A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 402

A Virtude do Demônio

Os três companheiros viraram a cabeça e se olharam. Certamente todos eles queriam ficar mais fortes e o mais rápido possível, mas se Eiro disse que poderiam morrer, então ele quis dizer isso. Ele não mentiria sobre algo do tipo.

Depois de reunirem um pouco de determinação, olharam direto para o Demônio em união e acenaram com a cabeça.

— Estamos preparados — James falou pelos outros dois e sabia que isso era a mais pura verdade.

Eiro respirou fundo enquanto reunia sua mana em um ponto na sua mão. Estava manipulando seus circuitos de mana para o que estava prestes a acontecer, já que isso tornaria tudo mais fácil de se fazer e, mais importante, de controlar.

O Diabete deu alguns passos em frente e pressionou a palma no peito de James. Como o líder original deste grupo, ele iria primeiro.

— Sinto muito por isso. Vai doer bastante.

Desse modo, Eiro manipulou o caos que girava ao redor de James.

Todos tinham uma certa força de caos ao seu redor. Qualquer coisa que vivesse e tivesse livre-arbítrio, tinha. Afinal, havia uma quantidade incrível de coisas que poderiam acontecer de repente. E esse era o conceito que Eiro manipulou junto do uso restante da “parada do tempo” que restava nos artefatos artificiais que tinha.

A primeira coisa que fez foi aumentar o caos, fortalecê-lo. Isso, por isso, fez James se sentir bastante sobrecarregado. A quantidade de possibilidades que seu corpo tinha para seguir em frente aumentou de imediato, embora estivesse fadada a desaparecer no instante em que Eiro parasse de controlá-la. Então, Eiro trouxe ordem a esse caos extremo, depois de conseguir encontrar a “possibilidade” específica que queria alcançar.

Mas, ao mesmo tempo em que o controle da “verdade” ou “ordem” alcançou o caos, Eiro empurrou a “parada do tempo” no Elfo da Luz. No entanto, Eiro não o fez da maneira normal; em vez disso, ele entrelaçou o caos do artefato com o de James.

Depois disso, Eiro deu um passo para trás, afastando a mão. Por alguns momentos, parecia que James estava bem, como se nada tivesse acontecido, mas, de repente, ele caiu de joelhos, ofegando. Ao mesmo tempo, Eiro retirou a máscara de James, mas, mesmo assim, a respiração de James não melhorou, embora devesse.

— Isso é algo que tentei apenas algumas vezes com alguns monstros vagando pelos arredores da cidade. Eu manipulei o caos para fazer com que seu corpo fosse predeterminado a aumentar a musculatura e as habilidades exatas necessárias para elevar sua estamina a um nível extremo. Isso geralmente só aconteceria com o tempo. O anel foi usado para estabilizá-lo, “prender” o caos no tempo na exata forma que eu queria. Se você tivesse passado pelo treinamento como eu disse, isso não seria tão doloroso. Seu corpo já teria se acostumado a tais mudanças. Claro, ainda doeria, só que não tanto — explicou Eiro enquanto se agachava na frente de James. — Mas agora você não tem tanta sorte. Desta vez, você terá que lidar com a dor e a possibilidade de morte. Seu crescimento vai acelerar de forma considerável, mas isso fará com que deseje a morte se não se concentrar o suficiente. Você precisa continuar trabalhando sua respiração e estamina se não quiser morrer.

Era claro que James, estando com problemas extremos, acabaria sufocando até a morte se não se recompusesse. Foi neste instante que James lembrou do que Eiro fez quinze minutos mais cedo. E o Elfo da Luz começou a bater no próprio peito, eliminando qualquer ar que restasse em seus pulmões o mais rápido possível. Então, ele poderia preencher esse vazio com ar fresco, o que conseguiu fazer até certo ponto.

Ele sentia dor. Uma dor que o fazia sentir que morreria a qualquer momento, mas James se levantou do chão e encarou fundo nos olhos de Eiro, enquanto seus próprios estavam injetados de sangue.

— Bom. Agora, medite, acostume-se com isso. Resolva primeiro os problemas com sua respiração e depois continue o treinamento que lhe designei desde o início — disse Eiro a James, que, sem hesitar, se jogou no chão e respirou fundo algumas vezes enquanto começava a meditar. Então, Eiro se virou para seu próximo alvo: Krog.

Ele já estava recuando, nervoso, enquanto olhava para Eiro.

— Isso significa que todo meu corpo vai…

— Sim, todo seu corpo estará com uma dor imensa, a cada segundo do dia. O de James é o que mais corre risco de morte, motivo pelo qual irei me certificar de prestar mais atenção nele. Você provavelmente será aquele que sentirá mais dor, enquanto Jess… pode ter alguns outros tipos de problemas para lidar, mas não é definitivo — explicou Eiro, colocando a mão no peito de Krog. — Está pronto?

