
Volume 4 - Capítulo 404
A Virtude do Demônio
Eiro logo chegou à sua próxima aula. Por coincidência, era uma das aulas práticas que lecionava ao mesmo tempo que as dos anos mais avançados, o que incluía Richard.
O jovem estava em pé, segurando sua arma, pronto para começar a prática da aula e ficou atônito ao ver Eiro entrar no grande campo de treinamento. O Demônio acenou para Richard, mostrando que de fato encontrou o mago. Com um pequeno sorriso, Eiro sussurrou algo e manipulou o ar para sua voz chegar até o jovem.
— Encontre-me depois da aula, por favor.
Assim, o resto da classe prosseguiu sem problemas. Eiro sentiu alguns olhares de Richard e ouviu alguns de seus murmúrios de vez em quando, mas, na maior parte, foi apenas uma aula normal como qualquer outra. Assim que a aula terminou, em vez de encontrar Eiro, Richard deixou a área, muito provavelmente para tentar encontrar o mago. Claro que ele já tinha ido embora há muito tempo, Eiro se certificou disso. Ele não queria sair por conta própria, então o Demônio o expulsou.
Entretanto, embora o mago não fosse um problema para Eiro em particular, ele poderia ter sido uma ameaça para outros que se tornariam alvo de Richard. Como Rico, o alvo original do bullying de Richard, ou as crianças de Eiro. Claro que nem todas, Arc e Rudy seriam capazes de escapar do mago de alguma forma, já que eram da linha de frente, mas se Sammy, Clementine ou Felix se tornassem um alvo, uma arqueira, um suporte e um não combatente, isso seria um problema.
Eiro tinha que se certificar de que Richard entendesse que não podia fazer esse tipo de coisa. Por ora, não havia mais nenhuma ameaça. Pela forma como Richard estava agindo, era provável que tivesse contratado apenas uma pessoa para tentar eliminar Eiro e levaria um tempo até que contratasse outro.
Então, por enquanto, Eiro continuaria a lecionar suas aulas do dia.
—
Assim que o trabalho terminou, Eiro checou o campus para ter certeza de que ninguém perigoso estava escondido, enquanto os alunos se dirigiam aos dormitórios ou saíam do campus. Conforme fazia isso, se deparou com um certo colega. Kristoph, um membro companheiro da organização.
— Ei, como você está? — perguntou o Demônio com um sorriso e Kristoph parecia bastante irritado ao retribuir o olhar.
— Essa é uma pergunta genuína? Algum idiota mexeu nas medidas protetivas que montávamos aqui e isso está me assustando. É semelhante a… você sabe, aquele incidente ano passado. Estou percorrendo o campus para ver se há mais alguma coisa errada, poderia me ajudar? Sei que sua percepção é muito melhor do que a minha, então você deve ser capaz de descobrir com mais facilidade.
Engolindo seu orgulho, Kristoph pediu a ajuda de Eiro. Nas últimas semanas, os dois mantiveram uma relação estritamente profissional e não conversaram nem um pouco fora das aulas. Eles nunca comentaram sobre a organização, agindo como se isso não existisse e como se não soubessem sobre parte dos segredos um do outro. Esta foi a primeira vez que Kristoph mudou isso, então ele deveria estar muito sério.
— Sério? Isso é similar de que forma? — perguntou Eiro. Não sabia muitos detalhes sobre aquele incidente, afinal. Kristoph cruzou os braços, pensativo.
— Bem… Sabe sobre a barreira ao redor da escola, certo? Embora não impeça a entrada de pessoas, permite que tenhamos alta vigilância sobre o que acontece aqui, se tentarmos descobrir ativamente o que está acontecendo. Também nos permite conjurar feitiços através da barreira para qualquer lugar dentro dela. Antes do incidente do ano passado, perdemos o controle sobre a barreira. Não conseguíamos acessar nenhuma das informações que ela fornecia nem éramos capazes de interagir com ela.
— E isso aconteceu de novo?
— Mais ou menos. Não conseguimos ver a informação, mas ainda podemos acessá-la de outras formas. Claro, sem as informações que a barreira fornece, é muito arriscado, mas pelo menos não é a mesma situação. Ainda assim, estou preocupado que isso aconteça — explicou Kristoph para Eiro, que ficou confuso. Se esse fosse o caso, então muito provavelmente Richard tinha algum tipo de contato com quem quer que tivesse orquestrado o incidente do ano passado. Era coincidência demais, afinal.
Eiro não tinha permissão para entrar na sala onde a barreira foi construída e mantida, mas ainda era capaz de sentir alguns aspectos dela, em especial depois de se fundir com um dos seus Espíritos. A barreira foi criada por meio de uma formação complicada, muito complicada de se construir, mesmo após muita pesquisa, sem mencionar a dificuldade de analisá-la depois de ter sido criada por outra pessoa. Como havia um pré-requisito para controlar tal estrutura, era necessário um mago ou um artífice extremamente habilidoso.
