A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 427

A Virtude do Demônio

Eiro olhou para os três chefes dos monstros à sua frente. A princípio, nenhum deles ficou particularmente animado com a ideia de colocar esse tipo de coleira nos monstros da vila, mas, no fim, era algo que tinha que ser feito se todos quisessem viver em paz.

Todos concordaram em usar este método, antes que Eiro prosseguisse para o próximo tópico.

— Muito bem, então. Em termos de agressão e monstruosidade, houve algo do tipo entre aqueles que já tiveram sua monstruosidade selada?

— Sim, houve — admitiu Boju. — Pensamos que talvez você poderia dar uma olhada neles? Talvez tenha havido alguns problemas quando você os selou?

— Não, não houve problemas durante o selamento. Boju, mesmo entre os Orcs das Terras Altas, uma raça que possuía monstruosidade extremamente baixa em primeiro lugar, deve ter havido crimes. Nesses casos, o problema não é a monstruosidade, é simplesmente a personalidade deles — explicou Eiro. — É uma pena, mas algumas vezes há quem cometa crimes por diferentes motivos. Grande parte dos crimes surge de circunstâncias. Aqueles que pensam que são tratados injustamente e, muitas vezes realmente são, recorrem ao crime para compensar o tratamento injusto que receberam de alguma forma. Se isso acontecer com apenas alguns indivíduos, aqueles que são exceção, fale com eles e tente resolver seus problemas.

— Mas isso não será um pouco de desperdício de tempo? — perguntou Gobo, e Eiro meneou a cabeça sem hesitação.

— Claro que não, e não estou falando de vocês em particular, quero dizer os guardas que vocês posicionaram ao redor da vila. Quero que vocês os transformem em algum tipo de força policial que cuida da ordem na vila à medida que ela continua a crescer. No momento, eles não têm muito trabalho, então quero que vocês lhes deem trabalhos.

— Ah, entendo. Isso faz sentido! — exclamou Boju. — Porém, você disse que devemos fazer isso se houver problemas com indivíduos… Devemos tratar a situação de forma diferente quando há mais pessoas envolvidas?

— Exatamente. Você entende rápido — Eiro sorriu levemente. — Se há algum problema com grupos de monstros, e cada vez mais coisas acontecessem conforme a quantidade de monstros aqui aumenta, então você precisa avaliar se já algo errado com o sistema de governo desta vila. Eu preciso que você entenda exatamente como fazer isso antes de expandirmos o tamanho deste lugar para o de uma cidade no futuro.

Boju estava fazendo anotações do que precisavam fazer sob as ordens de Eiro, enquanto Gobo e Kitsue simplesmente escutavam.

— Existe mais alguma coisa que precisa de nós, Mestre? — perguntou Gobo, e Eiro pensou a respeito.

— Bem, se conseguirem, criem um sistema novos trabalhos para os monstros desta vila. Seja agricultura, mineração, construção, caça ou até mesmo buscar por novos monstros para integrar na vila. Queremos que todos tenham algo a fazer, para que ninguém fique ocioso. Com exceção das crianças, idosos, enfermos e feridos, é claro.

Eiro se inclinou para trás em seu assento e cruzou as pernas.

— Acho que isso é óbvio, mas se precisarem de ajuda para resolver essas coisas, entrem em contato comigo imediatamente. Deixarei um item mágico para que vocês possam fazer isso, mas, por ora, quero ouvir algo de vocês. Contem-me como estão as coisas na vila e o que precisam de mim agora.

Conseguirei o que precisarem, se for possível.

Kitsue resmungou alto.

— Está tudo bem com meus Kobolds, mas os Goblins idiotas de Gobo continuam tentando lutar com eles! Eles só causam problemas!

