A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 405

A Virtude do Demônio

Eiro respirou fundo enquanto deixava sua mana fluir pelo corpo. Era uma sensação bastante relaxante e o ajudava a entrar no estado meditativo muito rápido. À medida que meditava, certificou-se de aprimorar seus sentidos o máximo possível.

Manipulou-os ao extremo, fazendo com que fossem capazes de ver o que acontecia em um raio de cinco metros ao seu redor; em comparação, todo o resto era um vazio negro. Assim, o Demônio assumiu a postura correta.

Alguns momentos depois, algo saiu desse vazio negro, mas pareceu desaparecer no instante seguinte, mas, desta vez, Eiro conseguiu manter a figura em sua percepção. Era o boneco de madeira com o qual Eiro treinava.

Fazia algum tempo desde que se dedicou a isso, e pensou que deveria terminar todas as diferentes combinações com duas fichas. Já havia conseguido completar todas as outras combinações; agora só precisava terminar aquelas em que o boneco se escondia do Demônio enquanto fazia outras coisas.

Neste instante, estava no modo combate corpo a corpo ‘furtivo’, e ele não hesitava em atacar Eiro de forma agressiva. Contudo, ao sentir cada detalhe ao seu redor, desde o fluxo de ar, pequenos pedregulhos no chão e até conseguia sentir o boneco em si, Eiro conseguia reagir aos movimentos do boneco. Para tornar isso ‘justo’ e ser fiel ao treinamento, Eiro até desativou seu <Domínio Supremo da Verdade> para que não conseguisse analisar as ações do fantoche e reagir de forma impulsiva. Queria reagir de acordo com o que sentia e não com base no que pensava que aconteceria a seguir.

Claro, era muito difícil, mas a vantagem do combate corpo a corpo era que ele necessitava de contato físico direto. Como Eiro já sabia os movimentos do boneco, conseguia reagir ao menor contato.

Como este estilo de combate dependia muito de agarrões, em certo ponto, não era mais tão necessário ter uma percepção imensa quando o boneco agarrava Eiro, ou Eiro agarrava o boneco, pois podia se guiar pelo tato, algo que nem o boneco era capaz de esconder por completo.

Desse modo, a partir disso, tornou-se como um combate normal e Eiro foi capaz de derrotar o boneco muito rápido.

Assim que o boneco admitiu derrota e Eiro passou nesse modo, o primeiro dos três modos furtivos que precisava concluir, Eiro expandiu sua percepção de volta ao normal e reativou seu <Domínio Supremo da Verdade>.

— Perfeito — sorriu Eiro. — Parece que está funcionando.

— O que diabos é isso? Parecia que você teve um derrame… — uma voz disse do lado da área de treinamento. Eiro se virou e suspirou para Ariella.

— Eu estava treinando, o que mais? Com esse boneco aqui — o Demônio disse sem rodeios, mas Ariella ainda parecia confusa com o que ele estava falando.

Eiro estendeu a mão para o lado, apontando para o boneco que apareceu ao seu lado, usando um nível incrível de furtividade para se esconder do Demônio. A Nefilim olhou para a figura de madeira, confusa.

— Espera, o que é isso? Nunca vi isso por aqui…

— Sim, porque eu me certifico de que as fichas de furtividade e combate corpo a corpo estão ativas, para que possa cobrir o perímetro com mais facilidade e impedir as pessoas de invadirem, óbvio.

— Acho que isso não é tão óbvio quanto você pensa… — comentou Ariella. — Ignorando o que essa coisa é, por que nunca te vi praticando com isso antes?

Eiro pensou a respeito por um instante enquanto se aproximava de Ariella.

— Estive muito ocupado ultimamente, então não tenho praticado muito, mas sinto que, neste momento, tenho poder suficiente para passar por todos os modos de uma vez, então pensei que deveria completar isso e terminar este aspecto do meu treinamento.

— Huh… Isso é tão difícil assim? — perguntou Ariella, olhando para o boneco. Ele não parecia tão poderoso e difícil de derrotar.

Eiro revirou os olhos e estalou os dedos. Neste instante, o boneco desapareceu e, segundos depois, Ariella sentiu seu corpo ser imobilizado, sem nenhuma chance de se defender. O boneco reapareceu e Eiro olhou para a Nefilim com um sorriso.

