
Volume 4 - Capítulo 408
A Virtude do Demônio
Eiro se certificou de manter as chamas sagradas ao redor da área onde <A Morte> sairia do cubo de metal. Enquanto isso, Koperia relaxava e fazia seu Morto-Vivo fazer todo o trabalho.
Até certo ponto, Eiro esperava que isso acontecesse, embora a própria Koperia já fosse muito forte, o fato de ela estar usando seus próprios Mortos-Vivos para lutar contra <A Morte> era algo que ele imaginava que ela tentaria fazer. Afinal, se alguns dos seus Mortos-Vivos fossem mais fortes do que a verdadeira encarnação de <A Morte>, então o que isso faria dela? A tornaria algo acima da morte. Então, para ganhar tal posição, Koperia se conteria durante todo o processo.
O Demônio estava um pouco incomodado com isso, mas, contanto que ela ajudasse de uma forma ou de outa, ele não se importava muito. A parte mais importante era que conseguissem conter <A Morte>. Se conseguirem destruir seu corpo e forçar a criatura que havia tomado o controle do cérebro, então já teriam quase vencido. O ladrão de mentes era muito fraco, afinal e precisava de outro corpo como ferramenta para usar suas habilidades.
Então, o corpo de <A Morte> apareceu, saindo do cubo que a continha. Um miasma sinistro preencheu a sala e atacou os sentidos de Eiro, embora Koperia parecesse bem. Ou porque estava acostumada a coisas deste nível, ou porque ela tinha sentidos mais fracos do que Eiro. De qualquer forma, Eiro ficou mais nervoso, enquanto Koperia estava tão calma quanto sempre.
O Demônio respirou fundo enquanto o garoto, cujo corpo foi tomado, surgia, olhando ao redor. Com uma voz que não combinava em nada com seu corpo, como se houvesse uma dúzia de pessoas falando ao mesmo tempo, ele falou.
— Oh, há quanto tempo esses pulmões apodrecidos não respiram um pouco de ar fresco?
Eiro zombou em resposta.
— Se você acha que isso é “fresco”, você deve ser um idiota maior do que eu pensei.
— Idiota? Eu tenho conhecimento de inúmeras vidas e você me chama assim? Você quem deve ser o tolo então — disse a criança, fazendo com que Eiro e Koperia se olhassem.
— Ladrões de mente geralmente não conseguem se lembrar de muita coisa, certo? Você acha que é por conta de ele ser um Nobre? — sugeriu Eiro e Koperia colocou a mão no queixo.
— Isso é de fato intrigante e muito improvável. Mortos-Vivos perdem suas memórias em vez de mantê-las, então o fato de você conseguir se lembrar de todas as vidas que roubou… Oh, agora eu quero dar uma olhada nele!
Eiro se virou de volta para <A Morte>, que estava parada, balançando a cabeça irritada.
— Sabe, é considerado muito rude falar com os outros de tal maneira, especialmente quando se está bem na frente deles. Será que este grande monstro poderia lhes ensinar boas maneiras?
— Não acho que será necessário — respondeu Eiro. — Posso ser muito educado se eu quiser — com um estalo de dedos, Eiro concentrou todas as chamas sagradas no corpo de <A Morte>, enquanto o Morto-Vivo de Koperia, o mesmo que removeu os objetos de selamento, brandiu sua arma para cortar o corpo do monstro. Parecia que ambos os ataques acertaram com muita facilidade e Eiro viu uma mensagem que provou que havia causado muito dano ao corpo do Nobre.
Mas, de repente, viu uma mensagem diferente, uma que nunca viu antes.
[Seu ataque falhou]
— Meu ataque falhou? O quê? — Eiro franziu o cenho, mas, antes que conseguisse entender o que estava acontecendo, ela apareceu de novo.
[Seu ataque falhou]
[Seu ataque falhou]
[Seu ataque falhou]
— O que diabos está acontecendo? — murmurou Eiro e logo recebeu sua resposta.
— Mudança. Adaptação. É isto que a Carta <A Morte> realmente representa. Você achou que uma Carta do Arcano Maior é simples o suficiente para conceder apenas um tipo de habilidade? — riu o Nobre, suas diferentes vozes ecoando uma sobre as outras, parecendo que várias pessoas rissem ao mesmo tempo. — Este corpo desajeitado possui seus benefícios. Ele carece de poder, mas é imaturo. Possui tempo para crescer e mudar, o que me ajuda bastante. Ele pode ser adaptado para ‘resistir’ a esse tipo de ataque.
Eiro arregalou os olhos ao ver a nova forma de <A Morte>. Suas roupas haviam sido queimadas pelas chamas sagradas, mas o resto do seu corpo agora estava coberto por uma fina camada de uma substância semelhante a osso, mas algo estava estranho; brilhava demais. Como se não fosse osso, mas uma mistura de ossos e cristais. De qualquer modo, não parecia mais o humano que um dia já foi.