— Isso… é de fato problemático. Fui atacado por um mago hoje, Richard o contratou porque eu expus que tipo de pessoa ele é para o pai dele — explicou Eiro. Kristoph o encarou, perplexo.
— E quando você pensou em reportar isso?
— … Não pensei, na verdade. Só queria falar com Richard por conta própria. Ele é parte da família do meu amigo e a situação é ainda pior, pois Solomon e Marcus são muito próximos. Richard tem alguns problemas, mas não quero arruinar a vida dele se puder ser evitado.
— … Como você é esse tipo de pessoa na escolha, mas massacra pessoas sem hesitação em qualquer outro lugar? — questionou Kristoph, com uma carranca profunda e Eiro deu de ombros.
— Estou tentando algo novo. Tentando me encaixar no papel de um “professor”, e… ao mesmo tempo, estou tentando encontrar alguns novos lados de mim mesmo enquanto desempenho esse papel. Então, se eu conseguir, irei até o fim.
— Sim, mas isso tem seus limites. Se Richard contratou o professor que fez isso… — Kristoph murmurou e Eiro o encarou surpreso.
— Não acho que ele contratou o professor.
— Verdade… ele enlouqueceu, duvido que seja possível convencê-lo de algo assim.
Eiro encarou Kristoph e esfregou a ponte do nariz.
— Você é idiota, porra? Claro, aquele cara não enlouqueceu de verdade! Como você não está conectando os pontos do que acabou de me contar? Se havia problemas com a barreira algumas semanas antes do incidente, o ‘incidente’ foi planejado. Aquele cara não enlouqueceu, ele fez de propósito.
— O quê? Não, não, mas ele era um cara legal, uma das pessoas mais legais que já conheci. Ele só teve muito azar — disse Kristoph, descartando a sugestão de Eiro como se fosse ridícula. Irritado, o Diabrete olhou nos olhos de Kristoph.
— Desculpe por isso.
— Hm, o que você… — Kristoph foi interrompido quando Eiro pressionou a mão na testa do homem. Ele sussurrou, de forma que apenas Bavet o escutasse.
— Você sente alguma coisa?
— Sim, agora que você mencionou… há um selo, como o do Rei. Na verdade, igual.
— Ah, merda… Eu não achava que isso era possível… — suspirou Eiro. — Pelo menos, tínhamos encomendado muitos mais materiais do que precisamos apenas para Solomon.
— Não, você não entendeu… — respondeu Bavet. — Este selo é exatamente igual ao de Solomon. Quem quer que tenha selado as memórias deles fez isso de uma só vez. Com a mesma conjuração das artes de selamento.
— Então, foi alguém muito poderoso… Interessante…
— Mas também significa que teremos que quebrar tudo de uma só vez… Ou melhor… Ah, merda, deixe-me pensar por um instante, não sou tão esperto como você… — resmungou Bavet na orelha de Eiro, enquanto o Demônio suspirava. Kristoph bateu na mão de Eiro e o encarou.
— O que diabos você está fazendo? Falando consigo mesmo?
— Tipo isso — Eiro respondeu. — Bem, eu explico isso para você em outra ocasião. Mais importante, quem sabe sobre o fato de que a barreira não podia ser controlada ano passado?
Kristoph estava confuso, mas pensou a respeito por um momento.
— Talvez uma dúzia de pessoas? Sua majestade, o diretor… Eu, Merlin, um dos magos de segurança que nos alertou sobre isso, e… ah, claro, o cara que fez a barreira em primeiro lugar. Assim como você, mas de alguma forma pensei que você já soubesse sobre isso. Caso contrário, conseguimos manter segredo de todo o resto. Assim espero, pelo menos.
— Certo… — murmurou Eiro. Isso significava que ele tinha que checar mais quatro pessoas. — Diga-me o nome dessas duas últimas pessoas. Oh, aliás, por ora, saiba que não há ninguém no campus com quem você precise se preocupar.
— O quê? Espero que não me deixe apenas com isso.
— Eu meio que estava planejando isso — Eiro deu de ombros. Kristoph grunhiu.
— Eu acabei de te dizer um segredo que eu não podia contar e você não vai me dar nenhuma informação?
— Sim. Porque eu não tenho mais informação. Vou descobrir em breve e, quando eu descobrir, eu te aviso. Isso também envolve você, afinal — disse o Diabrete. Kristoph suspirou fundo.
— Tudo bem. Irei te lembrar disso daqui alguns dias.
Kristoph saiu para checar certas partes da barreira, enquanto Eiro virou a cabeça para olhar para seus Espíritos, que o encaravam, preocupados.
— Mais um dia, mais um problema para resolver… Não que eu estivesse ocupado…