A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 410

A Virtude do Demônio

Eiro continuo a lutar com <A Morte>, agora com a nova habilidade que possuía por estar fundido com o Morto-Vivo de Koperia. Com ela, era capaz de usar algumas táticas bastante únicas com os quais seu inimigo tinha que se adaptar. O corpo antes infantil que ela usava não era mais reconhecível. <A Morte> agora parecia uma besta selvagem e agia como uma.

Ela não parecia senciente antes e agora agia apenas por instinto, com base na adaptabilidade à morte que havia sido programada em sua mente. Ela estava causando seu próprio fim, não havia dúvidas disso.

Entretanto, quando chegaram aos últimos dez segundos da contagem que o filactério mostrava a Eiro e Koperia, o Demônio ainda não via momento nenhum em que <A Morte> morreria. Ele sabia que neste ritmo, uma hora chegariam lá, mas ele não tinha esse tempo.

Cinco.

Eiro empurrou <A Morte> para o lado com um chute, mas não a deixou voar para longe, em vez disso a puxou com sua perna.

Quatro.

O corpo dela se tornou mais maleável e girou em torno da perna de Eiro.

Três.

Eiro a esfaqueou repetidas vezes em um único ponto.

Dois.

A regeneração de <A Morte> acelerou. Sempre que era esfaqueada, o pequeno ferimento cicatrizava no instante em que a lâmina era retirada.

Um.

Os dois se encaram, aguardando o fim da contagem. <A Morte> formou um sorriso sinistro em seu rosto horrendo e bestial.

Assim que o relógio tiquetaqueou pela última vez, Eiro sentiu algo mudar ao seu redor. Sua visão de mundo mudou e se tornou uma visão etérea de si mesmo. A apenas dez metros de onde estava, ele não conseguia enxergar mais nada. A única coisa que conseguia enxergar era <A Morte> parada alguns metros na sua frente.

Mas então, Eiro olhou além da morta e viu a si mesmo. À primeira vista, parecia como um reflexo, mas não era. Ele se inclinou para à esquerda e a outra versão de si fez a mesma ação. Normalmente, num mundo reflexivo, ele teria se inclinado para à direita, ‘espelhando’ os movimentos de Eiro.

Isso não era um espelho. Apenas uma fração de segundos depois, Eiro viu outra versão de si mesmo à sua direita. Depois outra à sua esquerda. Pouco a pouco, antes que percebesse, inúmeras versões de si estava ali, circulando <A Morte>. O Demônio pensou no que fazer e o pensamento de atacar cruzou sua mente. Porém, assim que pensou nisso, diferentes versões de Eiro que estava ali se dividiram e atacaram <A Morte>. Cada uma de uma forma diferente. A partir deste momento, os ataques não pararam, mas não havia um único ataque que se repetisse.

Com essa realização, veio uma compreensão aproximada do que estava acontecendo. A obsessão de <A Morte> com o tempo vinha de algo que estava além do que a Carta do Arcano maior concedida. Era uma característica inerente do indivíduo que se tornava <A Morte> e essa característica se combinava com uma habilidade concedida pela Carta.

 A forma suprema de adaptação. Esta coisa aqui continuaria até que o corpo de <A Morte> se transformasse a ponto de se adaptar a tudo o que Eiro pudesse fazer. Quando isso terminasse, <A Morte> genuinamente se tornaria um ser que era impossível de ser morto por Eiro.

Seu corpo mudava em um ritmo acelerado, abandonando sua forma monstruosa e voltando ao normal. Agora, tinha a chance de adaptar o seu corpo com mais eficiência do que antes.

Mas Eiro não pode deixar de sorrir com esse pensamento.

‘<A Morte> realmente acha que eu seria como qualquer outro inimigo com quem ela lutou?’

O Demônio estendeu a mão, com um sorrido amplo no rosto e estalou os dedos. Este era um espaço onde o tempo convergia. Se ele conseguisse ver outras versões de si mesmo, eles também deveriam ser capazes de vê-lo.

E quando alguns deles olharam para Eiro, ele sabia que estava certo. Então, outro estalou os dedos. Depois outro e outro, até que a maioria das versões que conseguia ver no momento estavam com as mãos erguidas, ou haviam estalado de alguma forma. Aparentemente, <A Morte> não pensou muito desta ação e deixou que os diferentes ‘Eiros’ atacassem seu corpo.

