
Volume 4 - Capítulo 415
A Virtude do Demônio
Aplausos ecoaram pelo salão enquanto os nobres, que antes se mostravam desconfiados ou quase enojados com Eiro, passaram a adorá-lo. O Demônio permaneceu parado ali, com a mão de Solomon em seu ombro, sorrindo para a multidão.
Assim, uma mensagem apareceu na frente de Eiro.
[Você tem a chance de assumir o nome Eiro Jura Daemonherz.]
[Por meio de uma cerimônia oficial, seu nome será alterado.]
Eiro sorriu um pouco e se livrou das notificações e Solomon fixou o olhar nele.
— Vamos lá, você também tem que dizer algo.
O Diabrete deu um passo em frente, olhando para a multidão.
— Vocês já ouviram. Esta noite, eu matei <A Morte>. Não vou entrar em detalhes sobre o tipo de batalha, duvido que algum de vocês se importe com isso. Há apenas uma única coisa que qualquer um de vocês sabem sobre mim — disse Eiro, continuando a sorrir. Solomon ficou um pouco desapontado com o tom de Eiro, mas esperava isso antes de pedir que falasse de qualquer modo. Então, o Rei só deixou acontecer. Eiro sabia melhor do que ninguém o que queria que as pessoas pensassem dele. — Não sou algum tipo de guerreiro sagrado. Não sou um santo que lutará por vocês como uma besta irracional. Não sou uma arma. Luto apenas por aquilo em que acredito. Não jurarei lealdade a Solomon, jurarei lealdade a mim mesmo e aos meus próprios valores — explicou Eiro, com um sorriso no rosto. E esta ação irritou alguns dos nobres.
— No entanto, — continuou — isso não significa que não lutarei por este país e não significa que não lutarei por este povo. Este é o lugar que eu e meus filhos agora chamamos de lar, o lugar onde as futuras gerações de nossa família serão criadas. Sei que muitos de vocês me veem como um forasteiro, um intruso. Um selvagem que não pertence a este lugar. E nem tentam esconder isso, é dolorosamente óbvio. E vocês estão certos, eu sou tudo isso, mas com este título, este reconhecimento de mim mesmo, isso não será mais o caso. Pelo nome que me foi dado, Eiro Jura Daemonherz, eu juro que, enquanto eu viver, este país não cairá em ruínas.
Os nobres ficaram um pouco em conflito. O tom do discurso de Eiro soava quase como se estivesse zombando deles, mas, no geral, ele estava dizendo as coisas que eles queriam e com as quais concordavam. Solomon ficou feliz por Eiro não ter insultado todos esses nobres, mas a boa opinião que Solomon havia criado sobre o Demônio logo desmoronou de novo.
Havia, no entanto, uma coisa que estava gravada na mente de todos os presentes. E isto era que Eiro era poderoso, alguém com quem não podiam mexer e com uma posição próxima ao Rei, capaz de matar um nobre sozinho.
Eiro era alguém que não queriam irritar. Eles queriam ficar do lado bom dele. Então, com poucas exceções, todos aplaudiram. Assim, o olhar de Eiro vagou pelo salão.
Viu o Duque Melachine e até Richard e sua irmã parados no canto do salão. Richard estava absolutamente furioso com o que estava ocorrendo, mas não era o único. A Feiticeira da Pedra de Sangue, Evelyn James, após ser humilhada por Eiro durante seu último encontro, mantinha uma distância apropriada, mas quando se tratava de uma festa organizada pelo próprio Solomon, ela não podia se ausentar sem motivo.
Então agora tinha que testemunhar isso. Eiro sendo reconhecido. Este demônio imundo, vil e maligno sendo reconhecido pelo rei do país em que vivia. Isso era ridículo, não era? Eiro devia ter feito algo para enganar Solomon! Era isso que passava por sua mente.
Eiro sabia o que ela estava pensando e não pôde deixar de sorrir assim que seus olhares se encontraram. Porém, enquanto Eiro continuava parado ali, ouvindo os aplausos dos nobres à sua frente, Solomon falou mais uma vez.
— Anunciaremos em breve a data para a cerimônia oficial, então espero ver muitos de vocês de novo! Mas, por ora, vamos continuar a nos divertir, como planejado para esta noite! — exclamou Solomon com um sorriso no rosto, enquanto os nobres voltavam a socializar entre si.
Com o término do anúncio, Charles correu imediatamente até Eiro.
— Você matou mesmo <A Morte>? Você matou um nobre? — questionou Charles perplexo e Eiro acenou a cabeça como se fosse óbvio.