— Você acabou de dizer que vou sentir uma dor imensa, não, eu não estou nada pronto! — exclamou Krog, com os músculos se contraindo de nervosismo, mas era tarde demais. Eiro já havia começado a manipular o caos ao redor dele, de forma similar a como controlou o de James. Em vez de se concentrar na estamina de Krog, o Demônio o focou para que os músculos se desenvolvessem mais. Como Krog precisava fortalecer os músculos de todo o corpo, ele ficaria com dor em todo lugar. E com muito mais intensidade que o normal, ainda mais do que quando Eiro rasgou os próprios músculos e depois os curou para acelerar seu próprio treinamento.

Assim que Eiro terminou, todos os músculos de Krog se contraíram. Tanto que Eiro ficou com medo de que quebrariam os ossos dele, mas, por sorte, Eiro conseguiu ajudá-lo a relaxar um pouco os músculos.

— Agora, comece devagar. Faça coisas normais e aumente aos poucos a intensidade de suas ações até que esteja no seu regime de treinamento usual — disse o Demônio e depois olhou para Jess. Ela já estava segurando o próprio braço, nervosa.

— E o que vai acontecer comigo…? — perguntou ela. Eiro pensou sobre isso por um momento.

— Bem, no seu caso, influenciarei algo em sua mente, então… dores de cabeça extremas, cansaço, perda de memória a curto prazo. Esses tipos de coisas. Você pode ficar um pouco mais confusa do que o normal enquanto tudo isso acontece, mas, enquanto estiver lendo algo, não deve ser um problema. Então, continue lendo o máximo que puder, não pense muito no resto e você ficará bem.

— … Você acabou de dizer perda de memória? — questionou Jess, com um sorriso nervoso e Eiro acenou a cabeça.

— Sim, mas isso não deve ser tão ruim. Mesmo que perca alguma memória a longo termo, você deve conseguir recuperá-la. Eu te ajudo com isso e se não funcionar, pedirei para Lognir ajudar também. Então, não se preocupe. Oh e só uma dica: em vez de ler cada palavra como você faz agora, só dê uma olhada em tudo. Você vai acabar registrando de qualquer forma.

— C-Certo… Certo, faça isso… — disse Jess e Eiro assentiu. Ele colocou as mãos na cabeça dela e manipulou seu caos, concentrando-se na capacidade dela de processar e reter informação. Assim que Eiro terminou com isso, a visão de Jess ficou atordoada e ela começou a segurar a cabeça de dor.

— Não se preocupe, está tudo bem — disse Eiro, enquanto Jess caía no chão e o Demônio colocava um livro aberto em sua mão. — Acalme-se e apenas leia.

O Demônio ajudou Jess a se levantar de volta e se virou para James e Krog.

— Vou levá-la até a biblioteca. Fiquem aqui, eu já volto.

Assim, o Demônio aumentou a velocidade com que esses três ficariam mais fortes, em troca de terem que lidar com uma dor imensa. Apesar disso, a dor que estavam sentindo agora não era nada ao que sentiriam depois que começassem a treinar. Sem dúvidas, Eiro teria que prestar muita atenção neles.

— Isso foi mesmo uma boa ideia, Eiro? Eles não irão só se machucar? Algo nesse nível pode ser bastante perigoso para eles a longo prazo, não é? — perguntou Nelli, nervosa e Eiro virou a cabeça para ela.

— Sim e não. Na maior parte, eles ficarão bem. Continuaremos a curá-los e, assim, nada acontecerá. Na verdade, não haverá danos aos corpos deles. Conforme o progresso deles nessas áreas aumenta, a recuperação deles também aumentará. Isso se equilibra, sabe? A única coisa com que precisamos prestar atenção é para que eles não desenvolvam maus hábitos, bagunçando as coisas de forma lenta — explicou Eiro a Náiade, que ainda não estava convencida.

O Diabrete suspirou fundo.

— Não se preocupe, irei checá-los de manhã e sempre que tiver tempo, depois do término das aulas. Se eu notar o menor dano físico que não deveria ter acontecido, eu desfaço o que fiz com eles. Então, acalme-se, eles mesmos escolheram isso.

— Justo — Nelli deu de ombros. — Ainda estou um pouco preocupada, sabe?

— Claro que sei, também estou preocupado. Por isso que vou ficar de olho neles, como eu disse… Porém, se tudo der certo, o que presumo que dará, então esses caras ficarão muito mais fortes, muito mais rápidos, em especial depois que se acostumarem o suficiente com a situação para que possamos começar a caçar.

Comentários