A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 409

A Virtude do Demônio

A substância semelhante a ossos que cobria o corpo de <A Morte> começava a se reunir em suas pernas à medida que ela acelerava. A substância se fundiu com o corpo da criança, transformando suas pernas em pernas de cavalo, mas uma versão muito sombria, já que estava coberta apenas por uma carne meio apodrecida e seca.

Eiro respirou fundo ao olhar para a figura à sua frente e <A Morte> logo pulou o mais alto que conseguia. Assim que seus cacos atingiram o chão, impulsionou-se, agora correndo e pulando pela sala o mais rápido possível.

Parecia que em vez de se defender, <A Morte> agora tentava se esquivar, e era muito capaz ao fazê-lo. Nenhum dos ataques de Eiro e Koperia a acertavam.

— Koperia, você possui algum ataque de larga escala pronto? — perguntou o Demônio, mas ela meneou a cabeça.

— Infelizmente não, não tenho aquela criança comigo no momento. Pensei que seira um pouco menos irritante de lidar com isso, sabe?

 — Então saia daqui com seus Mortos-Vivos, vou preencher a sala com chamas sagradas — sugeriu Eiro e Koperia deu de ombros. Ela acenou com a mão e fez chamas negras a cobrirem e seus Mortos-vivos, antes que todos desaparecessem. Eiro sentiu que eles reapareceram na ‘sala de controle’, então poderia recuar e-

Assim que Eiro estava prestes a fazer isso, sentiu que <A Morte> estava prestes a passar pela porta atrás dele, mas o Diabrete não deixaria isso acontecer. Esticou suas asas e se impulsionou para trás o mais rápido possível, bloqueando a entrada antes que <A Morte> a alcançasse. Com a ajuda de Gondos, Eiro colocou uma laje de pedra na frente dele para prender o Nobre dentro da sala e espalhou as chamas sagradas por ela para que <A Morte> não tivesse como escapar.

Eiro viu as mensagens aparecerem na sua frente. Embora o dano estivesse diminuindo, parecia que agora, <A Morte> tinha pouca chance de escapatória. Ou pelo menos era o que Eiro pensava. Entretanto, logo percebeu que algo estava errado.

‘Está fácil demais… não é? Algo está errado, algo está muito, muito errado. Parece que <A Morte> estava se contendo…’

— Koperia, você não-

— Sim, eu também percebi. Está um pouco estanho, não está? Muito entediante se comparado ao que eu esperava que aconteceria — respondeu Koperia com uma voz decepcionada. — Mas bem, se isso me dá a oportunidade de conseguir mais conhecimento com mais facilidade, eu não me importo. Já devemos destruir o filactério? Vai levar um tempo até ela se reformar e, até lá, deve estar fraca o suficiente para a matarmos.

— Isso mesmo, o filactério…! — Eiro virou a cabeça e olhou para o recipiente de vidro que continha o coração transformado em relógio. — <A Morte> é obcecada com tempo. Ela possui habilidades relacionadas a ele, mas até agora-

Enquanto falava, ele ouviu um barulho que não havia escutado antes. O tique-taque de um relógio. Como se um comando em reposta ao pensamento de Eiro, algo aconteceu.

O relógio coração começou a tiquetaquear de repente. Estava paradão antes, mas não mais. Porém, o mais preocupante era que ele não estava funcionando como deveria, em vez disso, estava retrocedendo. Como uma contagem regressiva.

— Koperia, algo acontecerá em quatro minutos e quarenta e nove segundos, eu só não sei o que- — disse o Demônio com uma carranca profunda e Koperia deu de ombros.

— E daí? Irei destrui-lo de qualquer forma, qual o problema?

— Bem, vá em frente e tente — Eiro disse a Koperia, que olhou confusa para o filactério. Ela quebrou o recipiente de vidro e segurou o coração em sua mão. Tentou usar magia nele e até mesmo fez seu Morto-vivo atacá-lo, mas ele resistiu a todos os ataques.

E havia outra coisa preocupante. <A Morte> ainda se movia tão rápido quanto antes, mas Eiro não estava mais a danificando.

— Acho que pelos próximos cinco minutos, a ‘adaptabilidade’ dela será muito fortalecida. Precisamos acabar com ela agora — disse Eiro enquanto se livrava da laje de pedra. <A Morte> avançou de imediato, mas, por sorte, Eiro conseguiu se defender. Ela não era fisicamente forte, afinal, mesmo assim, Eiro sofreu bastante danos.

— Koperia, uma ajudinha? — pediu o Demônio ao bater suas asas e voar para o centro da sala, tentando se defender ou desviar dos ataques de <A Morte>.

