A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 414

A Virtude do Demônio

Enquanto Eiro se arrumava, limpando sua armadura enquanto Armodeus consertava alguns dos maiores e mais fatais danos nela, as crianças já estavam pensando em nomes. Não muito depois, elas chegaram a um consenso rápido que resolveu parte do problema.

— claro, o segundo nome do pai será Jura, certo? — disse Arc como se fosse óbvio, com um tom direto e sem rodeios. Todos concordaram e até Armodeus acenou com a cabeça, achando uma boa escolha. Era uma boa forma de perpetuar o nome do seu amigo.

— Seria ótimo se isso já tivesse resolvido a questão com nosso sobrenome, mas Jura era um plebeu, certo? Ele não tinha sobrenome… — adicionou Rudy e todos voltaram a pensar.

— Pessoalmente, eu gostaria de algo mais único, memorável. E algo que, ao mesmo tempo, mostre-

— Certo, certo, já entendemos — interrompeu Arc. — Você quer algo que todos admirem assim que ouvirem, certo? Então, que tal… ‘Eiro Jura Arccutter’?

— … Você sabe que o seu nome é Arc Arccutter, não é? — comentou Sammy com um sorriso sarcástico e Arc a encarou de volta.

— Você tem um ponto.

Arc parecia preocupado em fazer uma boa escolha, mesmo que adicionasse piadas de vez em quando. Então, ele teve uma ideia, uma que precisava confirmar com Eiro.

— Pai, os ‘Daemons’ existem mesmo?

— Daemon? Bem… Talvez. É mais provável que estejam extintos e você só possa ler sobre eles hoje. Eles são outra categoria de criaturas… Como as Bestas Mágicas, Monstros, Pessoas ou Espíritos, e aparentemente eles surgiram de maneira diferente dos outros tipos, mas ninguém sabe com exatidão. Por que você pergunta?

— Bem… — disse Arc, coçando as bochechas. Seus irmãos não sabiam que ele era de outro mundo, então estava pensando em outra desculpa. — No lugar que eu cresci, li um pouco sobre diferentes mitos e lendas… e havia um… livro comparando Demônios a Daemons. É como se… enquanto os demônios normalmente eram perversos e malignos, daemons eram sua contraparte boa até certo ponto e isso parece fazer combinar.

— Hm… — Eiro pensou a respeito. Não sabia muito sobre os Daemons… — mas esta era uma história do antigo mundo de Arc, onde os mitos e lendas se sobrepunham a este mundo. Então, talvez houvesse algo nisso. Qualquer documentação real sobre o que os Daemons eram foi de alguma forma destruída, então tudo o que se sabe agora foi transmitido oralmente.

‘Então talvez isso fosse verdade…’

— Se for assim, então pode ser uma ideia muito boa… — respondeu Eiro e os outros também pareciam concordar.

— Sim, definitivamente! — exclamou Clementine. — E ainda dá a entender que você é um Demônio… É meio… hum, poético? — sugeriu ela e Arc a encarou.

— Foi para a escola por um ou dois meses e já fala como uma especialista, hein? — respondeu ele, enquanto Sammy encarava seu irmão, irritada.

— Pare de provocar Clem. Acho que ela está certa, é meio poético! Mas não podemos usar ‘Daemon’, certo?

Arc continuou pensando, mas, antes que ele ou qualquer um conseguisse ter uma boa ideia, Felix virou para seu caderno de esboços para mostrar o brasão que havia desenhado a pedido de Eiro.

Em seu centro, havia o contorno da cabeça de um demônio, com dois chifres assustadoramente semelhantes aos de Lugo, brotando nos cantos do símbolo. A forma de escudo sobre a qual a cabeça do Demônio estava posicionada mostrava metade de um planeta, com massas de terra simplistas se estendendo além da cabeça. Era uma referência ao futuro status de Eiro como <O Mundo>.

Dentro do contorno da cabeça do Demônio, um padrão semelhante ao que se espalhava pelo corpo de Eiro podia ser visto, supostamente mudando para uma variedade de cores à medida que as linhas se afastavam do centro, para mostrar os diferentes tipos de magia que Eiro podia controlar.

Ao lado do braço havia um par de asas parecidas com as do próprio Eiro e algo que parecia sua cauda enrolada na parte da frente.

Claro, isso talvez fosse um pouco exagerado, considerando que Eiro queria esconder o fato de ser um monstro, mas poderia inventar uma história sobre seus ancestrais terem um passado como caçadores de demônios do qual ele se orgulhava. E ainda combinava com um nome que seguia o tema de ‘Daemon’, o que era uma grande coincidência, já que os olhos de Felix não se afastaram do papel por um momento sequer.

Ele não precisou esperar muito até que Eiro olhasse para o lado. A armadura estava quase toda reparada, pois queria deixar alguns arranhões aqui e ali para mostrar que acabou de encerrar sua batalha com <A Morte>. Eiro a vestiu de novo e pressionou a mão no centro do seu peito.

