A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 417

A Virtude do Demônio

Ao término da noite, assim que a maioria dos nobres já havia voltado aos seus alojamentos, fosse em uma estalagem de alto nível da cidade ou suas próprias mansões, Eiro escolheu ficar mais um pouco e falar com Solomon.

Os dois foram até o escritório de Solomon e cada um se sentou em um sofá.

— Então, Eiro Jura Daemonherz, hein? — perguntou Solomon com um sorriso e Eiro acenou a cabeça.

— Sim. O Jura parece bastante óbvio, mas o Daemonherz foi escolhido por Arc.

— Oh, interessante. Sei o que um ‘Daemon’ é, pelo menos um pouco, mas o que ‘herz’ significa?

Eiro deu de ombros em resposta.

— Coração, aparentemente. Arc ouviu isso no lugar onde vivia.

Com um aceno, Solomon cruzou os braços.

— Hum, certo, acho que consigo ver como são semelhantes.

Eiro sorriu um pouco ao olhar para seu amigo.

— Vamos parar de falar sobre o meu nome. Tenho um plano para o que quero fazer com minha nova terra, mas queria conversar com você antes, para garantir.

— Contanto que você não desapareça com as montanhas, pode fazer o que quiser. Eu confio em você — respondeu Solomon de imediato e Eiro sorriu.

— Não se preocupe, não farei isso, mas planejo expandir ainda mais o espaço que compõe a vila dos monstros. Transformá-la em uma cidade de monstros, ou algo do tipo. No momento, estão minerando pedras mágicas, mas, em algum ponto, elas se esgotarão. Minas de pedras mágicas não são grandes, afinal.

Solomon levantou as sobrancelhas, surpreso.

— Não era esse o motivo principal para criar a vila em primeiro lugar?

— Mais ou menos. No começo era, mas agora é mais como… um investimento, se é que faz sentido. Um investimento e um experimento, embora eu não goste muito dessa palavra nesse contexto. Posso criar uma cidade de monstros que agem como pessoas? Monstros que não têm mais sua monstruosidade? Veja, como <O Mundo>, minha habilidade central será a ‘integração’. No entanto, outra habilidade que será concedida por essa Carta é algo como a ‘criação’ ou ‘expansão’. Ainda não tenho certeza. Não há muitos textos falando sobre <O Mundo> atualmente, mas já sinto que quero criar algo nesse sentido. Mostrar que nem todos os monstros são máquinas de matar irracionais. Alguns de nós são gentis. É só que existe uma força literal dentro de nós que nos impede de agir assim, exceto quando suprimida.

— E é por isso que você quer criar um lugar para mostrar isso para os outros? — perguntou Solomon e Eiro acenou com a cabeça.

— Algo do tipo. Você já sabe sobre meus planos de me tornar o Rei dos Monstros… e não sei que tipo de poderes obterei quando isso acontecer. Mesmo entre os monstros, já sou bastante especial. Talvez chegar a esse ponto me permita fazer mais do que os outros Reis dos Monstros, especialmente porque tenho minha monstruosidade sob controle.

— Você quer tornar todos os monstros dóceis?

— Não, eu não seria capaz de fazer isso. Apenas os deuses podem mudar algo assim, é… acho que nossa monstruosidade está diretamente conectada ao que nos torna ‘Monstros’. Se eu quisesse me livrar da minha monstruosidade, teria que matar todos os monstros e não é isso que quero — Eiro continuou a explicar. — Eu só… não quero que aqueles com potencial para serem muito mais do que bestas irracionais fiquem presos nesse mundo, sabe? Quero que seja possível para que os monstros fortes o suficiente em sua dedicação superem sua natureza, para que nem todos nós tenhamos que viver assim. Quando isso acontecer, esses monstros precisarão encontrar um refúgio. Este é o lugar que eu quero criar.

Solomon ainda sorria ao se recostar contra seu assento.

— E você quer fazer isso no meu país de todos os lugares? Bem, já imaginei que você queria criar esse lugar, então não posso dizer nada. Porém, de que forma você deseja expandi-lo?

— Não tenho certeza ainda. Há duas possibilidades: expandir para baixo, na forma de grandes sistemas de cavernas, ou se espalhar pela superfície das montanhas. A última seria muito mais óbvia e fácil de ser notada por outros, por isso estou considerando a primeira. No entanto, por outro lado, isso influenciará muito o desenvolvimento dos monstros naquela cidade, então ainda não sei.

— Hm… — murmurou Solomon. — Se precisar de materiais específicos para a expansão, é só me avisar e pensamos em uma forma de trocar um com o outro.

