A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 418

A Virtude do Demônio

Eiro olhou para o homem na sua frente, tentando pensar no que dizer. Então, a primeira questão que lhe veio à mente foi:

— Como você… Como você se tornou o Negociante Arcano? Meu filho vai se tornar alguém como você?

O Negociante Arcano começou a caminhar ao redor de Eiro com um sorriso no rosto.

— Tornei-me assim por meio de uma série de coincidências afortunadas. Renasci neste mundo e morri sob a influência de poderes superiores. Devido ao nível de força que alcancei, fui capaz de resistir à morte e me tornei assim usando o que restou dentro de mim.

— … As lascas?

— Exatamente. Eu tinha acumulado várias delas. E quando ganhei esse novo poder após morrer, aprendi como forjá-las em algo mais — explicou o Negociante Arcano, mas Eiro ficou confuso.

— E por que você fez isso? Por que criou as cartas? Por que criar monstruosidades como os Nobres? Por diversão?

— Oh… Bem, havia um grande desequilíbrio. Existiam monstros muito inteligentes e maravilhosos, mas todos eles estavam sendo massacrados pelas pessoas sem piedade. Portanto, assim como criei o Arcano Menor seguindo alguns conceitos que me recordava do meu antigo mundo, criei o Arcano Maior. Eu manipulei forças já existentes e transformei aqueles que possuíam as Cartas do Arcano Maior em peões do equivalente ao Herói dos monstros, o Rei dos Monstros. Isso criou um bom equilíbrio, não é?

— Equilíbrio? Tudo o que você fez foi criar mais caos, mais… morte. O que há de errado com você? — questionou Eiro com um olhar penetrante, antes que uma das figuras atrás do Negociante Arcano começasse a rir: o mago Elfo.

— Há! Estou começando a gostar desta criança — comentou ele e o Negociante Arcano se virou e sorriu para ele.

— Não é? Ele é bem interessante.

Devagar, o Negociante Arcano voltou-se para Eiro.

— Bem, de qualquer forma, o resto desse tópico será baseado em opiniões, então vamos prosseguir para sua segunda pergunta: não, o seu filho não irá se transformar no mesmo tipo de ser que nós somos. Eu nasci em outra época, uma época em que os deuses ainda caminhavam pela superfície deste mundo. Onde as pessoas não eram nada além de servos irracionais. Uma época em que essas ‘lascas’ ainda eram objetos de poder que os deuses empunhavam. Durante uma guerra entre dois desses deuses, aquele a quem minha família servia morreu. E eu consegui pôr as mãos na arma desse deus. Desde então, os deuses recuaram para seus reinos e quase todos os seus objetos de poder foram destruídos e distribuídos entre as pessoas na forma do sistema. Contanto que seu filho não ponha as mãos em um dos poucos objetos de poder que restam, não há necessidade de se preocupar — após a explicação do Negociante Arcano, Eiro ficou um pouco aliviado, depois olhou para as outras figuras.

— Então, nenhum de vocês é um deus? — perguntou o Diabrete.

O caçador Rhida balançou a cabeça.

— Não no sentido literal, mas hoje em dia há pouca distinção. Possuímos poder comparável a alguns deuses, afinal.

— Todos nós somos seres de natureza Arcana. Deuses são seres de natureza divina — comentou o guerreiro sem rosto. — Assim como o título dele é ‘Negociante Arcano’, nossos respectivos são Guerreiro Arcano, Mago Arcano e Caçador Arcano.

— Seres Arcanos… assim como existe a energia sagrada para a categoria ‘divina’, existe algo similar para vocês? — questionou Eiro e os quatro homens se entreolharam por um instante. O Mago Arcano então assumiu a tarefa de responder e explicar.

— Mana pura é de natureza arcana, eu diria. Não há outro tipo de energia arcana nesse sentido — declarou ele, e Eiro acenou a cabeça.

— Entendo… então-

— Terei que interrompê-lo. Você não é o único que deseja fazer pergunta — disse o Negociante, e Eiro se voltou para ele.

— Claro. Vá em frente.

— Agora, quem quer começar? — perguntou o negociante, olhando para os outros três, e o mago assumiu a iniciativa mais uma vez.

— Neste caso, eu gostaria. Dentre as disciplinas da magia e as formas de usá-la, a sua é uma das mais interessantes que já vi, mas por que você só usa a magia de dentro de si, em vez de usar a mana ambiente para conjurá-la?

— Tenho uma pergunta parecida — adicionou o Guerreiro. — Por que você desperdiça tempo lutando contra seus oponentes com tanta frequência? Sua mente e sentidos são poderosos, você não consegue sentir a intenção deles?