Por sorte, o som também se propagava por este espaço e Eiro reuniu o ar em seus pulmões e gritou uma palavra. A única pessoa que havia deixado um impacto na sua mente, que lutava de uma forma diferente da dele e a única palavra que, não importasse qual versão de Eiro fosse, elas entenderiam o que ele tentava dizer. Ele nunca falaria este nome em qualquer outra situação, afinal.

— Thomas! — gritou e foi neste momento que uma mudança começou a ocorrer. As versões de Eiro que se moviam na direção de <A Morte> se multiplicaram exponencialmente e todas se moviam de uma forma muito diferente de antes. Elas se moviam assim como Thomas se movia nas memórias de Eiro. Claro, ele teve que adaptar algumas coisas devido ao seu físico e ao fato de só ter uma adaga como arma, mas lutou assim como Thomas teria lutado. Muitos até criaram armas falsa com magia de gelo ou terra, para que pudessem enganar <A Morte>.

Desse modo, Eiro estava trilhando um caminho para a vitória. Sua mente era grande suficiente para enxergar além desse tipo de técnica. Ele estava garantindo que <A Morte> não se tornasse sua inimiga natural, mas a inimiga natural do homem que morreu na sua frente há oito anos.

Logo, a aparência externa de <A Morte> voltou a ser de uma criança, só que com alguns lugares e articulações deslocados, ou uma pele anormalmente forte para proteger certas áreas do seu corpo.

Então, <A Morte> começou a se mover. Era óbvio, ela não queria só se defender contra Eiro, também queria matá-lo com facilidade.

 O Demônio não pôde deixar de sorrir o tempo todo, animado por ter enganado um Nobre de tal forma e as diferentes versões de si mesmo pareciam sentir o mesmo. Este espaço se assemelhava a um garoto humano lutando contra uma horda de Diabretes únicos e enlouquecidos.

Parecia que horas, dias ou até semanas haviam se passado até que essa técnica terminasse. Pela expressão e postura de Koperia, era evidente que nem mesmo um segundo havia se passado aqui. <A Morte> estava parada no centro da sala com um grande sorriso, um que parecia copiado de todas as diferentes versões de Eiro.

— Hah… Haha…! Hahahah! — <A Morte> riu alto, com todas aquelas inúmeras vidas que roubou fazendo parecer que Eiro estava em um concerto com centenas de pessoas. — Como foi fácil. A maioria dos outros tentam resistir pelo menos um pouco, mas você continuou atacando, sem parar. Quase não houve versões suas que escolheram não atacar — comentou <A Morte> com o mesmo sorriso e Eiro permaneceu em silêncio.

— Envergonhado, né? Claro, eu também estaria — continuou ela. — Bem, não importa. Seu corpo certamente será um lar novo e poderoso para mim. Tive que mudar para este depois que meu antigo quebrou e antes que eu pudesse sequer entender o que estava acontecendo, já estava preso nesta cela. Bem, isso me permitiu desbloquear esta habilidade maravilhosa de me lembrar de quem eu era para sempre, então serviu para algo.

<A Morte> se aproximou dele com um sorriso no rosto, mas o Demônio continuou o tempo todo parado, esperando que ela se aproximasse. Afinal, <A Morte> não era a única que conseguia se adaptar, Eiro não era capaz de mudar seu próprio corpo tanto assim, mas ainda podia mudar suas ações. Certificou-se de analisar mais uma vez a forma como Thomas costumava lutar, ou melhor, a forma como os diferentes Eiros lutavam, usando Thomas como referência. Isso significava que ele sabia os locais exatos onde atacar <A Morte> e podia fazê-lo a qualquer distância.

Só tinha que esperar pela oportunidade perfeita. Um passo. Dois passos. Três passos. E lá estava ela.

Instantaneamente, Eiro moveu todo seu corpo e cravou sua adaga para frente, anulando o resto da distância entre ele e <A Morte>. Surpreendentemente fácil, criou um ferimento profundo logo acima da omoplata da criatura.

Ela parou de se mover e virou a cabeça para olhar para o ferimento, onde faltava um grande pedaço de carne.

— Como você-

— Koperia! — interrompeu Eiro. — É melhor você destruir esse filactério.

Na outra sala, Koperia acenou a cabeça, segurando o objeto em suas mãos. Estava um pouco curiosa sobre como o corpo de <A Morte> mudou tão de repente, mas, no fim, decidiu que deveria deixar Eiro fazer o resto do trabalho. Ele estava confiante e, afinal, queria o máximo de experiência que <A Morte> poderia fornecer.

Assim, a batalha entre Eiro e esse Nobre entrou em sua fase final.

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