
Volume 4 - Capítulo 416
A Virtude do Demônio
Eiro se virou rápido.
— Sinto muito, acabei de ver outra pessoa com quem eu queria conversar — disse ao Duque Melachine, que assentiu.
— É claro! Vá em frente, não deixe que eu o retenha aqui!
Assim, Eiro olhou para frente, encontrando o olhar de Evelyn James. Ela estava parada ali, agindo da forma mais calma possível, mas seu coração mostrava que estava muito nervosa. O Demônio caminhou devagar até ela, que não recuou. Eiro não sabia se era porque ela não queria ou porque estava muito nervosa.
‘Bem, não que se importe.’
— É bom vê-la novamente — cumprimentou Eiro. A mulher à sua frente cruzou os braços.
— O que você quer? Você conseguiu manipular a mente do Rei, então conseguiu o que queria.
Eiro resmungou e esfregou a ponte do nariz.
— Eu não fiz isso. Ainda não consegue entender que não sou um monstro normal?
— Há! Certo. Você não é. Se de fato matou <A Morte>, logo se tornará um nobre — respondeu Evelyn, mas Eiro ficou bastante irritado.
— Essa já é minha situação há muito tempo, já que também matei <O Mundo>. Ainda não sou um nobre, aliás, o que significa que, daqui a quinze níveis, você não terá mais chances contra mim.
— Eu te desprezo. Você me dá nojo. Criaturas como você não deveriam existir, sabia? — Com um olhar profundo, Evelyn o encarou, antes que outra voz intervisse.
— Ei, sua puta estúpida, quem você pensa que é? Eiro é o cara com quem eu fiz um contrato! Então, cala a porra da boca, beleza? — Sarius xingou Evelyn, que virou a cabeça, surpresa. No entanto, ela não estava impressionada.
— E daí? Você é apenas um Espírito de fogo de segunda categoria de qualquer forma!
— Como é? Quem você está chamando de segunda categoria, sua cadela burra? Eu estou destinado a ser o rei no futuro! Aliás, o atual Rei das Salamandras o abençoou, então desça do seu pedestal e ajoelhe-se diante desta lenda que está atrás de mim, vagabunda! — Sua voz ficava cada vez mais alta, até que Sarius gritou para Evelyn, fazendo algumas pessoas olharem nesta direção, enquanto Evelyn só ria.
— A tá, certo, boa piada. Por que o Rei das Salamandras abençoaria um De-
— Fique quieta, Evelyn. Você sabe a razão pela qual ainda não te matei, mas depois que o tempo passar e eu te esmagar na frente de todos da cidade, não terei mais motivos. Então, tenha cuidado com quem você antagoniza daqui em diante — disse Eiro sem rodeios, virando-se, mas o que surgiu na sua frente não era um caminho vazio para encantar outros nobres e sim um jovem parado atrás dele.
— O que você fez…? O que você fez para trapacear e chegar aqui?! — gritou ele e Eiro só revirou os olhos.
— Acho que você está sendo um pouco desrespeitoso com um dos seus professores, especialmente durante esta ocasião, Richard.
— Oh, quem se importa com desrespeito! Eu sou o filho de um duque, você é apenas a porra de um barão! Então… — a voz de Richard reverberou por todo o salão, antes que alguém puxasse seu ombro. Richard foi interrompido ao se virar. — Quem você pensa que é para me tocar desse jei-
Desta vez, Richard foi interrompido pelo som alto de um tapa, causado pela mão da pessoa atingindo seu rosto.
— Não, quem você pensa que é? — questionou Charles. — Eiro é o benfeitor da nossa família. Ele é o homem que salvou a mim e o meu pai do desespero. O homem que se tornará um dos companheiros do Herói e provavelmente a pessoa mais poderosa desta cidade. E você, um mero filho de nobre que mal alcançou o status de representante estudantil para a divisão de combate, pensa menos deste homem? Ele que lutou por uma posição que você nasceu tendo?
Richard encarou Charles com os punhos cerrados, mas não conseguia dizer nada. Eiro soltou um suspiro profundo.
— Agradeço por me defender, Charles, mas não precisava fazer isso na frente de todos aqui, precisava?
Charles olhou ao redor, não vendo muitos problemas diante de todos aqueles nobres.
— Bem, foi ele quem te insultou aqui, então eu cuidei disso também.
— Não ouse me defender, seu-
— Richard. Cale a boca — disse Eiro com um olhar profundo e o jovem estremeceu. — Você já é um adulto e, mesmo que seja um estudante, não está em posição de ser tratado como uma criança. Tentei ao máximo tratá-lo com respeito, mas também tenho limites.
Richard virou a cabeça para o Duque Melachine.
