A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 423

A Virtude do Demônio

Eiro estava na sala de aula, explicando o que tornava especial o vínculo com um familiar. Então, um aluno fez outra pergunta.

— Há algum motivo em particular para escolher ter um familiar? Não seria mais simples apenas tentar domar alguma criatura? Neste caso você poderia ter mais de uma ao mesmo tempo…

— Bem… Se você pergunta assim, então… claro. Pode ser, mas a conexão entre você e um familiar é muito mais profunda. Vocês compartilham coisas um com os outros. Quando você cresce, seu familiar cresce com você, até certo ponto pelo menos. Habilidades que ganhar podem afetar seu familiar, e vice-versa. Isso não é algo que se pode adquirir com criaturas domadas. Não apenas isso, mas até certo ponto, é possível compartilhar seus sentidos com seu familiar. Comunicar-se com eles sem palavras. Essa é, na verdade, a razão pela qual essa arte foi criada — explicou Eiro.

— Vamos voltar à parte em que mencionei que é possível ter uma pessoa como familiar. Há muito tempo, havia uma certa tribo. Seus casamentos não eram apenas cerimônias como as conhecemos, mas cerimônias de familiares. Para fortalecer o vínculo que já tinham formado com suas emoções, eles se tornavam o familiar de seus parceiros.

— Então… — disse um aluno. — Não é como se você fosse casado com seu familiar? — alguns outros alunos riram, e Eiro balançou a cabeça.

— Claro que não. Tais relacionamentos não são tão simples, e a arte de formar contratos familiares é muito mais antiga do que essa tribo que mencionei

— contou o Demônio. — Não é disse que se trata. Um familiar é um parceiro em quem você pode confiar e ter ao seu lado em qualquer circunstância.

Se tudo der errado, você ainda podia confiar nele.

Ao ver que nenhum dos estudantes parecia se importar com este aspecto central de ter um familiar, Eiro prosseguiu para a parte que imaginou que eles realmente queriam ouvir.

— Mas é claro que existem certas maneiras mais ‘práticas’ pelas quais um familiar pode ser útil. Deixe-me mostrar a vocês.

Eiro colocou a mão nas costas de Lugo e criou um fluxo de mana entre eles. Normalmente, a mana de duas pessoas não poderia ser misturada, mas, neste caso, era basicamente como se Eiro e Lugo tivessem a mesma mana desde o início.

O Demônio respirou fundo e deu um passo para longe de Lugo, caminhando até o outro lado da sala. Então, acenou a mão. Na frente dos chifres de Lugo, como se estivessem os envolvendo, uma bola de vento se formou. Para mostrar o que estava acontecendo, Gondos apareceu e criou uma espécie de poeira feita de rochas para que o vento ficasse visível para os alunos.

— Com um pouco de prática, é possível conjurar magia usando seu familiar como intermediário. Claro, não é tão útil quanto vocês imaginam. O que eu fiz foi basicamente inserir a mana que eu queria usar para o feitiço dentro de Lugo, meu familiar. Acho que nunca utilizei isso na prática, porém existem muitas formas de isso ser útil. Digamos que… Lugo fosse mais discreto, em vez de tão grande. Digamos que eu formei um contrato com uma abelha, o que certamente é possível. Então, se eu conjurasse um feitiço de fogo através dessa abelha, isso possibilitaria muitas novas formas para o combate. E digamos que eu estivesse mais interessado em magia cerimonial, em que certos feitiços precisam ser invocados em lugares diferentes ao mesmo tempo… Um familiar também poderia ajudar com isso — explicou Eiro, olhando para Lugo.

Ele claramente se sentia um pouco tonto com isso, já que, de repente, sua mana foi desorganizada. Lugo realmente não foi feito para conjurar magia…

Era por isso que Eiro nunca usou isso antes, e por isso que recorreu a um dos feitiços mais simples e menos exaustivos em seu arsenal.

Eiro se aproximou de Lugo e acariciou a cabeça do Cervo para acalmá-lo.

— Claro, isso é apenas parte do que vocês podem fazer. Qualquer coisa além disso é mais… único para cada par de pessoa e familiar, dependendo do conjunto de habilidades que ambos possuem — explicou o Demônio.

A partir dali, a aula continuou com ele contando algumas histórias sobre pares que exibiram habilidades bastantes especiais. Ou pares que as pessoas simplesmente não esperavam que existissem. Pouco a pouco, os alunos ficaram mais animados com a ideia de ter um familiar, embora, na opinião de Eiro, pelos motivos errados.

Todos eles só queriam usá-los para se tornarem mais poderoso. Claro, o próprio Eiro também era obcecado com poder, mas Lugo não era parte disso.

Lugo era um Cervo preguiçoso, faminto e ligeiramente estúpido. E justamente por causa dessa conexão entre eles, Eiro sabia que não podia simplesmente usar Lugo para ganhar cada vez mais poder. Óbvio, ele queria que Lugo aprimorasse um pouco mais suas habilidades e subisse de nível agora que tinha a capacidade de fazer isso, mas isso apenas porque não queria deixar Lugo para trás.

À medida que Eiro se fortalecia, ele precisava menos de Lugo, e quanto menos precisasse dele, menos eles interagiriam. E isso era um pensamento triste, considerando que Lugo realmente era seu melhor amigo.

Ao término da aula, Eiro caminhou pela prédio com Lugo, embora um pouco mais frustrado do que antes.

Alguns alunos os pararam pois estavam curiosos com Lugo, mas isso apenas porque acharam Lugo ‘fofo’, um fato que claramente subiu à cabeça de Lugo. Com uma expressão presunçosa, ele olhava para Eiro, que continuavam caminhando.

