A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 422

A Virtude do Demônio

— He… — Arc riu um pouco, após escutar o que seu pai acabou de dizer. — Você certamente gosta de se gabar, hein pai?

— O que você quer dizer, ‘se gabar’? Tudo isso aconteceu — comentou Eiro, e Arc deu de ombros.

— Claro, só porque você está se gabando não significa que você está mentindo, mas você não precisava recontar tudo o que fez — disse Arc, incapaz de conter seu sorriso. — De qualquer forma, acho que vou deixar vocês dois sozinhos, antes que todas aquelas garotas desçam — adicionou ele, e rapidamente voltou para dentro.

Eiro suspirou ao se voltar para Ariella, que ainda processava todas essas informações.

— Então, você está me dizendo que você é realmente um Diabrete? — perguntou ela, e Eiro acenou a cabeça.

— Yeah, é isso que estou dizendo, mas após algumas evoluções únicas, realmente não tenho muito mais em comum com Diabrete.

— Hum, acho que isso é… razoável… quero dizer… nas poucas vezes que evoluí, eu não mudei muito… Na primeira vez que evolui, ganhei asas e, na segunda, chifres. Depois disso, só mudou um pouco a forma deles — explicou Ariella. — Então, acho que não esperava que você mudasse tão rápido.

— Bem, você não é um monstro ‘real’ no fim do dia. Você nasceu com um corpo que se desenvolverá em uma forma humanoide verdadeira, e você nem possui monstruosidade. Tecnicamente, você é um monstro, mas sabe, não… tanto quanto eu, por exemplo.

— Acho que faz sentido. E eu nunca ficava por perto para verem os monstros evoluírem demais, normalmente apenas os matava — disse Ariella, sentindo-se um pouco mal por sua reação e palavras.

Eiro sorriu e acenou a cabeça.

— Comigo também foi assim, então não se preocupe com isso. Eu ainda mato. Só porque sou um monstro não significa que não mato outros monstros.

—… Um Diabrete, sério? Isso parece tão… uau — repetiu Ariella, e Eiro soltou um leve suspiro.

— Podemos mudar de assunto por enquanto? Podemos falar sobre isso outra hora, se quiser — comentou o Demônio. — Por ora, quer saber mais sobre a vila? — sugeriu Eiro. — É bastante interessante. Monstros possuem formas de viver em sociedade muito diferente das pessoas.

— Hm? Sério? Certo, conte-me sobre isso — respondeu a Nefilim com um sorriso suave no rosto.

***

Eiro estava sentado nas costas de Lugo, acompanhando a carruagem a caminho da Academia. Lecionaria sobre os Familiares, então era óbvio que precisaria do seu próprio para isso.

Mas, ao mesmo tempo, atraiu um pouco de atenção, já que não havia praticamente ninguém que não ouviu sobre o novo Barão, e o Cervo era um ótimo identificador. Não que Lugo não atraísse atenção normalmente.

Logo, chegaram à Academia e, depois que as crianças descerem da carruagem, ela foi levada por um dos cavalariços. Outro estava tentando levar Lugo, mas Eiro olhou para ele e balançou a cabeça.

— Ele é meu familiar, vou levá-lo comigo.

— E-Em, senhor, não acho que você possa fazer isso… — disse o cavalariço, e Eiro só suspirou.

— Bem, acho que posso. Vou limpar os cascos dele antes de entrar, os corredores e batentes são grandes o suficiente, e vou usar caminhos em que não incomode ninguém. Acho que ficará tudo bem se eu levar meu familiar comigo. Só preciso dele por cerca de três horas, quando terminar vou levá-lo para os estábulos — explicou Eiro.

O cavalariço ficou um pouco incerto, mas achou que não tinha problemas se um dos professores disse isso.

— Então peço desculpas pela minha grosseria.

— Não se preocupe com isso, você só está fazendo seu trabalho — Eiro sorriu e entrou no prédio, seguido pelas suas crianças. Uma após a outra, elas se separavam para irem às suas respectivas aulas, enquanto Eiro se dirigia à aula ‘Introdução aos Familiares’.

Entrou na sala e sentou-se na mesa na frente, esperando que os estudantes chegassem enquanto lia um livro. Seus alunos entraram na sala e começaram a murmurar quando viram Eiro e o Cervo ao lado dele. Assim que todos chegaram, o Demônio se levantou e sorriu para eles.

— Agora, como já conheço todos vocês, está é a oportunidade perfeita para fazer este anúncio. A partir de hoje, meu nome não é mais apenas ‘Eiro’.