— Pai! Você vai deixá-lo falar comigo dessa forma?!
Eiro esfregou a ponta do nariz, irritado, observando toda esta situação escalar além do que queria lidar no momento.
Antes que o Duque pudesse dizer algo, Eiro segurou os ombros de Richard e o pressionou com força, parando momentaneamente o tempo para os dois.
— Há duas horas, eu estava no meio de uma batalha na qual poderia ter perdido minha vida, com uma das monstruosidades mais poderosas deste mundo. Um ser que se adaptou a cada um dos meus ataques até que se tornou quase impossível para mim causar qualquer dano a ele. Mesmo assim, você é muito mais problemático de se lidar. Cresça e pare de ser um pirralho que só sabe depender do pai.
— O q-O que você-
— Não, pare! Como eu disse, tentei respeitá-lo, mas você tornou isso impossível. Deixe-me ser claro: cada pessoa que você contratar para me atacar morrerá pelas minhas mãos a partir de agora. Se você sequer pensar em antagonizar a mim ou à minha família, terá que enfrentar o homem que matou um Nobre. Pensei que tivesse sido claro quando esfaqueei sua mão. Me. Deixe. Em. Paz — Eiro ordenou, sua voz ficando cada vez mais furiosa à medida que falava, enquanto Richard permanecia parado, encarando-o.
— Não tenho medo de você! — respondeu o jovem. — Você não passa de um homem vil!
— Eu sei que você não tem medo de mim, mas sei do que você tem medo. Você tem medo de ser um ninguém. De ser impotente. De ser incapaz de controlar a situação em que está — explicou Eiro e, pela primeira vez, o coração de Richard começou a palpitar mais forte de medo em vez de raiva. — Veja, sendo um protesista, conheço muito sobre o corpo humano. Sei quais partes são necessárias e quais podem ser descartadas. E sendo um aventureiro, sei onde golpear alguém de forma letal e onde é possível sobreviver com bastante facilidade, mesmo com a dor que isso acarreta.
— Você está ameaçando me matar?
— Não, não vou matá-lo. Para alguém como você, a morte não é a punição correta. Isso porque você não tem medo da morte. Em vez disso, vou garantir que você nunca será capaz de ascender à posição que deseja. Você nunca será reconhecido por ninguém. Eu tomarei seu poder e controle, transformando seu corpo em uma massa sem vida, com sua mente presa dentro dele. E farei isso de uma forma que ninguém jamais poderá curá-lo, apenas prolongar sua vida. Se você viverá ou morrerá, não dependerá mais de você — a mão de Eiro deslizou para fora do ombro de Richard e, em vez disso, tocou no pescoço do jovem, pressionando sua coluna. — Dependerá dos outros.
Desse modo, Eiro fez o tempo voltar a fluir. O tempo passava duas vezes mais lentamente quando as pessoas usavam o anel, então isso custou bastante a Eiro. Porém, foi muito efetivo: o corpo inteiro de Richard congelou enquanto Eiro saía.
— Por favor, pare com isso, Richard. Pelo bem de todos — disse o Demônio, virando-se em seguida.
O Duque Melachine puxou o braço do filho, arrastando-o para fora do salão, furioso. À distância, Eiro conseguia ouvir os dois gritando, enquanto tinha a chance de seguir em frente. Por fim, alguns nobres decidiram falar com ele. Na verdade, foram bastante respeitosos, elogiando-o por seu feito e seu novo título. A maioria deles era muito sincera, o que o surpreendeu ainda mais. Ainda havia alguns que falavam sem sinceridade, mas, entre aqueles que foram até Eiro por conta própria, a maioria era bem-intencionada.
Eles pareciam respeitá-lo por seus feitos. Seria muito estranho se ninguém o respeitasse, na verdade, considerando suas conquistas.
Alguns desses nobres já convidaram Eiro para outras festas ou para jantares. Outros tentavam apenas puxar conversa. Qualquer coisa para ganhar sua simpatia, na verdade. Se Eiro se tornaria o companheiro do Herói, como muitos presumiram ali, então era perfeito estar em bons termos com ele.
Claro que nem todos tinham essa intenção ao se aproximar dele, mas havia alguns. No fim do dia, Eiro imaginava que algo do tipo aconteceria. Esta festa não era apenas para puro entretenimento dos nobres; era, em grande parte, para que pudessem fazer contatos uns com os outros. Afinal, não havia apenas nobreza aqui, mas também mercadores poderosos que poderiam ser úteis para os nobres.
Mas como Eiro não se importava com a parte da rede de contatos e só queria que as pessoas não fossem contra ele, não se esforçou para conversar com os outros. Não que tivesse escolha… Agora, era o centro das atenções e quase todos queriam a chance de falar com ele.