— … O quê? — perguntou Eiro e o Negociante Arcano também fez uma pergunta.

— Pois é, por que diabos você não está buscando as outras Cartas mais ativamente? Quero dizer, eu as criei com a intenção de que algo incrível acontecesse quando todas as cartas do mesmo naipe fossem coletadas. Por que mais você seria informado de quantas possui e quantas ainda precisa quando adquirir uma carta?

— Eu… — murmurou Eiro, mas, no instante seguinte, os seres já haviam desaparecido. O Demônio foi arrancado daquele sonho. Olhou para os lados e viu duas crianças deitadas ali. Avalin e Leon, aconchegados em seu pai, acordando-o no processo. Na verdade, foi o efeito que a Energia Sagrada de Avalin tinha no corpo de Eiro.

Eiro soltou um gemido, irritado por ter sua conversa interrompida. Parecia que estava prestes a conseguir informações insanas, mas perdeu a oportunidade. Com sorte, conseguiria falar com eles de novo.

Mas, por ora, decidiu que deveria dormir pelo resto da noite… não havia muito mais o que pudesse fazer com seus filhos deitados em cima dele.

De manhã, quando as crianças acordaram, Eiro também se levantou, levando-as escada abaixo.

— Então, vão me dizer por que vocês foram até minha cama noite passada?

Leon olhou para o pai e explicou:

— Você parecia estar com dor…

— Com dor? — perguntou Eiro, e Nelli flutuou ao lado dele.

— Você respirava com dificuldade, ofegando por ar… e agarrando os lençóis. Você quase os rasgou enquanto dormia. Então sim, parecia que você estava com dor. Os dois não conseguiam dormir, então foram até você e viram o estado em que você estava.

Eiro suspirou fundo.

‘Talvez o contato com aqueles seres não sejam bom para mim, afinal…’

Mas seu corpo parecia perfeitamente bem, então não houve nenhum dano permanente, pelo menos. Quem sabe se isso ainda seria verdade se permanecesse lá por mais tempo.

Com um sorriso, Eiro acariciou a cabeça dos seus filhos.

— Então obrigado por ficarem comigo, vocês dois.

 Eiro sentou-se na sala de estar, ainda exausto da noite passada, e fez as aranhas trazerem um pouco de chá.

— Todas vocês, comecem a arrumar alguns dos quartos dos servos. Estão muito bagunçados — comandou as aranhas, que partiram de imediato para fazer isso.

— Servos? — perguntou Armodeus cansado ao entrar na sala, e Eiro virou-se para ele.

— Sim, vou à vila dos monstros logo para trazer alguns para cá. Ah, certo, precisamos de mais artefatos artificiais copiados do artefato de Ariella.

— Você não poderia ter me falado sobre isso ontem à noite? Eu teria começado a fazer os preparativos — respondeu o Anão Ancião, embora tenha parado de repente, percebendo a situação em que estava. — Ei, rapaz… quando foi que eu me tornei seu artesão particular? E por que eu praticamente abandonei minha oficina em casa? — questionou Armodeus com um sorriso sarcástico e Eiro deu de ombros em resposta.

— Não estou te prendendo aqui. Claro, seria ótimo se você ficasse, mas pode sair quando quiser.

Armodeus resmungou baixinho para si mesmo, antes de olhar nos olhos de Eiro.

— Você sabe que não posso sair com o estado em que sua vida está. Você é praticamente o filho do meu melhor amigo, eu meio que tenho que cuidar de você.

Eiro sorriu enquanto se servia uma xícara de chá.

— Obrigado. É gentil da sua parte dizer isso, mas sério, se algum dia quiser voltar para Argberg, é só me avisar. Eu mesmo te levo voando até lá, se precisar.

— Agradeço, rapaz. Talvez eu aceite a oferta algum dia; quero checar como as coisas estão por lá.

— Tenho certeza de que você quer. Fiquei surpreso quando você saiu de lá sem pensar duas vezes.

— Eu recebi uma carta de emergência dizendo que todos nesta cidade haviam te esquecido, que você mesmo estava esquecendo tudo o que sabia e que isso podia ser irreversível… O que esperava que eu fizesse, rapaz? Que eu ficasse sentado assistindo?

Eiro riu.

— Justo. Ainda assim, obrigado. Eu aprecio sua ajuda — disse o Demônio, antes que outra coisa lhe viesse à mente. — Mas há mais uma coisa com a qual preciso da sua ajuda. Você conhece alguém com um trabalho do tipo ‘Arcano’? Alguém que lide com Magia Arcana?

— Arcano? — perguntou Armodeus. — Conheço um garoto que pesquisou coisas arcanas há um tempo, mas não o vejo há décadas.

— Huh… Você sabe onde ele está agora?

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