— Como eu já te disso, eles não estão tentando lutar, estão tentando duelar contra eles, como um esporte, no tempo livre deles. Porque seus Kobolds preguiçosos não fazem nada além de ficar à toa e bancar os poderosos, meus Goblins vão odiar ainda mais os seus Kobolds. O que o Mestre quer de nós é uma vila unida, e não uma dividida desse jeito! — respondeu Gobo, mas Kitsue não pôde deixar de zombar.

— Você está chamando os meus Kobolds de preguiçosos? Quem é que fica sentado no mesmo lugar por horas, surtando quando é interrompido, hein?

— Eu já te disse um milhão de vezes antes, mas estamos meditando. Estou ensinando aqueles com talento para magia como manipular a mana e como manter a mente calma!

— Querem saber o que vai manter todos vocês, idiotas, calmos? Eu conto se você chupar meu p-

— Kitsue — Eiro a interrompeu. — Como vocês conhecem essas palavras?

— B-Bem, de vez em quando aparecem aventureiros por aqui… E como eles são os mais habilidosos da vila, Gobo e Kitsue são os que saem e se certificam de que não causem problemas… — explicou Boju, e Eiro cruzou os braços irritado.

— Ótimo, é melhor vocês dois pararem de lutar tanto, ou um de vocês vai acabar morto algum dia. Se puderem fazer, os dois.

— S-Sim, Mestre… — ambos disseram em união, antes que Eiro continuasse.

— E os Orcs das Terras Altas? Como eles estão?

— Oh, esses caras são absolutamente perfeitos — comentou Kitsue, e Gobo não pôde deixar de concordar. — Cada um deles já possui sua própria tarefa, então eles continuam fazendo isso e todos ficam felizes. Funciona muito bem para manter uma base sólida para a vila, sobre a qual podemos construir.

— Bom — sorriu Eiro, aliviado. — Bom trabalho, Boju. Agora vocês dois — disse Eiro, olhando para Gobo e Kitsue. — Primeiro, não há problema se os Kobolds querem ficar ociosos durante seu o tempo livre. Eles podem escolher o que querem fazer nesse período, e os Goblins não devem tentar forçá-los a participar de algo que não querem.

— Ha! — riu Kitsue, encarando Gobo com uma expressão vitoriosa.

— No entanto… Isso não significa que os Kobolds devem ser completamente separados dos Goblins. Duelar faz parte da diversão dos Goblins, e se eles querem fazer amizade com os Kobolds, a consequência lógica seria convidar os Kobolds para duelar com eles, ou pelo menos para assistir. Kitsue, você deveria entender que é irritante quando você convida alguém para fazer algo que você gosta e essa pessoa age como se você fosse louco ou um incômodo.

— Hah! — Gobo riu desta vez, mas Eiro revirou os olhos.

— Mas vocês querem saber qual é o principal motivo para a animosidade entre os Kobolds e os Goblins nesta vila? — questionou Eiro, levantando-se lentamente enquanto contornava a mesa. Logo, parou exatamente entre Gobo e Kitsue.

— Levantem-se, vocês dois — comandou o Demônio com um tom severo. O Goblin e a Kitbold fizeram como ordenado e ajoelharam-se na frente de Eiro. O Diabrete se inclinou na direção deles, colocando as mãos sobre as cabeças deles e, com um movimento rápido, bateu as cabeças uma contra a outra.

[Gobo -123 de Vida]

[Kitsue -165 de Vida]

Eiro viu essas mensagens aparecerem na frente dos olhos deles.

— Vocês dois, parem de brigar assim, entendido?

Kitsue sibilou alto enquanto segurava a cabeça com dor enquanto Gobo se levantava lentamente, também segurando a cabeça.

— Não estou dizendo para se darem completamente bem, mas pelo menos sejam um bom exemplo quando estiverem na frente dos monstros da vila. Se eles virem seus líderes brigando, eles acabarão brigando também. Então, finjam na frente deles. Mas, se, na próxima vez que eu vier aqui, alguém me contar que viu vocês dois brigando em público, vou bater a cabeça de vocês com ainda mais força; o mais forte que eu puder.