— É bem difícil, não é? Você pode ser capaz de derrotá-lo quando ele estiver usando apenas combate corpo a corpo ou a maestria com adaga, mas não quando combinado com furtividade assim. Esse modo foi criado para me ajudar a praticar os limites da minha percepção. Ninguém mais tem alguma chance contra isso — explicou Eiro, enquanto o boneco se afastava dela.

Ela segurou o queixo, onde o boneco segurou quando a imobilizou, e depois olhou para ele.

— Então por que não-

— Porque ele não pode causar danos aos outros. Nenhum dano real, pelo menos não como você ou eu, ou até mesmo minhas crianças. Ele pode machucar os outros, mas o dano à vida será mínimo — explicou Eiro, surpreso por ela não saber como esse tipo de coisa funcionava. Embora, para ser justo, ela também não parecesse saber muito sobre o conceito de Força Vital.

Eiro olhou para o boneco e sorriu um pouco enquanto trocava a ficha de combate corpo a corpo com a de maestria com adaga.

— De qualquer forma, você não tem mais nada para fazer? Não acho que você saiu desde que chegou, certo?

— Bem, o que eu deveria fazer? Eu completei meu objetivo de encontrar a Sacerdotisa Sagrada, mas, ao mesmo tempo, não posso prosseguir com ele, já que ela é sua filha. Tenho que esperar você se tornar forte o suficiente.

— Oh… — respondeu Eiro com um sorriso sarcástico. — Certo. Nós… chegaremos lá em breve, não se preocupe. Solomon me avisou que poderemos entrar na prisão em dois dias e eu já disse a Koperia sobre isso. Após concluirmos, subirei vários níveis, já que <A Morte> está entre os Nobres mais velhos, então devo ganhar muita experiência ao matá-la. Dessa forma, quando chegar o equinócio, devo estar pronto para irmos.

Ariella olhou para Eiro.

— Por que especificamente o equinócio de outono?

— Hm? Oh, eu tenho uma conexão próxima com solstícios e equinócios, então penso muito nessas datas.

— Certo. Então, assim que chegar o equinócio de outono, podemos ir matar <O Diabo>? — questionou Ariella, e Eiro coçou a nuca.

— Não, não exatamente, já que não temos uma forma adequada de rastreá-lo. Perto do equinócio de outono, haverá um período de duas semanas de férias para os alunos da escola, o que deve ser suficiente para eu voltar até a capital do Império Sagrado com James, Jess e Krog. Cuidaremos daquilo que prometi a James e depois iremos encontrar uma certa vila por onde passei há oito anos. Era um local de experimento para <O Diabo>, então deve nos dar algumas pistas.

— O que, uma vila perto da capital do Império Sagrado é um campo de teste para <O Diabo>? Isso parece meio… — comentou Ariella, surpresa de ouvir essa informação e Eiro acenou a cabeça.

— Parece estranho, certo? Esse tipo de coisa é o senso de humor de <O Diabo>.

Eiro se virou e voltou para o centro do campo de treinamento.

— Você pode pensar se quer vir conosco; você ainda tem tempo para se decidir até partirmos para o Império Sagrado, mas, por ora… deixe-me continuar praticando — sugeriu o Demônio, chamando o boneco.

Ariella assentiu, já em profunda contemplação enquanto refletia se deveria, ou não, viajar junto deles. Em grande parte, parecia uma resposta óbvia, mas ainda não era o tipo de decisão que se poderia tomar sem passar um tempo refletindo.

Enquanto a Nefilim se ocupava com isso, Eiro continuou sua prática com o boneco. Entregou uma adaga para ele e assumiu sua postura, limitando sua percepção da mesma forma que fez mais cedo antes de se preparar para qualquer ataque que viesse.

Desta vez, Eiro precisava de muito mais cautela do que antes. O estilo para a maestria com adaga era mais dependente de cortes e estocadas rápidas, enquanto se movia rápido, quase sem contato físico, então ele precisava focar mais no boneco por meio de seus outros sentidos do que do tato, mas, ao mesmo tempo, isso significava que sabia que podia reduzir a força do seu tato para fortalecer seus outros sentidos. Já havia feito isso com seu paladar, já que era óbvio que não precisaria dele nesta luta.

Assim, Eiro continuou praticando com o boneco de madeira.

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