se passaria por uma pessoa. Kitsue simplesmente se transformou em uma Mulher-Besta, como esperado, então o máximo que aconteceu foi perder pelo na maior parte do seu corpo.

Quanto a Boju, ele se transformou em um jovem de pele escura, e até as tatuagens de chefe tribal que tinha em seu corpo mudaram de cor junto com sua pele, adequando-se à nova forma física de Boju. Esses três definitivamente se passariam por pessoas, isso era uma certeza.

Eiro ficou feliz que tudo funcionou. Esses artefatos foram customizados perfeitamente para esses três, mas os outros que trouxe com ele eram diferentes. A única coisa com que precisavam se preocupar era que a distribuição fosse feita de acordo com a raça. Um artefato de ‘transformação’ feito para um Orc causaria efeitos estranhos quando usado por um Goblin.

— Tenho uma dúzia deles no total. Quatro para cada uma das raças aqui na cidade por ora. Entreguem-nos para aqueles que precisam andar por aí para cumprir seus trabalhos. Aqueles com mais chances de encontrar pessoas, pelo menos — disse Eiro. — Posso ser capaz de trazer mais no futuro, mas precisamos produzir artefatos específicos para os servos que levarei comigo primeiro. Afinal, serão aqueles com maiores possibilidade de realmente encontrar pessoas.

— Mestre, isso parece estranho… — comentou Gobo, e Eiro sorriu para ele.

— Não se preocupe, você se acostumará e não precisa usá-lo por muito tempo, apenas em emergências. Caso contrário, pode mantê-lo desativado — explicou o Demônio a eles, enquanto se levantava lentamente.

— Agora, acho que isso é tudo por ora — ressaltou Eiro e, mais uma vez, moveu a mão em um movimento de retirar um livro de sua Tesouraria, só de que desta vez era um tomo velho escrito na Linguagem Antiga. Encontrou-o há algum tempo e o utilizou constantemente para tentar aprender a Linguagem Antiga, mas sempre que o fazia, esqueceria os significados que aprendeu. Ele anotava tudo, então lentamente acumulou uma lista de significados para diferentes palavras, mas ainda era impossível encontrar algum tipo de lógica nas palavras ou frases. Como se fosse algum tipo de maldição conjurada sobre a própria linguagem.

Mas agora, tinha uma maneira de aprender. Era perfeito. Seria capaz de aprimorar seus feitiços bastante assim que descobrisse como. O Demônio saiu e logo estava na frente da laje de pedra. Parecia que a área havia sido um pouco limpa, mas, fora isso, estava tudo intocado.

Eiro ficou feliz com isso, pois, caso contrário, eles poderiam ter destruído alguns dos efeitos da laje. Ao mesmo tempo, a caverna oculta também estava logo atrás dele, então seria capaz de continuar usando-a como seu espaço pessoal enquanto estivesse aqui.

Eiro sentou-se na laje, enquanto os três chefes olharam para ele com curiosidade. O Diabrete levantou as sobrancelhas.

— O quê, algo errado? — perguntou, e eles menearam a cabeça.

— Claro que não, Mestre! Mas o que exatamente você está tentando fazer? — Perguntou Gobo, muito curioso. Pois parecia que sempre que Eiro fazia algo com tanta determinação assim, ele estava fazendo algo incrível.

— Bem, só vou estudar um pouco — explicou Eiro com um sorriso. Gobo pareceu um tanto desapontado.

— Es-Estudar?

— Sim, estudar. O quê, você esqueceu o que essa palavra significa desde que eu o deixei aqui de novo? — questionou o Demônio com um leve sorriso, mas Gobo meneou a cabeça, nervoso.

— Não, claro que não! Eu estudei tudo o que me ensinou, Mestre! Sempre que tive tempo!

— Bom! Eu teria te reprimido se tivesse mentido — comentou Eiro, enquanto inseria mana na laje sob ele e redirecionava o fluxo que se reunia ali para seu próprio corpo. Ao mesmo tempo, estava fundindo o caos gerado tanto pela laje quanto por ele mesmo com a ajuda da armadura, na esperança de que o permitisse estudar a linguagem.

O Demônio abriu o livro e olhou para as palavras, com Nelli e Gondos segurando suas anotações ao lado do livro. Deixou que Sarius vagasse por um tempo, já que ele tinha a tendência de queimar tudo o que tocava.

Rapidamente, Eiro conseguiu decifrar os princípios básicos dessa linguagem. Padrões nas letras e palavras. A forma como os diferentes símbolos antigos se conectava de forma suave, permitindo a escrita sequencial. Era como se cada palavra fosse um símbolo próprio, composto pelas letras como pedras de construção.