— Claro que sim. Você acha que eu mentiria sobre algo assim?
— Claro que não! Mas isso é tão… tão incrível! Será que um dia eu também posso…?
— Charles. Não se trata apenas de força bruta. Eu sou alguém voltado para o combate em quase todos os aspectos. Até encontrei formas de usar minhas habilidades não combatentes para o combate. Você, no entanto, é o príncipe herdeiro deste país. Alguém que liderará um povo. Você deterá um poder imenso algum dia, mas talvez não seja o mesmo tipo de poder que eu possuo — explicou Eiro e Charles assentiu.
Não parecia ser a resposta que queria ouvir, mas ele ainda entendia que era a verdade de qualquer maneira, querendo ele ou não.
— Porém, isso não significa que você não possa se tornar poderoso como eu. Provavelmente será um pouco mais difícil para você do que para mim chegar aqui, mas, neste mundo, nada é impossível, saiba disso — sorriu Eiro, colocando a mão na cabeça do garoto com um sorriso. — Bem, como estão seus membros? Percebi que você está andando de forma meio rígida.
— Ah… — resmungou Charles. — Eu caí outro dia. Não parece que aconteceu algo grave, só ralei um pouco a perna…
— Hum? — De imediato, Eiro se agachou e sentiu a perna de Charles. Injetou sua mana dentro dela e tentou sentir a Força Vital de Charles com mais atenção. — Ah, aqui está o problema.
Sem hesitação, Eiro puxou a perna de madeira e a torceu um pouco, arrumando um dos mecanismos que estava perto de quebrar. Isso acontecia o tempo todo com a primeira prótese de Eiro.
— Não se preocupe com isso, mas me avise antes da próxima vez. E certifique-se de continuar nutrindo sua muda, para que possamos substituir seus membros em breve. Qualquer dano como esse se curará naturalmente com elas, apesar de que talvez tenhamos que procurar outra solução se não funcionar com seu fator básico de cura — explicou Eiro, olhando para o rosto de Charles. Ele segurava a mão na frente do rosto, envergonhado e o Diabrete percebeu a razão.
Muitos nobres os encaravam, pois Eiro começou a apalpar a perna do príncipe herdeiro daquela forma. O Demônio se levantou e olhou para eles, esticando a mão para mostrar sua natureza de madeira a todos.
— Sou um protesista, só queria ter certeza de que a prótese do príncipe está em boas condições.
As pessoas ainda acharam estranho e aqueles mais ‘leais’ ao sistema entre os nobres ficaram muito irritados, mas, no geral, não tinham muito o que fazer, já que nem o Rei pareceu se importar com isso; tratando como se fosse normal.
— Devo dizer… também fiquei bastante surpresa ao ver isso agora — explicou a Rainha a Eiro, que a encarou com um sorriso.
— Certo, você já sabia o que estava acontecendo?
— De fato, mas ainda não tive a oportunidade de ver você trabalhando com os membros dele — adicionou ela e Eiro deu de ombros de leve.
— É, justo. Parece meio normal para mim neste ponto, então não me importo muito com o que os outros pensam.
A Rainha o encarou em silêncio, tentando compreender o que este homem estava falando com um tom tão casual. Ninguém jamais falou com ela dessa forma, com exceção de Solomon quando estavam a sós, mas era evidente que Eiro não tinha medo de sua autoridade, já que falava de forma ainda mais rude com Solomon.
— Agora, acho que seria melhor se você socializasse um pouco, nesta sua primeira noite como um nobre ainda não oficial — sugeriu a Rainha, voltando ao seu assento, de onde conseguia ver todo o salão. Eiro acenou com a cabeça e se virou para se juntar aos outros nobres.
Lugo o seguia e por isso Eiro se certificou de não ir em direção à área dos assentos, onde o cervo teria dificuldade em caminhar sem esbarrar em nada. Isso também significava que alguns nobres que não queriam falar com ele tinham bastante facilidade em evitá-lo. O que, na verdade, não incomodava Eiro, pois esperava ser abordado por certas pessoas e um homem parente dessas pessoas logo se aproximou dele.
O Duque Melachine sorriu muito, de forma quase orgulhosa.
— Eu não tinha ideia de que você era tão poderoso. Aquele que matou um nobre! Que feito imenso!
Eiro riu um pouco.
— Eu sei, parece loucura, não é?
— Com toda certeza! — exclamou o Duque, rindo também, enquanto Eiro sentia olhares fixos em sua nuca.