Recebi um sobrenome ontem à noite, mas, claro, não me importo muito com o nome que vocês usarem para se referir a mim, estão deixo a escolha de você. Podem continuar me chamando de Eiro, ou me chamar de ‘Sr. Daemonherz’, mas novamente, fica a seu critério. Responderei a ambos — explicou Eiro, mas foi só isso que disse, passando para o próximo tópico.

— Muito bem. Quem já possui alguma experiência lidando com familiares? Seja através de conhecidos, pais, parentes distantes ou mesmo por apenas ter lido sobre eles. Contem-me o que sabem — perguntou Eiro. No geral, parecia que todos tinham pelo menos ouvido um pouco sobre eles antes, mas a experiência ainda era bastante diferente entre os alunos.

— Então, vamos começar com o básico. Qualquer criatura pode ser um familiar. Animais, Bestas Mágicas, até Monstros. Não há nem mesmo uma limitação para Pessoas. Simplesmente é malvisto e, em muitos países, como este, é ilegal. Como os métodos exatos diferem para cada tipo de criatura que você deseja transformar em familiar, a cerimônia para transformar uma pessoa em um familiar foi propositalmente obscurecida ao longo dos anos, então nem tentem descobrir — disse Eiro. — É muito melhor se escolherem uma besta como seu parceiro, assim como a maioria dos magos costuma fazer.

Eiro se virou para Lugo com um sorriso.

— Há um equívoco comum que quero dissipar imediatamente de suas mentes, no entanto. Familiares não são servos. Eles são seus companheiros.

Parceiros. Qualquer um que possui um familiar completamente subserviente, não possui um familiar. Eles simplesmente escravizaram qualquer criatura como um familiar. Teoricamente, é semelhante, mas é uma deturpação do que realmente torna um familiar valioso.

Rapidamente, um dos alunos levantou a mão.

— Por que você iria querer um familiar que faz suas próprias coisas o tempo todo? Você não quer que ele te obedeça?

— Claro que sim, mas com essa lógica, grupos de aventureiros não existiriam. Seria apenas uma pessoa com servos que a acompanham. Deve haver um senso de confiança entre as partes envolvidas. Confiança mútua. Você deve ser capaz de confiar que seu familiar obedecerá aos seus comandos, e o familiar deve ser capaz de confiar que você cuidará da segurança dele como se fosse a sua própria — explicou Eiro ao estudante, mas parecia que, no geral, a turma ainda não estava convencida.

Eiro suspirou levemente.

— Um familiar não é um bichinho de estimação para brincar. Novamente, é um parceiro que ficará com você por toda sua vida. Em troca, você oferecerá o mesmo ao seu familiar. Ele é seu melhor amigo pelo maior tempo possível, e você é o dele. Não é um relacionamento entre dono e possuído, é um relacionamento entre dois seres em igualdade. É por isso que muitos perdem seus familiares, ao perder a confiança deles, o contrato que você firmou é anulado. Você quebrou sua promessa. Somente sob essas regras pode se ter um familiar de verdade e desfrutar dos benefícios que ele proporciona.

Mais uma vez, a turma não parecia muito convencida do porquê alguém entraria em um relacionamento em pé de igualdade, mas Eiro já explicou da melhor forma que pôde. Só tinha mais uma ideia.

— Okay, já que vocês não parecem convencidos, vamos tentar o seguinte. Abandonem o conceito de raça. Você é você. Você não é Humano, Elfo ou Anão. Você é simplesmente quem você é. Só imagine isso por um instante. Então, você conhece alguém, e parece que vocês dois se dariam muito bem.

Essa pessoa tem um cheiro um pouco mais forte que você, mas vocês não a julgam por isso. Assim, vocês dois escolhem trabalhar juntos ao entrar em um contrato um com o outro. Ela se torna se familiar e, tecnicamente, você se torna o familiar dela, mesmo que tenha sido você quem firmou o contrato.

Vocês vivem lado a lado, comem juntos e lutam juntos. Esse ser se torna seu melhor amigo. Que diferença faz se ele é um animal? Que diferença faz se você é humano? Ou um Elfo? Ou um Demônio saído direto do inverno. Coisas assim não importam em uma verdadeira amizade — explicou Eiro, esfregando a mão na cabeça de Lugo.

— E é por isso que estou com Lugo há aproximadamente oito anos. Eu o vi crescer. Eu o vi comer cada vez mais, até que ele não passava mais pela porta da nossa antiga casa. para onde eu ia, ele ia. Por sua vez, ele também me viu crescer. Ele sabe exatamente tudo o que há para saber sobre mim, e eu sei tudo o que há para saber sobre ele. É isso que constitui não apenas um bom relacionamento entre você e um familiar, mas um bom relacionamento entre qualquer pessoa que você ame, de qualquer forma, maneira ou formato que ela ou o relacionamento que vocês têm possa ter.

…

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