A escrita não era linear como a Linguagem Comum. As letras eram colocadas uma ao lado da outra na Linguagem Comum, enquanto na Antiga eram posicionadas em padrões diferentes: umas sobre as outras, lado a lado ou até mesmo sobrepostas. No geral, a Linguagem Antiga parecia composta de 53 letras individuais e únicas, pelo menos pelo que conseguia dizer.

Com uma quantidade tão grande de letras, era mais do que possível que algumas fossem tão raramente usadas que ele ainda não as tivesse percebido.

Mas, por ora, uma vez que alcançou esse ponto, sentiu que havia progredido. Então, concluiu que deveria arriscar perder todo esse progresso.

Fechou o livro e deixou sua mente vagar por alguns instantes. Olhou para o cenário da vila que se estendia até o outra lado do desfiladeiro à sua frente.

Após alguns segundos, tentou lembrar da informação.

— Escrita não linear, 53 letras… — murmurou, antes de sorrir amplamente ao se recordar de todas as letras individuais. Parecia que esta laje realmente funcionava. Não tinha ideia de como, mas ela claramente estava conectada à Magia Arcana. Ele não pôde deixar de se sentir animado com isso. Fazia tanto tempo, e agora finalmente descobriu como aprender a Linguagem Antiga.

Assim, continuou tentando aprender. Pouco a pouco, tentando analisar os textos independentemente da orientação das palavras em relação umas às outras, e foi capaz de aprender cada vez mais significado das palavras.

Era incrivelmente completo, o que o fez perceber por que ele só conseguia decifrar o significado de algumas dezenas de palavras e anotá-las. Por sorte, o aspecto da fala não era tão difícil de entender. Havia muitos feitiços criados com cânticos, transmitidos desde a época em que Linguagem Antiga ainda era amplamente utilizada. Portanto, existiam versões ‘comuns’ da Linguagem Antiga para registrar a pronúncia dessas palavras. O fato de usar essa versão ‘comum’ para anotar as palavras da Linguagem Antiga que já havia ‘aprendido’ antes pode ter sido o motivo pelo qual conseguiu se lembrar delas e de seus significados.

Mas agora, Eiro não tinha que depender mais apenas disso. Em vez disso, não só conseguia decifrar o significado de certas palavras ao compará-las com feitiços que conhecia, como também conseguia decifrar a forma como certas letras eram pronunciadas em diferentes configurações com outras letras.

Sempre que descobria não apenas o significado, mas também a pronúncia de uma palavra, ele a anotava em um livro grosso e em branco que comprou para criar um dicionário da Linguagem Antiga para si mesmo.

Então, depois de um pouco de trabalho, Eiro parecia ter superado qualquer obstáculo que normalmente o impedia de aprender a Linguagem Antiga, e a notificação que queria ver apareceu na frente de seus olhos.

[Parabéns! Habilidade <Entendimento da Linguagem Antiga (Iniciante)> Aprendida!]

Com um sorriso no rosto, Eiro passou os dedos pela notificação para se livrar dela e, segundos depois, desceu da laje para testar se Merlin estava certo.

Se Eiro conseguisse aprender a Linguagem Antiga agora, quando estava separado da laje, então tudo estava indo perfeitamente bem.

Desse modo, Eiro continuou a examinar o tomo escrito na Linguagem Antiga para tentando decifrar outra palavra. Pouco a pouco, ele a analisou e, logo, compreendeu a palavra. Fechou o livro, deixando sua mente vagar mais uma vez, e tentou se lembrar da palavra.

E assim o fez. Com um grande sorriso no rosto, Eiro guardou os livros. Agora que conseguia aprender a Linguagem Antiga sem a necessidade da laje, também podia confiar na biblioteca em sua mente. Enquanto estivesse lá, conseguiria fazer coisas enquanto o mundo externo estava desacelerado, tudo dependendo de quão rápido sua mente conseguia processar a informação. Claro, como tinha habilidades que aumentavam a velocidade de processamento, Eiro conseguiu manipular os efeitos dessas habilidades e sobrepô-las, concentrando-se na velocidade de aprendizado e compreensão de informações brutas.

Em troca, isso reduziria sua velocidade de reação e capacidade de se concentrar naquilo que seus sentidos perceberiam fora do seu corpo. Mas, assim, seria capaz de criar um dicionário que incluía todas as palavras contidas naquele grosso tomo que tinha consigo, e isso em apenas alguns dias.

…

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