— Eu entendi, você é mais popular do que eu — suspirou o Diabrete, e Lugo soltou um bufo pelo nariz. Os dois caminharam juntos pelo prédio, e Eiro cruzou os braços em contemplação. Haveria alguma forma de aproximar o conceito de familiar aos seus alunos? Porque certamente era valioso. Não podia recomendar para todos, já que nem todos se adaptavam bem a ter um familiar, mas, no geral, era uma experiência difícil de comparar.

— O que diabos esse animal está fazendo aqui? — exclamou uma voz familiar. Era alguém que Eiro esperava encontrar há alguns dias, mas que inesperadamente estava ausente por algum motivo. Hoje era o primeiro dia que ele retornou. Eiro olhou para ele com um sorriso.

— Olá, Merlin. Ele não é só um animal, é meu familiar — explicou ele, e o homem levantou as sobrancelhas, surpreso.

— Seu familiar? Um Cervo? — questionou Merlin, semicerrando os olhos. — Não me parece a escolha mais adequada, não é? Eu esperava algo parecido com um cavalo de guerra. Ou um Dragão Fada, com incrível controle inato que possuem sobre a magia, mas um Cervo comum…? Interessante.

— Você também tem um familiar? — perguntou Eiro a Merlin, que balançou a cabeça.

— Não mais. Ele infelizmente faleceu. Era um espécime maravilhoso, uma Besta Mágica conhecida como Cobra-Madeira. Ele servia como meu cajado, mas infelizmente… faleceu em uma batalha da qual, lamentavelmente, não pude evitar.

— Eu… eu sinto muito por isso — disse Eiro, mas Merlin meneou a cabeça, esfregando a própria barba.

— Não precisa se sentir mal. Já faz algumas décadas, afinal. Agora, ele é uma árvore grande e maravilhosa no meu jardim particular.

Eiro olhou para Merlin, feliz por haver pelo menos mais uma pessoa que apreciava os familiares além do que apenas por sua ‘utilidade prática’.

— Se me dá licença, tenho alguns outros assuntos para resolver — explicou ele, mas antes que pudesse sair, Eiro o encanou.

— Eu preferiria que você ficasse, preciso falar com você sobre Magia Arcana — explicou o Demônio, e Merlin levantou as sobrancelhas.

— Se deseja aprender mais sobre este tópico, então eu adoraria se você pudesse ir ao meu escritório mais tarde, mas, por ora, eu-

— Sou amigo de Armodeus, fui basicamente criado por Jura e recentemente lutei uma batalha lado a lado com Koperia. Esses são nomes familiares, não são? — perguntou Eiro, e Merlin o encarou.

— Jura…? Meu velho amigo… Nós crescemos juntos… Que nome nostálgico.

O sorriso de Merlin continuou aumentando conforme Eiro falava.

— Mas como eu não sabia que ele tinha um filho da sua idade? Eu ainda troco cartas com ele regularmente! — exclamou ele. — Claro, devido às circunstâncias, isso ocorre mais em segredo, mas trocamos cartas pelas menos uma vez por ano. Na verdade, estou esperando a carta dele há algumas semanas, mas ela simplesmente não chega.

—… Poderíamos ir ao seu escritório agora, talvez? — sugeriu Eiro, e Merlin acenou a cabeça.

— Claro. Isso é algo pelo qual posso adiar os assuntos que tinha em mente.

Em silêncio, Eiro e Lugo foram juntos até o escritório de Merlin. Eiro também tinha um tempo livre antes da próxima aula, então estava bem por ora.

Pegou o Ás de Copas e espalhou o líquido dentro dele ao redor do cômodo para que pudessem conversar em particular, sem terem que se preocupar com ninguém.

— Tenho ouvido falar muito sobre os trabalhos recentes dele, especialmente já que a habilidade dele de entalhar madeira já alcançou o grau Mestre, mas faz um tempo que não o vejo em ação. Isso significa que sua mão foi feita por ele? — perguntou Merlin, e Eiro balançou a cabeça.

— Não, não foi. Eu mesmo a fiz — explicou, e Merlin olhou para a mão de madeira de Eiro com atenção.

— É mesmo? Eu pretendia encontrá-lo há algum tempo. Talvez há um ou dois anos, na verdade, e infelizmente não foi possível, mas ele me enviou alguns pacotes com antecedência, pedindo minha ajuda. Ele estava tentando criar algum tipo de… boneco. Queria praticamente dar vida a ele, mas precisava da minha ajuda para garantir que ele pensasse direito. Era um projeto interessante. Me pergunto o que aconteceu com ele…

— Está aqui comigo na cidade. É um boneco de treinamento que Jura fez para mim, para quanto eu tivesse que deixar nossa casa — explicou Eiro, e Merlin o encarou um pouco confuso.

— Por que você teria que sair de casa? — questionou ele, e Eiro olhou fundo nos olhos do homem.

— Merlin. Você não achou estranho o fato de eu ter sentidos impossivelmente fortes? — perguntou Eiro, e Merlin parou por uns instantes.

— Você… Isso deve ser uma coincidência, certo? Jura te ensinou formas de aumentar sua percepção, não é mesmo?

— Merlin. Sinto muito, mas…

— Não… Eu sei. Acho que… percebi que essa hora estava próxima há algum tempo. Só não percebei que estava tão próxima assim. Ninguém pensa que vai conseguir viver mais do que alguém que é praticamente seu irmão mais velho.

…

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