Com essas palavras, Eiro caminhou até a parede rochosa, pressionando as pontas dos dedos contra sua superfície. Empurrou a mão e apertou os dedos, fazendo rachaduras aparecerem devido à pressão imensa que estava criando. Arrepios percorrem os corpos dos dois monstros ao lado de Eiro.

O Demônio reparou a parede com magia de terra, enquanto retornava ao seu assento.

— Além disso, gosto da ideia de todos da vila participarem de duelos, se quiserem. Nunca é ruim que eles consigam se proteger adequadamente por conta própria. Vou enviar alguns itens para esse tipo de coisa, eles lutam sem armas, certo? Então, darei algumas bandagens para vocês enrolarem ao redor das mãos, só para proteger um pouco os músculos e as articulações. Falando nisso, também trarei mais materiais para fabricação de armaduras que são difíceis para vocês conseguirem. Vocês precisam de algo nesse sentido?

Os três chefes pensaram por um instante, antes que Boju sugerisse algo.

— Cavamos um túnel em parte do desfiladeiro e encontramos um bom local onde podemos começar a plantar sem que ninguém nos veja quando chegar a primavera. Temos algumas sementes básicas, mas seria ótimo se conseguíssemos mais, e sementes de melhor qualidade…

— Hum, claro. Vou preparar uma quantidade e enviar antes que o inverno acabe — respondeu Eiro. — Precisam de alguma coisa em termos de provisões até lá?

— Provisões diretamente não, mas os Orcs com tarefas baseadas em cozinhar querem tentar formas de preservar a comida por mais tempo. Coisas para isso talvez seja uma boa ideia? — sugeriu Boju

Eiro pensou a respeito por um instante antes de acenar a cabeça.

— Parece uma boa ideia. Vou tentar negociar o fornecimento de sal e te darei alguns livros sobre preservação de comida para você ler. Sei que defumar é uma boa forma de preservar carnes, então prepare um espaço amplo nas paredes de alguma caverna que retenha bastante calor e possa ser fechado.

Conheço alguns tipos de madeiras excelentes para isso também, então vou tentar enviar para vocês — explicou Eiro, anotando mentalmente tudo o que precisava para a vila.

Gobo esfregou a cabeça mais uma vez enquanto olhava para Eiro.

— Mestre, o que exatamente você quer fazer até amanhã? Podemos ajudar de alguma forma?

Eiro deu de ombros.

— Quero testar algo que ouvi dizer, além disso, vou ficar aqui e garantir que a distribuição das coleiras corra bem — respondeu o Demônio. — Oh, falando em distribuição…

Eiro colocou a mão na sua bolsa, retirou três caixas pequenas e as jogou para cada um dos chefes da vila.

— Caso encontrarem algum aventureiro por aqui novamente, vocês precisarão disso. Não dá para modificar muito essa versão mais simples, mas ainda é muito útil para vocês. Oh, se algum de vocês evoluir e notar alguma coisa estranha com isso, é só me avisar e eu consigo novos para vocês.

— Mestre, o que é isso? — perguntou Gobo, que abriu a caixa que recebeu e viu uma pulseira fina. Imediatamente, a colocou no pulso, e ela se encaixou perfeitamente, como se fosse uma segunda pele.

— Injete sua mana nela — instruiu Eiro, e Gobo assentiu lentamente enquanto fazia como dito. Ao fazê-lo, a cor de sua pele mudou, passando do que era antes para a de um humano de pele clara. No geral, a aparência de Gobo mudou, e as partes que o faziam parecer especialmente com um Goblin, suas garras, presas, orelhas, língua e olhos, foram transformados em características que se veria em uma pessoa, embora não necessariamente um humano.

Essa era um artefato especial criado especialmente para Gobo para que ele pudesse parecer como uma pessoa quando precisasse.

…

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