— Parece bom — respondeu Eiro, levantando-se. — Mas, por ora, acho que devo voltar para minha mansão e descansar um pouco. Acabei de matar um nobre, afinal.

— Claro, claro, vá em frente. Não queria mantê-lo aqui por tanto tempo — desculpou-se Solomon enquanto se levantava também e saía do cômodo junto de Eiro. Os dois continuaram conversando conforme se dirigiam à entrada principal do castelo, conversando sobre coisas banais que outras pessoas poderiam ouvir. Ter esse tipo de conversa de vez em quando também era bom.

Assim que saiu, Eiro subiu nas costas de Lugo e cavalgou até seu lar.

Eiro se encontrou em um espaço branco puro. Não conseguia ver nem a própria sombra. Para ser honesto, não tinha ideia se aquele lugar sequer possuía uma fonte de luz para criar sombras em primeiro lugar.

Havia apenas uma coisa da qual tinha certeza. Tinha ido dormir há alguns instantes, então por que estava neste tipo de lugar? Não era um sonho lúcido, era muito diferente dos que já teve. No momento, parecia que seu corpo real estava em outro lugar, como se estivesse aqui fisicamente.

Mas não importava o que fizesse, não conseguia sentir nada e não havia como acordar. Em um sonho lúcido, Eiro conseguia acordar quando quisesse com um estalar de dedos.

Eiro respirou fundo e esperou que algo acontecesse. Por ora, escolheu deitar-se, olhando para o céu deste espaço infinitamente branco. Era uma boa oportunidade para pensar sobre como gastar seus novos pontos de atributos.

Mas, de repente, sem que Eiro fosse capaz de senti-las, quatro pessoas apareceram atrás dele e começaram a conversar entre si.

O Demônio pulou imediatamente e olhou para elas. Eram as mesmas pessoas que viu naquela época, quando morreu durante sua luta com Edward.

O humano vestido em uma armadura cujo rosto era uma tela em branco, sem olhos, orelhas, nariz ou boca. O caçador Rhida, um tanto idoso. O mago Elfo baixo, com aquele cajado enorme e o humano vestido de forma estranha.

Eles estavam parados ali, conversando entre si como se Eiro não estivesse presente.

— O que são vocês? — questionou Eiro e os quatro viraram para ele.

— É bastante rude interromper os outros, não sabia? — o homem de armadura questionou e Eiro o encarou com um sorriso sarcástico.

— Você sabe o que também é rude? Me dar uma habilidade que me transformou em um amnésico que quase esqueceu permanentemente tudo o que era importante para mim.

— Oh, você se lembra daquela conversa? — pensei que eu tivesse apagado as memórias de quando te dei aquela habilidade — o homem em roupas estranhas disse. — Bem, nada que não possa ser corrigido.

— Por que eu estou aqui agora? Por que vocês me chamaram aqui? — perguntou Eiro e o mesmo homem inclinou a cabeça para o lado.

— Nós te chamamos? Pensei que você tivesse vindo aqui por conta própria?

— Pare de mentir para mim e me diga logo a verdade.

— Não, não, você realmente veio aqui por conta própria, embora eu também não saiba como — disse o homem, antes de erguer as sobrancelhas com curiosidade.

— Espera, você possui duas Cartas do Arcano Maior?

— Sim, e daí? — questionou Eiro e o homem começou a gargalhar.

— Nada, nada, agora eu entendo por que isso aconteceu. Você tem a habilidade de guardar itens em seu subespaço, certo? Bem, as duas Cartas do Arcano Maior reagiram entre si nesse espaço e agora que você está dormindo, sua mente foi levada ao criador delas.

— Então, você é de fato o Negociante Arcano? — perguntou Eiro e o homem sorriu com um aceno rápido.

— Sou eu mesmo, amigo. Bom, não importa, vamos te mandar de volta. Aliás, bom trabalho por não morrer uma segunda vez. Nós v-

— Nova Iorque? — disse Eiro de repente e o corpo do Negociante Arcano congelou enquanto seu rosto assumia um sorriso insano.

— Como você conhece o nome daquele lugar?

— … Então era isso mesmo? Você realmente é do mesmo lugar que Arc? Eu tinha uma leve suspeita, então perguntei para ele sobre alguns dos símbolos que lembrava de ver em suas roupas… Esses broches em particular — comentou Eiro, apontando para a bolsa que o Negociante Arcano carregava.

O mago Elfo aproximou-se dos dois e olhou para os símbolos.

— Eles parecem bastante aleatórios para mim.

— Cale a boca, estou falando com ele — interrompeu o Negociante Arcano com um sorriso amplo. — Sinto que esta conversa pode ser bem interessante.

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