E, sem hesitação, assim que saiu dali, <A Morte> saltou do grande monte de metal quente em que estava e estendeu a mão. Na frente de seu braço, um círculo mágico começou a aparecer, sendo criado em uma velocidade similar à que Eiro era capaz de alcançar com a ajuda de seu grimório, se não mais.
Eiro levantou a mão enquanto analisava o feitiço que <A Morte> criava, retirando seu grimório. Por precaução, até desacelerou o tempo com seu anel. Eiro não permitiria que essa criatura fizesse nada.
Assim, ele se apressou em criar um contrafeitiço para o que <A Morte> tentava fazer. Assim que ela ativou seu feitiço, o contrafeitiço também foi conjurado e anulou a ativação. <A Morte> olhou para a própria mão e para Eiro.
— Oh?
Eiro quebrou a cabeça para tentar entender como ela estava conjurando tão rápido e percebeu outro benefício que vinha com o fato de ela ser capaz de se recordar de todas as vidas que roubou até então: <A Morte> mantinha toda a experiência prática adquirida com aquelas vidas. Independentemente de ter vivido como mago, guerreiro ou fazendeiro, ela ainda se lembrava de tudo o que havia vivido naquelas vidas.
Ela sabia truques para acelerar sua conjuração, como se mover para reagir ao combate corpo a corpo. Ela sabia tudo isso, além de ter os poderes que lhes foram concedidos por se tornar um Nobre.
— Oh, porra, que incrível… — resmungou Eiro baixinho, olhando para Koperia. — Você acha que ainda consegue lidar com isso?
— Hm, não deve ser um problema — ela estalou os dedos e quatro torres de chamas negras dispararam das costas dela, formando espectros sombrios. Cada um tinha garras afiadas e uma boca que parecia capaz de devorar qualquer coisa que se colocasse entre suas presas monstruosas. Os quatro espectros voaram em direção a <A Morte>.
Nos olhos de Koperia, Eiro via que os ataques estavam causando danos, mas o dano estava diminuindo aos poucos. A mesma situação que ocorreu com suas chamas sagradas a princípio e se estivesse certo, então…
[Seu ataque falhou]
Koperia estreitou os olhos, sem esperar que também sofreria do mesmo fenômeno que Eiro.
— Agora, isso é de fato muito único… — murmurou Koperia, ficando mais irritada do que intrigada com <A Morte>. Entretanto, algo mudou. A camada de ossos no corpo dela parecia diferente de antes. Então, Eiro aproveitou para atacar o Nobre mais uma vez usando as faíscas das chamas sagradas que ainda flutuavam perto dela.
Desta vez, não viu aquela mensagem sombria. Ele a danificou de novo e não pôde deixar de sorrir.
— Ah, merda, quase caí nessa. Não causou muito dano, mas pelo menos um pouco — comentou Eiro, virando a cabeça para a Necromante. — Ei, Koperia. Ele não consegue se ‘adaptar’ à múltiplas coisas de uma vez.
— Huh? Então, só temos que continuar atacando-a de diferentes formas? — perguntou ela e Eiro assentiu.
— Sim.
O Diabrete moveu o braço para baixo e produziu mais chamas sagradas a partir das que ainda flutuavam ao redor. Comprimiu sua mana neste ponto e, pouco a pouco, formou um orbe de chamas sagradas flutuando perto dele. Consumia muita mana devido à maneira como ele a controlava, já que as chamas sagradas queimavam sua mana, mas pelo menos seria eficaz de uma forma ou de outra.
— Então, vamos começar a tempestade? — perguntou Koperia com um sorriso e o Demônio acenou com a cabeça. Brandiu o orbe de chamas sagradas contra o monstro Nobre, enquanto conjurava outros tipos de magia à distância com a ajuda de seus Espíritos. Eiro não podia correr o risco de atacar de perto, ela era muito mais poderosa do que ele. Em vez disso, deixou isso para os Mortos-Vivos de Koperia.
Nenhum dos dois causou muitos danos, mas ainda assim um pouco. Pelo menos, Eiro era rápido suficiente para desviar dos ataques de <A Morte>, já que seu corpo não era poderoso quando se tratava de capacidades físicas e era capaz de cancelar qualquer feitiço que ela tentasse conjurar. Entretanto, pouco a pouco, os movimentos de <A Morte> mudaram. Ela não se tornou desleixada, em vez disso, começou a ficar mais rápida. O dano que sofria aumentava, mas ficava cada vez mais difícil acertá-la.
Seu corpo estava se adaptando de uma maneira diferente.