Koperia murmurou algo para si mesmo enquanto inseria a mão no peito do Morto-Vivo ao seu lado. Ela retirou a mão e, então, segurava parte de um crânio. Era apenas metade, parando logo abaixo das órbitas e não tinha a parte de trás. Parecia algum tipo de máscara.

Koperia entrou na sala e fez uma águia morta-viva entregar a máscara esquelética para Eiro.

— É um dos meus humanoides mais fortes, trate-o bem. Atuarei como suporte por ora.

Eiro segurou a máscara esquelética e se livrou da que já vestia. Já sabia o que Koperia queria dele. Esta coisa estava cheia de magia de morte, mas não do tipo comum. Havia algo mais imbuído nesta máscara, algo com que Eiro podia se fundir.

O Demônio vestiu a máscara e respirou fundo. Absorveu a magia em seu corpo e a fundiu em seu coração.

Eiro sentiu o poder imbuído na máscara em todo seu corpo. Passou pelo mesmo processo que uma infusão comum, ou quando se fundia com seus Espíritos. Eiro começou a se sentir diferente: mais poderoso e mais leve. Ele sentiu a dor percorrê-lo enquanto sua carne apodrecia, mas diferente de quando se infundia com magia de morte normalmente, não sentia nenhuma letargia ou fraqueza. Sentia-se melhor do que nunca.

E conseguia escutar outra voz reverberando dentro da sua mente, com alguém falando com ele.

— O controle sobre o espaço é seu. A distância é inexistente. Atravesse-a, ataque de qualquer lugar. Este é meu poder.

Eiro entendeu o que aquele Morto-Vivo queria dizer. Golpeou sua mão para o lado e sentiu um impacto. O corpo de <A Morte> foi atingido e deslizou par ao lado. Ela não sofreu muitos danos, mas Eiro ainda estava compreendendo essa habilidade. Era o que este Morto-Vivo usou para atacar Eiro há não muito tempo.

O Diabrete desembainhou suas duas adagas e fez os três Espíritos aparecerem ao seu lado.

— Se ela ganha resistência a uma coisa por vez, então terei que atacá-la com tudo o que tenho em meu arsenal.

Eiro inclinou seu corpo e puxou algumas das chamas que Sarius estava criando, disparando-as contra <A Morte>. Ela ainda estava desvaindo, mas havia algumas coisas das quais não se podia desviar. E isso acontecia se o ataque te seguisse aonde quer que fosse.

Eiro fez o mesmo processo com as lanças de gelo e blocos de pedra que continuou a usar para atacar <A Morte>. Cada vez mais, o corpo dela se transformava. No entanto, Eiro também percebeu uma coisa: embora o corpo estivesse sendo alterado, a mente dela estava se tornando menos poderosa. Seus movimentos se tornaram desleixados, como se estivesse se esquecendo sobre as coisas que aprendeu.

Porém, isso não era uma consequência das mudanças, mas sim do dano que Eiro causava. Parecia que <A Morte> estava tentando se curar ao sacrificar uma parte de si. Mortos-Vivos não podiam se curar como criaturas normais, afinal. Eles eram ‘formas de vida’ únicas, cujas regras funcionavam diferente do normal e isso também valia para um Morto-Vivo Nobre.

Eiro continuo golpeando <A Morte> com tudo o que tinha, tentando causar o máximo de dano e, sempre que um tipo de ataque parava de causar danos, ele trocava para outro. Logo, não conseguia mais atacar com magia e teve que recorrer ao combate corpo a corpo.

Cortá-la pareceu funcionar, assim como ataques contundentes. Parecia que Eiro estava preparando seu próprio fracasso, já que estava criando seu próprio pior inimigo, o qual não tinha a menor chance de derrotar, mas tudo isso proporcionou a ele uma compreensão profunda de como funcionam as habilidades de <A Morte>.

Mais importante, percebeu que era uma mudança ativa e não passiva. <A Morte> estava reagindo a qualquer ataque e depois controlava a substância semelhante a ossos que alterava seu corpo.

E essa substância era… <A Morte> em si: o Slime que tomou conta do cérebro da criança. <A Morte> estava usando seu corpo original para mudar o receptáculo que controlava.

Isso significava que cada vez mais, o corpo da criança era substituído pelo Slime. Ele sabia como essas criaturas funcionavam, afinal, ele própria se fundia com um Slime com muita frequência.

Nesses cinco minutos que <A Morte> se transformava e se adaptava muito rápido, Eiro tinha que aproveitar essa oportunidade para destruir por completo o corpo original ao forçar <A Morte> para criar formas de neutralizar tudo com que ele a atacasse. Se fizesse isso e o corpo fosse destruído por escolha da própria <A Morte>, o filactério também seria destruído, ou pelo menos teriam a chance de tentar destruí-lo.

Comentários