Manipulando com precisão o caos ao seu redor, adicionou o novo brasão ao centro do peito de sua armadura.

— Bem, eu diria que está muito bom — comentou Eiro com um sorriso e o rosto de Felix ficou vermelho. O Diabrete olhou para ele e continuou com alguns sinais de mão:

{Se você ainda não está satisfeito, o brasão não precisa ser decidido até a cerimônia oficial. Então, você tem algum tempo para mudar algumas coisas, mas, pessoalmente, eu gostei.}

— Ah e falando nisso, eu tenho uma sugestão para o nome de nossa família — exclamou Arc com um grande sorriso.

— Que tal-

Eiro retornou ao castelo, desta vez fundido com Bavet. E, para se exibir um pouco mais, Nelli, Gondos e Sarius também flutuavam ao seu lado e Lugo o seguia de perto. Fazia um tempo desde que não saía com Lugo, além de ir à cidade para que ele se exercitasse um pouco, já que era muito mais eficiente voar até onde precisava ir, mas decidiu que, como Lugo era parte dele, deveria trazer seu amigo mais próximo para um lugar como este.

Certificou-se de limpá-lo e Armodeus até trabalhou em uma armadura para ele, usando um corante especial para colori-la. O corante foi feito com sobras do material que ele criou usando as escamas de dragão para a armadura de Eiro. Por meio dele, Eiro conseguia mudar sua cor para combinar com a cor de sua armadura sempre que a alterasse. Porém, não alterava as propriedades, já que era para fins estéticos, mas era um detalhe interessante.

Eiro caminhou pelos corredores do castelo com essas cinco criaturas ao seu lado. As pessoas o encaravam com certa estranheza por ele ter trazido um cervo consigo, mas o demônio não se importou. Ele só queria que Lugo estivesse aqui para testemunhar isso.

No geral, Eiro estava bastante animado. Mesmo que não fizesse muita diferença em si, ainda o fazia se sentir… reconhecido. Que ele não tinha feito tudo aquilo em vão, mas que estava sendo aceito por este mundo em que escolheu viver, lado a lado com as pessoas desta cidade.

Voltou para o salão onde a festa principal acontecia, passou pelos servos dos nobres e foi direto para a multidão de nobres em si, que foram todos chamados aqui para esta parte do castelo para o anúncio.

Evidentemente, eles estavam confusos com a presença repentina de Eiro, em especial com um animal desses ao seu lado.

Mas, assim que Eiro entrou, Solomon abriu os braços. Charles estava logo atrás dele, assim como a Rainha, para surpresa de todos. Eiro ainda não tinha certeza se confiava nela, mas, por outro lado, ela era a esposa de Solomon. Alguém com quem ele se casou por amor e não por diplomacia, como era muito comum nesse mundo de nobreza e realeza. Contudo, o fato de o Rei, a Rainha e o Príncipe Herdeiro estarem reunidos aqui, todos de pé com a chegada de Eiro, demonstrava a importância da ocasião. O Demônio se aproximou de Solomon, que sorria muito.

Eiro se inclinou um pouco e sussurrou:

— Já escolhi um nome — Solomon levantou as sobrancelhas, surpreso, e escutando o nome que Eiro escolheu e assentiu.

Ele parou diante de Eiro e começou seu discurso.

— Este homem ao meu lado, nesta noite, acabou de realizar uma tarefa que pensávamos ser impossível. Ele saiu da batalha há poucas horas, uma batalha contra uma força que nenhum ser vivo deveria ser capaz de resistir! Este homem matou um dos servos do Rei dos Monstros, um Nobre! Ele tirou a vida de <A Morte>! — exclamou Solomon e o salão se encheu de exclamações de espanto. Até mesmo Charles e a Rainha ficaram surpresos ao ouvir isso, já que Solomon não os informou antes.

Os nobres murmuravam entre si. Desta vez, não em tom de julgamento. Em vez disso, com vozes repletas de admiração e, muitas vezes, incredulidade, o que Eiro compreendia.

— Eu mesmo verifiquei esse fato, <A Morte> não existe mais! Devido a esta imensa tarefa, doravante, este homem será nomeado barão sob minha autoridade! — a voz de Solomon ecoou pelo salão e o silêncio se espalhou enquanto ele continuava. — Aquele que venceu a morte, aquele que um dia certamente se tornará uma lenda entre os homens! A história foi escrita hoje, com o renascimento deste homem!

O ar, que até então estava em silêncio, agora parecia tão denso de curiosidade e admiração que dava a sensação de estar debaixo d’água. Solomon se virou e parou atrás de Eiro, colocando a mão no ombro do demônio.

— Barão de Skyhart, Eiro Jura Daemonherz!

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